Isadora Tricerri
Isadora Tricerri

Após ter mais da metade do corpo queimado, Amanda descobriu sua verdadeira beleza

'Foi um processo demorado, doloroso, mas é bonito perceber o tanto que eu mudei desde então, não só a relação comigo, mas com o mundo', conta a estudante

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2022 | 05h00

No mesmo dia em que perdeu a mãe, a estudante Amanda Carvalho teve 57% do seu corpo queimado. A relação dos pais, que nunca havia sido muito boa, resultou em um caso de feminicídio, no qual o homem jogou gasolina sobre a mulher e a filha, de apenas 17 anos, que tentou salvá-la. A mãe não resistiu aos ferimentos, o pai se suicidou, e Amanda passou a carregar diversas sequelas desse dia.

“Hoje, quando eu falo de amor-próprio, não estou falando só de me olhar no espelho, sabe? Eu me amo porque eu sei da força que eu tenho e de tudo pelo que já tive de passar, principalmente dentro de mim, que me fazem ser muito mais bonita. Independentemente do que o mundo acha, do que o mundo dita ser certo ou não, sei que sou linda porque eu estou aqui, porque estou viva apesar de tudo.” 

A adolescência, por si só, já é uma fase complicada para lidar com o corpo. As mudanças são constantes, assim como a insegurança e a comparação com os outros. A sensação é a de que sempre dá para mudar uma coisinha para melhor. No caso de Amanda, os complexos com o corpo envolviam muito o cabelo, que não era alisado como o das amigas e a pele acneica: “Eram coisinhas tão pequenas comparadas com o que é hoje… Com as queimaduras, isso mudou completamente”.

Durante dois anos, foram várias sessões de fisioterapia e terapia para lidar com o processo de cicatrização das queimaduras de segundo e terceiro graus, especialmente nos braços e seios, além da região do pescoço e da face. “Os médicos falam 57% do corpo queimado, mas não é a total dimensão, pois a profundidade não é levada em consideração. Eu tive enxerto na maior parte da pele do braço e durante dois anos, que é o tempo de cicatrização em que fica mais fácil de tratar, também usava uma malha compressiva”, conta. 

Como o tecido tapava as cicatrizes e sua cabeça, Amanda não tinha problemas em sair na rua. “Como ninguém estava me vendo, só ficavam os olhos, o nariz e boca para fora, eu saía tranquila”, diz. “Mas, depois que trocaram a faixa, comecei a sentir incômodo porque as pessoas me viam e eu tinha de enfrentar os olhares. Foi quando começou todo o caos de se aceitar”, lembra.

Amor-próprio

Enquanto a aceitação veio de modo racional, no sentido de não ter o que fazer em relação às queimaduras, o amor foi um processo. “No começo, eu andava na rua olhando para o chão. Quando não conseguia e via olhares estranhos, chorava muito e falava que não queria sair de casa, mas eu não tinha escolha. Então só fui, com cara e coragem, acreditando que alguma hora ia me acostumar com isso e, de fato, uma hora eu me acostumei”, observa. 

Foi com a fotografia, paixão descoberta em 2016, que começou o processo de amor-próprio. “Foi a primeira vez que me enxerguei no olhar de outra pessoa. Foi lindo, eu me senti muito bonita”, diz ela, que passou a entender que não era necessário se comparar com outras meninas, mas, sim, se descobrir bonita. “Vejo o mundo bonito porque tenho um olhar bonito. Vi o quanto eu julgava as pessoas, mas o quanto eu também me julgava. Foi um processo demorado, doloroso, mas é importante perceber o tanto que mudei desde então, não só a relação comigo, mas com o mundo todo.” 

Quando sua cabeça passou a entender que beleza é muito mais do que a imagem, seu reflexo no espelho ganhou outro significado. “Eu posso me moldar inteira, mas, se eu não estiver bem, de fato, comigo mesma, nada vai mudar”, acredita. 

No antebraço, Amanda traz a frase “Sou feita de cicatrizes e gratidão”, para simbolizar os aprendizados com as queimaduras. “Eu sou muito diferente daquela Amanda que abaixava a cabeça para tudo. Aprendi muita coisa com aquilo e principalmente que isso aqui não importa, sabe? É só pele. Eu sou muito maior que isso.”

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