Após ter perna amputada, atleta retoma rotina de esportes

Após ter perna amputada, atleta retoma rotina de esportes

Atleta da seleção brasileira de polo aquático por 11 anos, Daniela Raddi enfrentou dores e o medo para voltar a viver sua grande paixão

Estêvão Azevedo, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2016 | 06h00

A paulista Daniela Raddi, 41, tinha apenas quatro anos de idade quando seu pai decidiu que era hora de ensiná-la a nadar. Junto das duas irmãs, praticava os quatro estilos na piscina do clube, a princípio como brincadeira, e, depois, levando o assunto cada vez mais a sério. Em família, o treino consistia em correr até o final da praia e voltar nadando. Depois, com os professores, Daniela começou a viajar para competições já aos 11, mesma época em que, além da natação, passou, também, a se dedicar ao handbol.

Aos 17, assessorada por dois técnicos e nadando pelo Clube Paineiras do Morumby, Daniela curtia um belo dia de sol ao lado da prima quando reparou em um homem que, sozinho, treinava polo aquático na piscina ao lado. "Tinha uma bola, o gol e ele", relembra ela, que, ao ver a junção da natação e do handbol ali à sua frente, foi, imediatamente, se informar sobre a prática, treinadores, possibilidades. Nascia, naquele momento, uma paixão pelo polo que duraria para toda a vida, e que passaria por cima de impensáveis dificuldades.

Daniela abriu mão da natação para se dedicar completamente ao esporte. Tornou-se atleta profissional e entrou para a seleção brasileira, em uma rotina de treinos intensos, campeonatos nacionais e internacionais. Em meio a tudo isso, formou-se jornalista, se casou e mudou de São Paulo para Campinas, no interior do estado. Ao lado do marido, passou a trabalhar para uma academia de esportes como assessora de imprensa. Foi quando, no que parecia ser um dia normal, sentiu o joelho estalar e foi invadida por uma dor insuportável.

"Senti que arrebentou tudo lá dentro. Fui ao médico em Campinas mesmo, e ele disse que era um caso cirúrgico. Voltei a São Paulo para uma segunda opinião, e realmente tive a confirmação de que havia rompido o ligamento cruzado posterior", conta Daniela. "Este ligamento funciona como um estabilizador primário do joelho", explica Thiago Kolashinski, ortopedista da clínica Phitris. "Ele está localizado na parte de trás do joelho, e conecta o fêmur à tíbia."

A princípio seria uma cirurgia simples, mas, durante o procedimento, uma complicação mudou o rumo não só da operação, mas também de toda a vida de Daniela dali para frente. "Não entendo muito bem das coisas mais técnicas, e também nunca ninguém me falou o que realmente aconteceu, mas eu soube que romperam a minha artéria poplítea durante a reconstrução do ligamento", explica a atleta. "Tive que fazer um enxerto da artéria para reconstrução, depois tive a síndrome compartimental (aumento da pressão em um espaço anatômico restrito), e que foi gerando muitas outras complicações. Tive que fazer uma fasciotomia (procedimento para aliviar a pressão) e logo tive uma infecção muito séria, em que quase morri."

Foram mais de dois meses de internação, entre UTI e semi-UTI. "Sempre estive consciente. Falam que fiquei em coma, mas não é verdade. Eu fiquei grogue, sedada pelas fortes dores, muitos remédios e tal. Mas nunca em coma como falam", esclarece. Da época, as memórias mais vívidas envolvem fortes dores, mas também a determinação de superar o problema. "Lembro que nada fazia a dor passar. Eu tinha que ser sedada para fazerem limpeza, para me darem banho, para tudo. Tenho certeza de que nunca na minha vida vou sentir dores parecidas com aquelas."

A extensão do sofrimento chegou a um ponto em que ela pensou que não aguentaria mais. Foi quando os médicos optaram, então, por amputar a perna de Daniela. "Minhas dores eram tão fortes que eu já pedia para me amputarem. Eu já havia trabalhado na Fórmula Academia em um projeto da Mara Gabrilli (política que ficou tetraplégica após acidente de carro) chamado Projeto Próximo Passo, então pude ver que as pessoas viviam normais, eu não via a amputação como uma tragédia. Eu queria acabar o quanto antes com as minhas dores."

Dali em diante, o foco era na adaptação à nova vida, e na plena recuperação. "Meu médico falou que o processo seria primeiro eu me sentar na cama, depois me sentar na cadeira, andar de andador e, só depois, de muletas. Só que na minha cabeça eu tinha que fazer tudo isso em um dia só. Fui até me sentar na cadeira e, qiuando fui tentar andar de andador, não consegui. Estava fraca, dava tontura, porque fiquei meses só deitada, perdi muito sangue. Fiquei arrasada, me achando incapaz. Aí os médicos vieram avisar que cada dia era para fazer uma etapa, e não todas no mesmo dia. Fiquei um pouco aliviada, mas, mesmo assim, eu tentava andar o quando antes."

Daniela conta que impunha a si mesma metas diárias. "Pensava 'hoje preciso fazer a fisioterapia de respiração assoprando e segurando todas as bolinhas em cima por muito tempo'. Achava que não era certo ter nadado minha vida toda para não ter fôlego suficiente", recorda. "Quando meus técnicos foram me visitar, eu não queria fazer fisioterapia com caneleira de apenas 1kg. Pensei 'ah, não vou parecer uma fraquinha com eles aqui", ri.

O apoio irrestrito da família foi fundamental para sua recuperação, conta a atleta. Diariamente, em seu quarto do hospital chegavam visitas não só de parentes, mas também de colegas de profissão - ou "a família do polo", como Daniela chama. "Sou privilegiada em ter duas famílias, e elas são tudo para mim. Minhas amigas são como irmãs, me ajudaram, ajudam e estão sempre comigo em tudo. Tive-as em todos os momentos. Isso sem falar nos meus cachorros", diverte-se, se referindo a Kiron, Kyra, Kimo, Zeus e Pitico, das raças dogo argentino e border collie, a quem ela chama de filhos.

Meses depois de ter alta do hospital, Daniela já havia arriscado nadar na piscina e também no mar junto com o marido e os pais, mas ainda nem sonhava com uma possível volta ao polo. Durante uma sessão de fisioterapia, recebeu a visita do técnico, que fez o convite: "Vamos treinar hoje?". A atleta recorda-se de ter tentando usar algumas desculpas para não enfrentar o medo, mas acabou aceitando ir até o clube, onde encontrou uma surpresa preparada especialmente para ela.

"Estavam lá todas as minhas amigas do time. Foi uma delicia, mas, na hora de pular na água, falei para minha prima nadar do meu lado e não desgrudar de mim, porque eu tinha medo de afundar. Sei lá porque passava isso na minha cabeça, mas eu estava com medo. O técnico começou a passar o treino, eu olhei para ele e perguntei o que devia fazer, e ele me olhou e falou 'Vai junto, daqui da borda está tudo igual a antes. E eu fui", conta, definindo a sensação daquele momento como uma mistura de alívio, alegria e prazer. "Quando contei para o meu pai, ele até chorou de emoção."

A atleta participou da preleção dos jogos que valeram medalha de bronze para a seleção brasileira nos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, em 2007, e começou a praticar natação adaptada. Seu último campeonato foi em 2010. Daniela conseguiu, inclusive, realizar o sonho de jogar ao lado da sobrinha, a atleta Izabella Maria Chiappini, em um campeonato na Argentina. Hoje, frequenta diariamente o clube para atender à agenda de atividades físicas que inclui musculação, bicicleta, natação e boxe. 

"Tento sempre dar uma olhadinha nas meninas treinando, para matar um pouco da saudade das broncas do meu técnico, que se tornou meu amigo, meu conselheiro, meu segundo pai. Todos eles me apoiaram muito sempre. Lembro que, nos Jogos Panamericanos do Rio, uma das jogadoras, Flavia Fernandes, escreveu meu nome no braço no jogo mais importante, contra Cuba. Foi emocionante. Elas e meus pais procuraram me motivar em tudo, sempre."

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