Após um ano, tratamento para lipodistrofia não sai do papel

No início de 2005, o governo anunciou que passaria a oferecer na rede pública de saúde cirurgia plástica e preenchimento facial para pessoas com aids que desenvolveram a lipodistrofia, um efeito colateral dos medicamentos que altera a distribuição de gordura no corpo. No entanto, até hoje, passado um ano do anúncio, o governo federal não providenciou nem mesmo uma cirurgia. Mais do que um tratamento estético, tais procedimentos são considerados essenciais por especialistas para pacientes que apresentam a forma grave da lipodistrofia. E o problema, que faz com que a resposta a uma antiga demanda dos pacientes não passe por enquanto de boa intenção, está na portaria que autoriza o tratamento. O texto faz exigências, como número de médicos e tipo de instalações, que nenhum centro do País, mesmo que bem montado, consegue atingir. "Talvez a idéia tenha sido garantir a segurança. Mas o texto traz condições e conceitos que não têm razão de ser", diz a diretora do Centro de Referência e Treinamento de Aids da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, Maria Clara Gianna. O alerta sobre a difícil execução da portaria foi feito para o Ministério da Saúde tão logo ela foi editada. Em dezembro, depois de algumas reuniões, uma nova sugestão de texto para a portaria foi preparada por uma comissão. Mas até agora não foi publicado. O próprio CRT de São Paulo não consegue atender às exigências das normas federais. O tratamento para lipodistrofia facial vem sendo feito, porém, com recursos do governo estadual. O Estado comprou o produto necessário para fazer o preenchimento no rosto. E usou recursos de um programa federal, o de Plano de Ações e Metas, para pagar os custos do tratamento. A coordenadora do Programa Nacional de DST-Aids, Mariângela Simão, garante que dentro de poucos meses uma nova versão da medida deverá ser publicada. O novo texto, diz Mariângela, traz uma série de mudanças que tornará fácil o credenciamento de centros dispostos a oferecer o tratamento. A preocupação com a demora da oferta desse tratamento tem um motivo. A lipodistrofia é responsável pelo que especialistas têm batizado de "a nova cara da aids". O problema, um efeito colateral desenvolvido por pacientes que fazem há muito tempo tratamento com anti-retrovirais, provoca um acúmulo excessivo de gordura em algumas partes do corpo, como abdome, e, ao mesmo tempo, pode levar a redução excessiva de gordura em outras regiões, como a face. "Já ouvi histórias de pessoas que deixaram de se olhar no espelho e que têm medo de sair nas ruas", relata o presidente do GAPA-Rio, Willian Amaral. Há relatos de pacientes que caíram em depressão e cometeram suicídio. "O medo de desenvolver a lipodistrofia ronda muitos pacientes. Começa a se tornar comum a resistência em iniciar o tratamento anti-retroviral justamente por receio de ter o efeito colateral." Mariângela conta que muitos pacientes simplesmente interrompem o tratamento antiaids. A coordenadora está convicta de que a oferta de cirurgias reparadoras traz uma série de ganhos,tanto para o paciente quanto para a saúde pública. "Quanto menos pacientes interromperem o tratamento, menor o risco do desenvolvimento de vírus resistentes aos remédios existentes", afirma a coordenadora. A cirurgia também trata um outro problema importante: o estigma aos pacientes. "O problema surgiu no início da epidemia. Agora temos os recursos necessários. E é importante usá-los para evitar que o estigma retorne", afirma. Mariângela estima que existem no País cerca de 15 mil pacientes com lipodistrofia. Ela defende que, tão logo o novo texto seja editado e centros sejam credenciados, um esquema de mutirão de cirurgias seja montado. "O preenchimento facial é algo relativamente simples de ser feito. Acho uma boa idéia reduzir a fila de espera para o tratamento", completa.

Agencia Estado,

15 de maio de 2006 | 10h27

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