Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Após o furacão Matthew, a cólera aumenta o sofrimento do Haiti

Moléstia ronda as áreas destruídas, como a península que reúne cidadezinhas costeiras e aldeias nas montanhas, onde já era difícil encontrar água potável

Azam Ahmed, The New York Times

27 Outubro 2016 | 08h00

RENDEL - Uma praga castiga esta cidade.

Mesmo antes de a ventania e a chuva derrubarem quase tudo que via em pé, a cólera já tinha chegado aqui, vinda das montanhas, invadindo a vida dos milhares de moradores que viviam rio acima.

Agora o único sinal de vida é o de uma clínica improvisada que cuida de centenas de casos de suspeita da doença, um prédio pequeno de concreto onde apenas alguns enfermeiros lidam com as hordas de pacientes que não param de chegar.

Só sobrou uma autoridade pública. O prefeito contraiu cólera e saiu a pé em busca de tratamento, a horas de onde se encontrava; um vereador morreu da doença. Outro fugiu, como tantos fizeram, para escapar da ruína em que se transformou a cidade de Rendel depois da passagem do furacão Matthew.

"Noventa por cento do nosso vilarejo desapareceu. Muitos saíram a pé mesmo, para fugir da doença e da destruição. O resto morreu ou de cólera, ou no furacão", diz Eric Valcourt, padre da paróquia responsável pela clínica e pela escola que hoje servem de abrigo para os que estão muito doentes ou são muito pobres para ir embora.

O furacão devastou este trecho remoto da península mais meridional do Haiti, deixando uma paisagem apocalíptica, arrancando árvores, destruindo casas, roubando a terra de suas riquezas naturais.

Para muitos, porém, o tormento apenas começou: a cólera, doença que se disseminou com a última tragédia a atingir o país, está se espalhando com o novo desastre.

Cerca de 10 mil pessoas morreram e centenas de milhares adoeceram desde que o mal surgiu pela primeira vez, no final de 2010. Segundo os cientistas, ele foi trazido para o Haiti pelas forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocuparam uma base cujos dejetos eram lançados em um rio. Depois de anos evitando assumir a culpa, a organização finalmente em 2016 reconheceu seu "envolvimento" no sofrimento que a nação vem passando em consequência dela.

Agora, a moléstia ronda as áreas destruídas pelo furacão, a península que reúne cidadezinhas costeiras e aldeias nas montanhas onde normalmente já era difícil encontrar água potável muito antes da tempestade. Aqui, na isolada cidadezinha de Rendel, a quatro horas de caminhada da estrada asfaltada mais próxima, ela se espalhou por toda a extensão do vale e pelas encostas.

"Estamos todos correndo risco", afirma a última autoridade restante, o juiz Pierre Cenel.

O município e a área à sua volta, que já abrigaram 25 mil pessoas, são o epicentro de um desastre em potencial. Milhares foram embora a pé, encarando a água pela cintura de um rio tão sinuoso que precisa ser transposto nove vezes ao longo do caminho. O que levam consigo é tudo o que lhes restou: sacolas abertas com roupas e animais de pequeno porte. Esses também carregam a doença, destinada a outras cidades ligadas ao resto do país pelas estradas.

Quem fica é testemunha da miséria que aos poucos toma conta de tudo. Enfermeiros heroicos cuidam dos pacientes espalhados pelo chão da clínica feito bonecos de pano, alguns ainda sobre as macas improvisadas em que chegaram. Outros estão tão fracos que nem conseguem se mover, vomitando e defecando no chão mesmo, em pequenos baldes amarelos, esvaziados em um buraco feito na colina, esperando que a próxima chuva o faça transbordar. O cheiro de bílis e excremento arde nas narinas.

Alguns vêm e vão para tentar fugir do mau cheiro e do calor opressivo, enquanto outros se arriscam à contaminação cuidando de familiares e amigos. Muitos se recusam terminantemente a pedir ajuda, com medo de serem responsabilizados pelo surto. Os doentes que ainda estão se recuperando têm que ir embora para dar lugar a outros. Uma única lanterna é a luz sob a qual os enfermeiros trabalham durante turnos exaustivos de doze horas.

Uma criança, o bracinho no soro, é embalada pela mãe. Um jovem marido alimenta a mulher, grávida, assoprando cada colherada de mingau enquanto os doentes se contorcem ao seu lado e praticamente embaixo dele; um pai beija o filhinho de quatro anos para tentar suavizar o gosto ruim do soro.

"Passei a noite aqui, mas a cama é estreita demais para nós dois, então dormi lá fora, mas toda hora vinha dar uma espiada nela. Se ela está doente, eu também estou. Sou responsável por ela", diz Jean Romit Cadet, de 22 anos, entregando a colher à mulher, pedindo que comesse.

A própria população organizou um posto de limpeza à beira da estrada, uma operação simples, com um tanque de água com cloro, borrifada nos sapatos e nas mãos de quem estava indo embora. Com o êxodo, o medo que a doença chegue às grandes cidades é real.

A própria localidade está quase vazia. Quem continua por aqui vive no que restou das varandas, quase em estado de choque, esperando que as pessoas voltem.

A rotina é interrompida de vez em quando por outro paciente que chega à clínica, tropeçando pelo caminho ou carregado pelos familiares. Algumas poucas casas de concreto são o único lembrete do que o lugar já foi; as mais frágeis viraram uma pilha, junto com as árvores e galhos derrubados pela tempestade.

"Parece o fim do mundo. Dá uma olhada à sua volta. O desastre fala por si", lamenta Joseph Kenso, de 33 anos.

A clínica, uma estrutura de dois andares onde antes funcionava um centro pré-natal, foi uma das poucas a continuar em pé. O centro de tratamento de cólera original foi destruído pelo furacão, uma semana depois de inaugurado, para tratar as vítimas do surto que se espalhou pelas montanhas.

Uma mulher saindo de lá levava uns lençóis sujos e foi interceptada pela enfermeira, que lhe pediu que os deixasse na pilha de roupa suja que seria queimada à noite. A paciente hesitou, levando as mãos aos olhos.

"Não posso. É tudo o que me restou", diz, fraca.

Ainda não se sabe quantas vítimas a cólera fez porque a maioria nem chegou a ir à clínica e foi enterrada sem deixar nenhum registro.

"Não sabemos quantas pessoas morreram na comunidade; a única coisa de que temos certeza é de que a maioria das mortes ocorreu nas imediações", relata a enfermeira Marie Marguerite Bernadin, de 42 anos.

Muitas vezes, ela explica, se a doença for pega no início, o tratamento pode ser uma simples reidratação.

"O problema é que ninguém chega aqui a tempo, uma porque tem vergonha, tenta esconder; outra porque ninguém escuta conselhos", desabafa Alicia Hyppolite, de 32 anos.

A cerca de 1,5 hora ao norte fica o vilarejo de Delibarain, perto do rio que alimenta os córregos de Rendel. Antes do furacão, moradores e autoridades dali contam que houve várias mortes em decorrência da cólera, ou pelo menos o que achavam que era, já que não havia laboratório nenhum por perto para confirmar a doença.

E os primeiros contaminados de que todos se lembram são os membros da família Vital, dos quais cinco não resistiram.

Os corpos foram enterrados em covas sem ao menos terem sido envoltos em plástico; quem o fez, não usou luvas nem tomou nenhuma das medidas de precaução aplicadas a doenças infecciosas. Por isso, logo em seguida mais gente foi infectada. A estação das chuvas levou a doença ainda mais longe.

"Só cobriram os mortos de terra, nada mais", confirma Thomas Cyril, de 47 anos, que vive no vilarejo e conhecia a família.

Prostrado no chão estava seu irmão, Faniel Cyril, e a prima, Alicia Delcy, ambos com sintomas da doença. Ele, quase inconsciente, de vez em quando estendia a mão para saber se ela continuava ali.

Assustados com o que estava acontecendo na vila, os dois desceram a montanha em busca de tratamento. Thomas garante que a coisa está feia em Rendel, mas lá em cima está muito pior.

"O povo está sendo dizimado", conclui.

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