Marcelo Chello/Estadão
Marcelo Chello/Estadão

Após denúncias de falhas em aplicação de vacinas, cidades reforçam vigilância sobre injeção de doses

Goiânia, Manaus e Maceió registraram problemas no momento da imunização; prefeituras têm recomendado mostrar frascos e seringas a pacientes e acompanhantes

José Maria Tomazela e Liege Albuquerque, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 05h00

SOROCABA E MANAUS – As secretarias de Saúde de Goiânia, em Goiás, Maceió, em Alagoas, e Manaus, no Amazonas, revisaram os procedimentos para evitar falhas na aplicação de doses da vacina contra a covid-19 e também para evitar problemas de desvio de doses em benefício próprio ou de terceiros. As três capitais tiveram flagrantes após denúncias de parentes de idosos que não receberam a injeção dos imunizantes adequadamente. Os casos são apurados, mas as pastas já adotaram medidas para reforçar a vigilância sobre a correta aplicação da vacina.

Em Maceió, os profissionais de saúde passaram a ser obrigados a mostrar o frasco de vacina cheio, fazer a carga do êmbolo na frente do idoso e mostrar a seringa vazia após a aplicação. Em Goiânia, foi incentivada a participação de acompanhantes no momento da vacinação e o processo passou a ser acompanhado por supervisores. Eles registram o momento da vacinação e fazem relatórios.

Casos como esses ainda são pontuais, mas já foram incluídos na lista de possíveis fraudes apuradas pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), com o apoio do Ministério Público Federal. As promotorias do Ministério Público estadual também apuram as denúncias.

Em Goiânia, no último dia 10, a idosa Floramy de Oliveira Jordão, de 88 anos, se apresentou para a vacinação no Setor Universitário e a enfermeira colocou a agulha em seu braço, mas não injetou o imunizante. A cena foi registrada pela filha da idosa, Luciana, de 57 anos. “Eu estava filmando e percebi na hora que ela não tinha aplicado, pois a vacina estava toda na seringa. Aí questionei e ela admitiu que não tinha injetado. Disse que foi um erro e vacinou de novo”, contou.

Segundo ela, a mãe ficou muito nervosa com o episódio e a repercussão. “Ela foi picada pela agulha duas vezes, ao invés de uma.” A Secretaria Municipal de Saúde informou que a enfermeira foi afastada da campanha de vacinação e ainda responde a processo administrativo. Segundo a pasta, os elementos já colhidos indicam que a profissional não agiu de má-fé. “Embora seja uma profissional experiente, tudo aponta para falha humana não intencional”, disse a pasta.

O caso levou a um reforço nos procedimentos de segurança. Supervisores passaram a acompanhar todo o processo e foi incentivada a presença de acompanhantes da pessoa idosa no momento da vacinação.

“Como a vacinação está sendo feita em sete escolas, em locais amplos e arejados para evitar aglomeração, inclusive pelo sistema drive-thru, não é possível ter câmeras em todos os locais, mas os supervisores acompanham e registram tudo”, disse a pasta. Até essa quinta-feira, 11, tinham sido aplicadas 5.314 doses, incluindo idosos acamados.

Em Maceió, uma técnica de enfermagem foi afastada em 28 de janeiro após deixar de aplicar a vacina em uma idosa de 97 anos. Conforme a advogada Andréa Lyra Maranhão, neta da anciã, a cuidadora filmou o momento da vacinação a pedido da família. “A intenção era fazer esse registro para compartilhar no grupo da família e comemorar, porque ela estava há muito tempo em isolamento”, disse.

Segundo ela, um parente, médico, observou as imagens e percebeu que a vacina não tinha sido injetada no braço da idosa. A avó foi levada de novo ao posto de vacinação. “Foi preciso mostrar as imagens para que eles corrigissem a falha e aplicassem corretamente a vacina”, disse.

A prefeitura de Maceió informou que o caso foi isolado e que a profissional de saúde foi afastada. Ela responde a um processo administrativo e a procedimento de apuração aberto pelo Ministério Público de Alagoas. O município informou ainda que o caso levou a uma revisão no protocolo de vacinação. Desde então, o profissional de saúde passou a mostrar ao paciente a seringa cheia antes da aplicação e vazia após o procedimento para a convicção de que a seringa foi esvaziada.

O MP disse que "apurou indícios cíveis e criminais, mas até o momento a servidora não foi ouvida, visto que o promotor aguarda que o município devolva um questionamento por ele elaborado para acompanhamento do caso”, informou a assessoria. Segundo a nota, o MP solicitou ao Instituto de Criminalística perícia na lixeira na qual teria sido feito o descarte do material.

Em Manaus, a denúncia da família de uma idosa fez com que ela fosse vacinada outra vez no dia 3. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, houve “falta de atenção quanto a problema no êmbolo da seringa, que não aspirou o líquido do frasco”. A pasta diz ter feito nova orientação a todos os postos, para redobrar cuidados para encaixe de agulha ou eventuais problemas de fabricação das seringas. Disse também estimular denúncias sobre problemas. Procurados, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde e o Ministério da Saúde não se manifestaram.

Na internet, também circulam vídeos que sugerem o uso de seringas vazias na aplicação da vacina ou simulações do momento da imunização, mas se tratam de edições manipuladas por grupos antivacina para disseminar desconfiança sobre os imunizantes. O Estadão Verifica mostrou que são falsas as acusações de que a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, foi imunizada sem agulha ou seringa. Também não são verdadeiras as mensagens que sugerem uma vacinação encenada da vice-presidente americana, Kamala Harris

Ministério lançou campanha para denúncias sobre vacina 'pirata'

Oportunistas que se aproveitam da ansiedade das pessoas para tomar a vacina levaram a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) do Ministério da Justiça e Segurança pública a lançar uma campanha com o slogan ‘Vacina pirata, não!’ para combater a venda de vacinas falsificadas pela internet. A iniciativa tem a participação do Ministério Público Federal, que já realizou ações contra as páginas que anunciam a venda de vacinas e divulgam informações falsas em redes sociais.

Com o apoio do MPF, a Senacon investiga mais de dois mil sites suspeitos de oferecer vacinas ilegais ou induzir o consumidor a erro sobre o tema. A comercialização de doses é crime e traz risco para a saúde e a segurança dos pacientes. A secretaria realiza varreduras em plataformas de comércio eletrônico para identificar os anúncios. Também foi aberto um canal para receber denúncias dos casos suspeitos.

O MPF orienta os responsáveis para que levem os pacientes idosos para se vacinar em postos oficiais, disponibilizados nos sites das prefeituras. Por orientação da Procuradoria-Geral da República (PGR), o MPF em primeira instância está atento a esses casos, que também podem ser levados para os Ministérios Públicos estaduais.

A regra geral é de que se permita que um acompanhante da pessoa idosa esteja presente no ato de vacinação. Em caso de suspeita, a população pode fazer a denúncia por meio do endereço eletrônico vacinapiratacncp@mj.gov.br.

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