Lilian Athie/ Arquivo pessoal
Lilian Athie/ Arquivo pessoal

Sem fazer teste, Prevent Senior manda 'kit covid' com hidroxicloroquina pelo correio para paciente

Operadora de saúde afirma que envio de medicamento, antes mesmo da realização do teste, é feito com consentimento das pessoas atendidas; entidades médicas alertam que não existe protocolo definido para o tratamento da doença

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 14h00

SÃO PAULO - Após diagnóstico clínico feito em consulta realizada pela internet, pacientes da Prevent Senior estão recebendo em casa, pelos Correios, uma espécie de "kit covid", composto por hidroxicloroquina 400 mg, azitromicina 500 mg e pelas vitaminas Vitacon C + Zinco + Vitamina D e Detem D3. No receituário de controle especial, assinado por um médico que não faz a consulta, constam as dosagens diárias. Os pacientes são aconselhados a tomar os medicamentos antes mesmo de fazerem o teste para detecção do novo coronavírus e que, após realizado, tem resultado em cinco dias.

Com um quadro típico de gripe, em que apresentava congestão nasal, estado febril de 37,2°C, indisposição e leve dor no corpo, a atriz Lilian Athie, de 58 anos, marcou pelo aplicativo da operadora, no dia 30 de julho, uma consulta virtual.

"A médica fez um rápido levantamento do meu estado e disse que provavelmente eu estava com covid, mesmo eu dizendo que não estava com tosse ou falta de ar. Imagino que a conclusão foi baseada na minha informação que tinha perdido o olfato. O fato é que, normalmente, uma forte congestão nasal causa a perda de olfato. Assim que, passamos a respirar melhor, o olfato volta a funcionar", disse Lilian.

A paciente relata que, durante o diagnóstico, a médica perguntou se ela morava com alguém, trabalhava fora e se era cardíaca. "Respondi não para todas as perguntas." Após anotar os dados, informou que ela iria receber mensagem de texto pelo celular com um link para aceitar o recebimento da medicação em casa e receberia uma ligação informando os procedimentos. "A médica reforçou que era para eu tomar os remédios assim que eu os recebesse na residência. E também ligar para a central de atendimento e agendar o teste PCR para detecção de coronavírus. Pediu para repousar e não sair de casa por 13 dias."

Lilian recebeu o kit no mesmo dia da consulta. No dia seguinte, fez o teste pelo método RT-PCR (transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase, em português) para detecção do novo coronavírus. O resultado, que ficou pronto quatro dias depois, foi informado por uma atendente do convênio que ligou para saber como estava e se tinha tomado o medicamento. "Eu disse que somente tinha tomado a vitamina C. A mesma pessoa me informou que o resultado do teste tinha dado negativo. Perguntou se podiam recolher os medicamentos que eu não havia tomado. Pedi para ficar com as vitaminas", disse.

"Acho que o plano deveria explicar melhor sobre os medicamentos enviados. Eu me senti como se quisessem fazer um teste comigo. Como o convênio prescreve hidroxicloroquina após uma consulta virtual de cinco minutos? Assim como eu, minha família e amigos ficaram receosos."

Além do caso da atriz, o Estadão conversou com outras cinco pessoas que tem a Prevent Senior como plano de saúde e que relataram o mesmo procedimento. 

'Atendimento precoce'

Procurada pelo Estadão, a Prevent Senior, plano especializado em idosos, grupo de risco da doença, afirma que o "atendimento precoce de covid-19 tem sido adotado com resultados significativos de redução de internação e taxas de mortalidade" nos hospitais da rede.

Questionada sobre o envio do kit, que inclui hidroxicloroquina e azitromicina, além de vitaminas, aos pacientes após diagnóstico clínico virtual, a operadora justifica que "todos que recebem o kit assinam um termo concordando em receber os medicamentos em casa, sem qualquer custo adicional".

A Prevent Senior diz ainda que os pacientes são atendidos e acompanhados por médicos da operadora e que "a utilização de qualquer remédio, mesmo após orientação médica, depende da vontade do paciente".

Especialistas

O cardiologista Carlos Alberto Pastore, assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), afirma que não se pode considerar o uso do kit como uma forma de prevenção ou tratamento do novo coronavírus. "Por ser uma doença bastante dinâmica, no início muitas pessoas tomaram hidroxicloroquina, mas nunca foi uma conduta definida", alerta.

A coordenadora do programa de Saúde do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Carolina Navarrete, também considera grave a decisão de a operadora estabelecer um protocolo de tratamento que não tem respaldo em evidência científica.

"Não é o médico A e B decidindo prescrever. É a instituição estabelecendo um protocolo de tratamento que não tem respaldo em evidência científica. Uma coisa é fazer isso de forma atrelada a um estudo clínico, quando se procura construir evidência sobre a eficácia do medicamento, outra coisa muito diferente é quando não há estudo clínico", diz.

Até a pandemia do novo coronavírus, a hidroxicloroquina era conhecida pelo uso em tratamento de artrite, lúpus eritematoso e malária. Começou a ser administrada em pacientes suspeitos e testados positivos, mas por não ver benefícios com a utilização da substância, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu estudos e passou a alertar para a gravidade dos efeitos colaterais.

"A medicação pode interferir no processo elétrico do coração e provocar arritmia cardíaca, que, por vez, pode ser fatal, quando indivíduo já tem outras doenças de base ou uso associado com outras drogas como a azitromicina", afirma o cardiologista.

Em razão dos efeitos colaterais, em casos permitidos para o uso da medicação, é preciso existir uma avaliação médica prévia da condição clínica do indivíduo. "É preciso solicitar eletrocardiograma, colher eletrólitos (sódio, potássio e magnésio), que, alterados, podem facilitar para a pessoa ter arritmia, e verificar quais outros medicamentos o paciente está tomando", enfatiza Pastore.

Atualmente, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) também contraindica o uso medicamento para todos os quadros clínicos de covid-19 baseada em robustos estudos internacionais. "Seguimos a orientação da OMS de que a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da doença."

A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) afirma que orienta "suas associadas a atuarem em consonância com as melhores práticas de políticas públicas". Segundo a entidade, como "não há no mundo uma orientação definitiva para o tratamento de covid-19, ou seja, não existe um protocolo único a ser seguido", a recomendação do tratamento deve partir de "uma soberania médica", que deve sempre "levar em conta o histórico individual de saúde de cada paciente, que tem de consentir com o mesmo".

Para Mérces da Silva Nunes, especialista em Direito Médico, se o paciente autoriza o recebimento do medicamento, após apresentar sintomas, mesmo sem a confirmação da covid-19, esse consentimento é o que a legislação exige na relação entre médico e paciente. 

"Mesmo que o paciente tenha dado consentimento, ele recebeu a medicação, não é obrigado a tomar. A conduta somente seria antiética se o médico agisse de forma diferente da esperada, por exemplo, indicar para o paciente tomar preventivamente sem apresentar nenhum sintoma de que esteja doente", disse. 

Segundo a especialista, todos os questionamentos ocorrem porque ainda não existe um medicamento capaz de ser usado de forma eficaz no tratamento do novo coronavírus. "Nossa expectativa é a vacina para imunizar toda a população", afirma.

O Ministério da Saúde autoriza o uso de hidroxicloroquina para tratamento de pacientes em estado grave, assim como em pessoas com sintomas leves. No entanto, segundo parecer já divulgado, "os critérios clínicos para início do tratamento em qualquer fase da doença não excluem a necessidade de confirmação laboratorial e radiológica". 

Em parecer emitido em 23 de abril, o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu critérios e condições para a prescrição de cloroquina e de hidroxicloroquina em pacientes com diagnóstico confirmado de covid-19. "Após analisar extensa literatura científica, a autarquia reforçou seu entendimento de que não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença". Ainda segundo o texto, "diante da excepcionalidade da situação e durante o período declarado da pandemia de covid-19, o CFM entende ser possível a prescrição desses medicamentos em três situações específicas".

A primeira possibilidade é para paciente com sintomas leves, "em início de quadro clínico, em que tenham sido descartadas outras viroses e exista diagnóstico confirmado de covid- 19". A segunda hipótese é "em paciente com sintomas importantes, mas ainda sem necessidade de cuidados intensivos", com ou sem recomendação de internação. A terceira situação envolve "paciente crítico recebendo cuidados intensivos, incluindo ventilação mecânica".

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) afirma que, no caso da prescrição de medicações para fins que não constam em bula, "os riscos e a ausência de evidências devem ser bem discutidos com o paciente, que deve consentir com a prescrição".

O Cremesp afirma ainda que está apurando uma denúncia sobre pressão por parte de planos de saúde para que médicos prescrevam determinados tipos de medicamentos para tratar covid-19. Sem poder dar detalhes sobre o caso, o conselho disse que abriu sindicância para apurar a denúncia. A investigação tramita sob sigilo determinado por lei.

Estudos com hidroxicloroquina

Em julho, um estudo brasileiro coordenado pelos principais hospitais privados do País também apontou que a hidroxicloroquina, associada ou não ao antibiótico azitromicina, não tem eficácia no tratamento de pacientes internados com quadros leves e moderados de covid-19. Conforme o ensaio clínico, foram mais frequentes alterações nos exames de eletrocardiograma e de sangue que representam maior risco de arritmia e lesões no fígado.

Em abril, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) suspendeu um estudo da operadora Prevent Senior para testar a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da doença, após o órgão descobrir que os testes com pacientes foram iniciados antes de a empresa receber o aval para a realização da pesquisa.

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