Após 26 anos, dengue tipo 4 reaparece no Brasil

Exames de três pacientes de Manaus confirma o reaparecimento da variante, que pode ter vindo da Venezuela

Gustavo Miranda, estadao.com.br

27 de março de 2008 | 16h26

Uma variante do vírus da dengue que não era identificada no Brasil desde 1982 está de volta ao País. A descoberta está descrita num artigo na edição de abril da revista científica 'Emerging Infectious Diseases', assinado por uma equipe de pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas e foi confirmada nesta quinta-feira, 27, pelo diretor presidente da fundação, Sinésio Talhari. A variante DENV-4, como é chamado o tipo 4 do vírus da dengue por infectologistas, foi encontrada em três exames realizados em Manaus (AM).  VEJA TAMBÉM Especial - A ameaça da dengueFundação identifica dengue tipo 4 em Manaus; ministério negaEpidemia de dengue ameaça 30 cidades do PaísFamosos doam sangue na luta contra dengue no Rio Rio deixou de investir repasse da Saúde contra dengue, diz TCMTemporão diz que Maia sabia do risco de epidemia de dengue Cesar Maia acusa ministério de omissão 'criminosa' por dengueMedo da dengue aumenta procura por repelentes no RioPM pode arrombar porta de quem dificultar trabalho de agenteDengue atinge status de epidemia no Rio A descoberta coloca em alerta toda a comunidade médica e as vigilâncias epidemiológicas do País inteiro, pois a infestação de uma variante do vírus não pode ser prevista ou impedida, por causa da movimentação de pessoas. "A infestação não acontece imediatamente porque os mosquitos precisam se adaptar para virarem transmissores do vírus tipo 4 da doença. Mas o risco de infestação, na prática, é o mesmo dos outros tipos, que já são comumente encontrados no País", explicou a infectologista Maria Paula Mourão, uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo. Em termos de gravidade, o tipo 4 do vírus não representa nenhum sinal a mais de preocupação. O que preocupa, na prática, é que a descoberta mostra que a população está suscetível a mais uma variante da doença. "O mais alarmante é a chance de os indivíduos serem novamente expostas a ter dengue novamente. As estatísticas comprovam que as chances de o paciente ter dengue grave aumentam consideravelmente quando é a segunda ou terceira vez que ele é infectado por uma variante diferente do vírus", explica a infectologista. A médica cita que no primeiro contato com a doença, um adulto tem 0,2% de chance de desenvolver uma versão grave da doença. No segundo contato, esse número pula para 2% de chance e, em um terceiro, são 10% de chance. "O número isolado pode parecer pequeno. Mas, a variação das chances de o cidadão desenvolver uma dengue hemorrágica fatal varia 500% da primeira vez à terceira em que o indivíduo é infectado. Isso é muitíssimo preocupante", diz a infectologista. Segundo a pesquisadora, a hipótese mais provável é a de que o vírus tenha entrado no País via a fronteira com a Venezuela. "Manaus tem uma importante ligação, via estrada, com a Venezuela. A hipótese mais provável é de que o vírus tenha chegado por lá, principalmente porque os venezuelanos já registravam a prevalência do tipo 4 há algum tempo. Isso reforça a nossa hipótese", diz Maria Paula. Como foi o estudo O ponto de partida do estudo para chegar até o resultado foi a análise de pacientes com sintomas que, à primeira vista, lembravam os da malária. O trabalho de pesquisa faz parte de uma parceria do Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas (Inpa), Universidade Federal do Amazonas, Hospital Tropical e Universidade de Porto Rico, cujo laboratório validou as amostras pesquisadas em Manaus e possibilitou a publicação do estudo na revista, que é vinculada ao departamento de saúde do governo norte-americano.  São conhecidos quatro sorotipos da dengue - os tipos 1, 2, 3 e 4, sendo que até essa descoberta não se acreditava que no Brasil o tipo 4 estivesse em circulação. A infecção por um deles dá proteção permanente para a mesma variante e imunidade parcial e temporária (geralmente de seis meses a um ano) contra os outros três. "Embora a descoberta desse novo tipo seja importante para a comunidade científica, é mais importante ainda lembrar que quem faz o estrago todo é o mosquito. Só há dengue onde há mosquito. Isso só faz crescer a demanda por trabalhos de erradicação do vetor (Aedes aegypti)", explica Maria Paula. Políticas públicas incompetentes Segundo a especialista, o perfil epidemiológico está mudando no País, com a repetição cada vez maior de formas mais graves e mais freqüentes, especialmente em crianças. A explicação da infectologia é simples: à medida em que os adultos vão acumulando os vírus e vão ganhando imunidade para os outros tipos de vírus, as crianças não. "Dengue do tipo grave acontece predominantemente em crianças. Mas, isso não pode servir, por exemplo, para explicar as mortes por dengue de crianças no Rio de Janeiro. As mortes por dengue são resultado de uma saúde pública incompetente, que não foi capaz de identificar a gravidade da doença e hidratar corretamente as crianças", cita a médica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.