ALEX DE JESUS
ALEX DE JESUS

Após aumento na ocupação de leitos de UTI, prefeitura de BH paralisa processo de reabertura

"Deus permita que na próxima semana não tenhamos que anunciar lockdown", disse o prefeito da capital, Alexandre Kalil, ao anunciar a paralisação de reabertura do município

Leonardo Augusto, Especial para O Estado de São Paulo

29 de maio de 2020 | 20h56

BELO HORIZONTE - Com piora no índice de transmissão do novo coronavírus e aumento na ocupação dos leitos de unidade de terapia intensiva e de enfermagem em Belo Horizonte, o prefeito da capital, Alexandre Kalil (PSD), anunciou nesta sexta-feira, 29, a paralisação no processo de reabertura da cidade

A volta gradual da atividade econômica no município foi iniciada na última segunda-feira, 25. A segunda fase estava prevista para a próxima segunda, 1. "Deus permita que na próxima semana não tenhamos que anunciar lockdown", afirmou Kalil, durante o anúncio da suspensão da reabertura da cidade, nesta tarde, na sede da prefeitura.

A decisão levou em consideração também, conforme o secretário municipal de Saúde, Jackson Machado, risco de contágio em cidades do interior e da Região Metropolitana, que dependem do sistema de saúde da capital. Na última segunda, voltaram a funcionar na cidade shoppings populares, livrarias e salões de beleza, por exemplo. Na próxima segunda, voltariam lojas de roupas, calçados, acessórios e material esportivo, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH). Os setores que voltaram na segunda passada seguem funcionando.

Dos três indicadores anunciados pela prefeitura como fundamentais para a reabertura da cidade, um entrou em alerta vermelho, o que mostra o índice de possibilidade de transmissão do vírus. Os os outros dois, sobre leitos de UTI, também aumentaram, mas permanecem em alerta amarelo. O que mede a transmissão passou de 1,09 na sexta-feira, 22, para 1,24 ontem, 28. Os índices sobre ocupação de leitos em hospitais, na mesma base de comparação, passaram de 40% para 52%, para leitos de UTI, e de 34% para 43% para leitos de enfermagem.

O prefeito da capital afirma que, se dependesse apenas da cidade, a reabertura poderia ocorrer de forma mais rápida. "Se Belo Horizonte fosse uma ilha, poderíamos flexibilizar", disse. Conforme o prefeito, em apenas um dia da semana chegaram 56 pacientes com covid-19 para atendimento no sistema de saúde da capital. "As curvas no interior são exponenciais, e não estamos chamando a atenção de ninguém. Estamos avisando o que está acontecendo no interior", acrescentou. Os dados sobre outras cidades do estado foram coletados pela prefeitura de Belo Horizonte junto à secretaria de Estado da Saúde.

O secretário municipal Machado afirma que 17,2% dos pacientes de covid-19 em tratamento na capital são de outras cidades do estado. "Recebemos forte influência do interior e, por isso, temos que botar o pé no freio", disse o auxiliar do prefeito. Belo Horizonte tem 867 leitos para a doença, sendo 220 em UTIs e 647 em enfermarias. A prefeitura afirma que, por parceria com hospitais, pode abrir mais 729 de UTI e 1752 de enfermaria, a qualquer momento.

Machado afirmou ainda que a prefeitura acompanha a entrada do vírus em favelas da cidade e informou que a prefeitura vai utilizar imóveis como albergues para isolamento de moradores destas regiões que possam apresentar sintomas da doença. Conforme Kalil, na cidade moradores de regiões mais carentes têm mais responsabilidade em relação a medidas de isolamento social e uso de máscaras, por exemplo, do que integrantes das classes mais altas.

O presidente da CDL-BH, Marcelo de Souza e Silva, classificou a decisão da prefeitura como "um balde de água fria". Para o dirigente, o governo municipal poderia seguir com a reabertura. "É lamentável. Havia espaço para que a abertura gradual continuasse", declarou. Segundo Silva, os números de leitos citados pela prefeitura se referem apenas a hospitais públicos, excluindo estabelecimentos privados e o hospital de campanha com 800 leitos montado na cidade, e que segue vazio. "Se levar em consideração tudo isso, a taxa cai para 20%", afirmou.

Silva disse que os comerciantes se comportaram bem no retorno da primeira fase. "Todos forneceram álcool em gel, forneceram proteção para seus funcionários e clientes", disse. Na segunda-feira, o principal shopping popular da capital, o Oiapoque, registrou fila de dobrar o quarteirão horas antes da abertura. Conforme dados do dirigente, dos 1,8 milhão de postos de serviço de Belo Horizonte, 1,5 milhão são do setor do comércio. Na segunda, cerca de 30 mil pessoas retornaram ao trabalho.

Um pra lá, outro pra cá

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, dão sinais divergentes na condução do combate à epidemia no estado. Na quinta-feira, o governo de Minas anunciou que as regiões Centro, onde está Belo Horizonte, e Leste do Sul, podem avançar para a chamada onda amarela, a segunda fase do plano Minas Consciente, que prevê a reabertura gradual de municípios. Ao todo, conforme o governo, 154 cidades "foram consideradas seguras para a reabertura de livrarias, papelarias e lojas de roupas e calçados".

A decisão, ainda segundo o governo, foi tomada em reunião do comitê do estado criado para discutir estratégias diante da pandemia. Os critérios para a adoção das medidas são semelhantes aos usados pela prefeitura de Belo Horizonte: número de leitos disponíveis e capacidade de atendimento das unidades de saúde.

O estado afirma ter levado em conta ainda a taxa de letalidade da doença em Minas, de 3,4%, ante 6,3% do registro no Brasil, conforme o governo. A decisão de aderir ao Minas Consciente é da prefeitura de cada cidade. Até o momento, dos 853 municípios de Minas, 87 aderiram ao programa. O governo acrescentou ainda hoteis à onda verde. O objetivo é que o setor do turismo "volte gradativamente às suas atividades com garantia e segurança à saúde de todos os envolvidos", diz o estado.

O governo iniciou reuniões com representantes de municípios para a importância da adesão  das prefeituras ao Minas Consciente. O chefe de gabinete da Secretaria de Estado de Saúde, João Pinho, em entrevista coletiva remota nesta sexta, 29, afirmou que o programa dá os parâmetros da população para "o que vem sendo chamada de nova normalidade". "Nós teremos o convívio com o coronavírus, portanto, precisamos de ações coordenadas entre os municípios e seus vizinhos", justificou.

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