Arquivo pessoal
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Após passar por transplante, cearense cria campanha 'Caçadores de Medula'

Por meio do projeto, consultor comercial André Tôrres compartilha histórias bem sucedidas sobre doações, além de quebrar preconceitos e receios sobre o transplante

Lôrrane Mendonça, especial para o Estadão

03 de outubro de 2021 | 05h00

Trista Parson, natural da Virgínia (EUA), foi a heroína da família do consultor comercial André Tôrres, cearense de Maranguape, na Grande Fortaleza. Eles vivem a aproximadamente 6.100 quilômetros de distância e jamais imaginariam se aproximar por um episódio tão particular que salvou a vida de um deles.

É que em junho de 2018 André foi diagnosticado com leucemia aguda indiferenciada – quando não é possível identificar o tipo da doença. Foi descoberta ainda uma mutação genética, chamada de cromossomo Philadelphia. “Comecei a sentir pequenas dores de cabeça durante o dia, e na piora de uma dessas dores, vi o meu chão se abrir. Era a leucemia”, recorda Tôrres.

O tratamento para leucemia se dá por meio de quimioterapia, imunoterapia, radioterapia e, por fim, o transplante de medula óssea. Tôrres se viu diante de mais uma batalha, a de encontrar uma medula nova e compatível. E foi após viralizar na internet uma foto de seu filho Davi, na época com apenas um ano, que surgiu o projeto Caçadores de Medula.

“Tenho dois irmãos e achava que meu problema seria resolvido dentro de casa. Mas meus irmãos não foram compatíveis o suficiente. Começamos uma verdadeira caçada para encontrar um doador”, conta Tôrres.

Durante uma campanha de doação de sangue que ocorria na cidade, a mulher de André fez a foto de Davi carregando uma plaquinha que dizia “caçador de medula”. Em uma outra placa, pendurada na sua moto de brinquedo, Davi pedia: “Procuro uma medula para o meu papai e conto com você”. A foto sensibilizou muita gente.

“Eu estava internado quando a recebi e me emocionei. Meu filho, sem saber, lutava para salvar a vida do pai. Eu não era mais o herói dele. Naquele momento, ele se tornou o meu herói”, diz o consultor comercial.

Ainda no hospital, André também iniciou uma campanha de incentivo pelo cadastro para doação de medula. “Levamos a campanha para a internet e estamos com o ‘Caçadores de Medula’ até hoje. É o meu propósito”, declara Tôrres. O perfil no Instagram tem mais de 17 mil seguidores. Na página, Tôrres compartilha histórias bem sucedidas sobre doações, além de quebrar preconceitos e receios sobre o transplante.

Foi por meio do Redome, o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea, que ele encontrou a medula certa, cinco meses após descobrir a doença. O Redome, coordenado pelo Instituto Nacional do Câncer, é o terceiro maior banco de cadastros do tipo no País e representa, para pacientes brasileiros, a maior chance de encontrar um doador que não seja da família. A instituição se comunica com órgãos de outros países para encontrar um doador compatível.

“Somente um ano e meio após o transplante o paciente pode pedir ao Redome a quebra de sigilo da identidade do doador e vice-versa, mas as duas partes precisam estar de acordo”, explica Tôrres. Foi então que ele e Trista se conheceram por videochamada. “Eu ganhei na loteria de vida”, vibra.

Duas loterias

Se encontrar um doador compatível é acertar na loteria, a publicitária Duda Dornela de 31 anos, vê um prêmio duplo. Ela, de Belo Horizonte, descobriu que tinha leucemia mieloide crônica em janeiro de 2015, quatro meses antes de se casar. “Foi um baque”, relata ela. “Será que vou morrer? Será que vou casar careca? Ou nem vou casar?”

Começou o tratamento e respondeu bem à medicação. Ela se casou como sempre sonhou, de cabelão. Mas, na volta da lua de mel, teve recaída. Os médicos decidiram, então, pelo transplante de medula. O doador foi o Thiago, de São José do Rio Preto (SP), e os dois também se conheceram.

“Ele tem a mesma idade do meu irmão, que não pôde me ajudar, porque não era compatível. Ganhei uma medula nova e mais um irmão”, comemora. No Instagram, a publicitária também criou o perfil Valorizar a Vida, com mais de 5,1 mil seguidores, em que tira dúvidas e fala sobre a importância da doação.

Já Amanda Oliveira, do Rio, descobriu a doença seis meses após o casamento, quando começou a sentir dores entre os seios. O diagnóstico não foi fácil. Um ano e meio depois ela descobriu que todos os problemas de saúde eram causados por uma infecção na medula óssea. Após refazer os exames, descobriu metástase no pulmão. A suspeita era de tuberculose óssea.

“A batalha foi grande até descobrir o câncer, mas eu estava tão saturada que só queria descobrir o que eu tinha. Os médicos disseram que eu poderia ficar infértil, que ia perder meu cabelo. Passei por mais de um protocolo de quimioterapia. Foram cinco meses internada, sem saber o que iria acontecer”, conta.

Em dezembro de 2018, Amanda fez o transplante, mas em um mês e meio o câncer voltou em outros órgãos e ela precisou de novo transplante. No Redome, encontraram um doador 100% compatível, mas o contato não foi em frente. O pai de Amanda era 50% compatível, mas tinha um problema no fígado, o que impossibilitou a cirurgia. O doador de Amanda estava na Inglaterra. “O dia do transplante foi muito emocionante. Fiz uma cartinha para ele. Depois de dois anos, pedi a quebra de sigilo, ele aceitou me conhecer e pude ler a cartinha pra ele”, conta, emocionada.

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