TABA BENEDICTO/ESTADÃO
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Aprendendo a viver a com calma

Jéssica Raiane Sousa da Silva sofreu por anos antes de ter o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada e de entender como lidar com isso

Gilberto Amendola, Especial para o Estadão

19 de fevereiro de 2022 | 05h00

Ao começar mais uma jornada em seu home office, Jéssica Raiane Sousa da Silva aproveita para respirar o ar de dias menos turbulentos. Diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), ela passou boa parte da vida tentando provar para os outros e, principalmente, para si mesma que “não era louca”. Foi um longo caminho até o entendimento da sua condição.

“Eu, que sempre dormi bem, comecei a ter insônia, vivia nervosa e estressada. Um dia, senti uma dor no peito e meu coração acelerou. Pensei que ia morrer”, lembrou sobre o início das crises na adolescência.

Apenas há três anos, quando tinha 22 anos, ela buscou ajuda profissional, incentivada pelo marido. O apoio dele e o amor pelo filho foram fundamentais para a superação de Jéssica.

Moradora de Guaianases, na zona leste da cidade de São Paulo, Jéssica conta que teve uma infância tranquila e um início de adolescência com algumas restrições, sem acesso a computador e celular. “Meu pai fez um esforço para me pagar um curso de informática. Sempre achei que me ajudaria no futuro”, disse. Para ir ao curso, ela precisava pegar um ônibus, mas era apenas na ida ou na volta. “Não tinha dinheiro para ir e voltar. Então, todo dia, eu caminhava para estudar.”

Foi um ano e meio nessa vida – e o início das crises de ansiedade de Jéssica. As dores começaram a surgir com mais frequência. Ela chegou a acreditar que era cardíaca. O resultado é que Jéssica começou a sentir medo de sair de casa.

Aos 17 anos, começou um curso de administração básica oferecido pelo Instituto Proa – já com a ideia de conseguir uma melhor colocação no mercado de trabalho. Mas o Transtorno de Ansiedade Generalizada, ainda não diagnosticado, era uma barreira difícil de ser superada. “Eu estudava perto da Estação São Joaquim. Lá, comecei a ter umas coisas, como se eu pudesse fazer uma besteira e me atirar contra o trem. Achei que estava ficando louca”, lembrou. Se achar “louca” foi uma constante a partir desse ponto.

As coisas em casa não estavam fáceis. A mãe foi diagnosticada com bipolaridade e o irmão mais novo começou a apresentar sinais de esquizofrenia. Além disso, o namorado da época era ciumento e passava algumas madrugadas tentando convencê-la a não frequentar o curso. “Eu cheguei na aula e meu peito começou a acelerar. Tive falta de ar e achei que ia ter um treco. Pedi para ir ao banheiro e por lá fiquei”, lembrou.

No banheiro foi acolhida por uma funcionária. Pela primeira vez, ela pensou que, talvez, precisasse de ajuda. Mas a procura de um profissional ainda demoraria um pouco.

Jéssica arrumou um emprego de jovem aprendiz em uma grande loja de departamentos e iniciou um cursinho pré-vestibular. O período foi conturbado, com muitas faltas no trabalho, o medo de sair de casa e enlouquecer.

O processo que levou Jéssica a uma vida melhor passou primeiro pelo amor. Ela conheceu, por meio de amigos em comum, o Lucas. O namorado e a família dele foram fundamentais para que Jéssica se sentisse novamente acolhida. “Ficava mais tempo na casa do meu namorado. Ele era uma válvula de escape mesmo. As crises foram ficando mais brandas”, disse. “Até em entrevista de emprego meu namorado me acompanhou. Sabe, eu tinha medo que as pessoas pensassem que eu era louca”, completou.

Primeiro, Jéssica foi consultar um psicólogo. Não quis ver um psiquiatra porque pensava se tratar de “coisa de louco”. Aceitou ir a um “neuro”, mas os exames foram inconclusivos. Começou a tomar remédios, mas só foi diagnosticada corretamente com TAG quando aceitou o acompanhamento médico completo – inclusive de uma psiquiatra.

Então, veio a gravidez. A longo prazo, o filho seria parte do processo de melhora. Mas, no início a situação, foi diferente. “Achava que minha vida tinha acabado, que não teria mais condições de lutar pelos meus sonhos”, falou. Na gravidez, as crises voltaram com força. Ela só podia sair acompanhada. Mesmo depois do nascimento de Heitor, Jéssica passou um tempo sem dar banho no próprio filho. “Eu tinha medo de fazer alguma besteira”, revelou.

Mas, depois de 8, 9 meses e de acompanhamento médico, as coisas foram se acomodando e as crises tornaram-se mais raras. A relação com o bebê virou de amor e dedicação. Jéssica, então, decidiu que era hora de voltar ao mercado de trabalho. Com a nota do Enem, fez faculdade de Administração (na modalidade de ensino a distância, EAD).

Junto com o curso, veio mais terapia e a participação em uma casa de acolhimento para mulheres, com oficinas de poesia e bordado. Jéssica conheceu a Galena, um grupo educacional focado em preparar e incluir jovens de escolas públicas no mercado de trabalho. Especificamente para o caso de Jéssica, encaixava-se a iniciativa de saúde mental no trabalho para jovens da Galena (com suporte para o processo de seleção e durante o trabalho).

Por meio da Galena, Jéssica conseguiu um trabalho na Cora, uma startup financeira. Ela trabalha como assistente de sucesso do cliente. “Atendo demandas por chat, WhatsApp, email e canais digitais em geral.” Em uma empresa mais humanizada, com terapia e medicação adequada, Jéssica pode, enfim, respirar com mais tranquilidade.

Hoje, com o que ganha, divide as obrigações de casa com o marido. Além disso, consegue ajudar seu pai, mãe e irmã em momentos de aperto. Ela já sonha em comprar uma casa própria. “Mas o principal é que eu entendi que não sou louca. Eu tenho uma doença, um transtorno que pode e deve ser tratado. Não me sinto mais limitada. Minha vida deu um salto de qualidade”, afirmou.

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