Adriano Machado / Reuters
Adriano Machado / Reuters

Saúde diz que mantém divulgação de cronograma da vacina, mas site tem documento desatualizado

Ministério disse à reportagem que calendário de entrega de doses de imunizante contra a covid não seria mais divulgado, mas Queiroga contrariou informação repassada pela assessoria de imprensa da pasta

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 11h47
Atualizado 09 de abril de 2021 | 17h23

BRASÍLIA - Depois de alterar ao menos cinco vezes o cronograma de entrega de vacinas para covid-19, o Ministério da Saúde decidiu que não irá mais divulgar a previsão de doses que espera receber a cada mês. A mudança foi confirmada ao Estadão pela própria pasta. O ministério argumenta que esses dados devem ser coletados, agora, diretamente com os fabricantes.

Após a publicação da reportagem, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, contrariou a informação repassada por sua assessoria de imprensa e disse, em entrevista no Rio de Janeiro, que o cronograma ainda será divulgado. Na mesma ocasião, uma assessora do ministro indicou um link que contém um cronograma divulgado no dia 19 de março, que contém informações desatualizadas.

A informação de que o cronograma não seria mais divulgado foi repassada pelo ministério ao Estadão na quinta-feira, 8, após a reportagem questionar sobre a previsão de entrega de vacinas em abril.  Na ocasião, a assessoria de imprensa do ministro disse que, a partir daquela data, só iria informar como as doses já recebidas das fabricantes serão enviadas aos Estados. A previsão do total de doses que serão entregues em abril e nos meses seguintes, porém, não foi divulgada.

O governo está sob pressão para ampliar o ritmo de vacinação. Por falta de doses, algumas cidades interromperam a campanha de imunização. A prefeitura de Belo Horizonte informou na quinta-feira, 8, que aguarda novos lotes para voltar a aplicar vacinas na capital mineira. No começo da semana, o governo do Distrito Federal fez o mesmo.

Os primeiros cronogramas de entrega de vacinas foram divulgados em fevereiro, quando o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello tentava esfriar críticas sobre a demora do governo federal em apresentar estas projeções. As versões iniciais desse documento já se mostravam inviáveis. 

Ao prever o número de doses fornecidas mês a mês a Estados e municípios, a Saúde ignorava atrasos na entrega de insumos farmacêuticos ativos (IFA) para a produção de vacinas na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e no Instituto Butantan. Também somava dados da Sputnik V e Covaxin, imunizantes que ainda sem aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Pela previsão de fevereiro, o Brasil encerraria o mês de março com 68 milhões de imunizantes distribuídos. Segundo dados dessa quinta-feira, 8, foram entregues 45,2 milhões de doses. 

O governo chegou a desdenhar da demora na compra das vacinas. “Para que essa ansiedade?”, disse o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello em dezembro de 2020. No mês seguinte, o mesmo general declarou que o governo iria receber uma “avalanche” de propostas de vacinas e que o Brasil iria ultrapassar a campanha dos Estados Unidos já em fevereiro,  o que até agora não ocorreu. Apenas em dezembro um crédito de R$ 20 bilhões foi aberto para contratação das doses, quando o governo já havia rejeitado ofertas para compra da Pfizer e do Instituto Butantan.

Já o presidente Jair Bolsonaro passou meses, em 2020, rejeitando propostas de compra da Coronavac, imunizante que ele apelidou de “vachina”, por causa da origem chinesa, e “vacina de João Doria”, em referência ao governador paulista, seu inimigo político. Bolsonaro afirmou ainda que não compraria esta vacina mesmo após o registro do produto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ele atribuiu a decisão a não ter “segurança” sobre a vacina por causa da origem chinesa.

Em março, o Ministério da Saúde procurou justamente a Embaixada da China para pedir socorro. A pasta apontou risco de a campanha de imunização parar no País "por falta de doses, dada a escassez da oferta internacional", e pediu a compra de 30 milhões de vacinas da Sinopharm. 

Pressionado pela queda de popularidade, o presidente modulou o discurso e passou a defender a vacina, além de negar que um dia rejeitou os imunizantes. Em 24 de março o presidente compartilhou um cronograma de entregas, que não se cumpriu. A tabela mostra cerca de 560 milhões de doses contratadas, mas já previa importação da Covaxin, fabricadas na Índia, já em março. A Anvisa negou a entrada do imunizante no País. 

Os principais acordos do Brasil são com Butantan e Fiocruz, que entregam a Coronavac e vacina de Oxford/AstraZeneca. A produção desses laboratórios depende principalmente da entrega do IFA ao País.

O Butantan afirma que concluirá a meta de entregar ao governo federal 46 milhões de vacinas até o fim deste mês, somando o volume já distribuído (38,2 milhões). Já a Fiocruz espera enviar 26,5 milhões de vacinas até o começo de maio, também considerando as 8,1 milhões de unidades já fabricadas.

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