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Após infecção, quanto tempo dura a imunidade contra o coronavírus?

Muito provavelmente a imunidade será robusta e deve durar por muitos anos

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 05h00

Nosso futuro próximo depende de como o sistema imune se comporta quando encontra o SARS-CoV-2. Muitas pessoas lidam facilmente com o vírus, exterminando o invasor sem sequer apresentar sintomas. Outros apresentam sintomas, mas se curam em casa. Algumas pessoas manifestam a forma grave da doença. Essa diversidade demonstra que alguns organismos estão mais preparados que outros para lidar com o coronavírus. A razão dessa diferença ainda é desconhecida. E, depois da infecção, a imunidade dura quanto tempo? Apesar de os cientistas já estarem investigando essas questões, os resultados são preliminares e as respostas iniciais estão ainda longe de serem definitivas, uma vez que as pessoas que foram infectadas há mais tempo tiveram contato com o vírus em janeiro de 2020.

O interessante é que o SARS-CoV-2 tem vários primos, vírus cuja sequência de DNA é muito parecida à do novo coronavírus, e com os quais já convivemos no passado e continuamos a conviver no presente. Todos infectam nosso sistema respiratório e causam sintomas semelhantes, mas de diferente severidade. O mais semelhante ao SARS-CoV-2 é o SARS-CoV-1, que apareceu em 2003, se espalhou por 26 países, infectou 8 mil pessoas, e foi banido da face da Terra por um processo rigoroso de rastreamento de contatos. Ele é mais letal que o novo coronavírus, mas muito semelhante: uma de suas proteínas principais é 100% igual à do novo coronavírus e outra é 90% idêntica. 

O interesse dos cientistas é na resposta imune das quase 8 mil pessoas que foram infectadas em 2003 pelo SARS-CoV-1. Entender a resposta imune dessas pessoas pode nos ajudar a prever como será nossa resposta ao novo coronavírus.

Além disso existem outros quatro coronavírus (OC43, HKU1, NL63 e 229E) também bastante semelhantes ao SARS-CoV-2 com os quais todos nós convivemos constantemente. São os vírus que causam os resfriados que nos atacam todo ano. Nosso sistema imune está tão acostumado com esses vírus que sequer necessitamos de vacinas para lidar com eles. Geralmente temos um leve mal-estar, coriza, um pouco de febre e logo saramos.

Foi com esses fatos na mente que um grupo de cientistas resolveu comparar a memória imunológica de 36 pessoas que já haviam se recuperado da COVID-19 (haviam sido infectados recentemente pelo SARS-COV-2) com a memória imunológica de 23 pessoas que haviam sido infectadas pelo SARS-CoV-1 em 2003 e outras 37 pessoas que nunca foram infectadas pelos dois SARS-CoV mas tiveram repetidas infecções pelos coronavírus do resfriado comum.

O primeiro resultado importante é que 100% das pessoas que tinham sido infectadas pelo SARS-CoV-2 tinham anticorpos circulantes contra as proteínas NP e RBD (são os nomes das proteínas do vírus). Já as pessoas infectadas pelo SARS-CoV-1, mesmo 17 anos depois da infecção, ainda possuíam anticorpos conta a proteína NP (essa é a proteína que é idêntica entre os dois vírus), mas já não apresentavam anticorpos contra a proteína RBD que é diferente entre os vírus. E as pessoas que só tinham sido infectadas pelos vírus do resfriado não apresentavam nenhum desses anticorpos. Isso demonstra que os anticorpos contra a proteína NP podem durar por até 17 anos. Esta é uma forte evidência de que a imunidade ao SARS-CoV-2 também deve durar por muitos anos.

Quando os cientistas examinaram a resposta do sistema imune de pessoas que somente haviam entrado em contato com os coronavírus que causam o resfriado, eles descobriram que em 50% dessas pessoas existem muitas células T capazes de detectar fragmentos do SARS-CoV-1 e SARS-CoV-2.

Sumarizando: o sistema imune de 50% das pessoas que tiveram resfriados ao longo da vida e nunca tiveram contato com os dois SARS reconhecem proteínas do SARS-CoV-2, mas não possuem anticorpos contra o vírus. Muito provavelmente estas são as pessoas que têm uma forma leve da doença e devem incluir as crianças (que sabidamente vivem com resfriado). Isso talvez explique porque nas mulheres as formas graves são menos frequentes. Já 100% das pessoas que foram infectadas pelo SARS-CoV-1 em 2003 ainda tem a capacidade de reconhecer e combater o SARS-CoV-2, tanto através de anticorpos quanto através de suas células T. Esses resultados demonstram que muito provavelmente a imunidade ao SARS-CoV-2 será robusta e deve durar por muitos anos, inclusive com a presença de anticorpos contra a proteína NP. Além disso sugere que repetidas infecções pelos vírus do resfriado devem ajudar as pessoas a terem uma forma menos severa da covid-19. Claro que esses resultados precisam ser confirmados em amostras maiores, mas são animadores.

MAIS INFORMAÇÕES: SARS-COV-2-SPECIFIC T CELL IMMUNITY IN CASES OF COVID-19 AND SARS, AND UNINFECTED CONTROLS. NATURE https://doi.org/10.1038/s41586-020-2550-z (2020)

*É BIÓLOGO

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