Aprovada nos EUA primeira vacina preventiva de HPV

O câncer do colo do útero é o segundo que mais mata mulheres em todo o mundo, sendo responsável por cerca de 240 mil mortes por ano. No Brasil, representa o terceiro tipo mais comum da doença e a quarta causa de morte por câncer entre mulheres. Para 2006, a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é de 19.260 novos casos. Porém, a boa notícia vem do Food and Drug Administration (FDA, órgão norte-americano responsável pela regulamentação de alimentos e medicamentos). A entidade acaba de aprovar uma vacina preventiva para a doença, a primeira do tipo contra um câncer. Quatro estudos clínicos em fases II e III avaliaram a eficácia da vacina. No total, 20.541 mulheres, entre 16 e 26 anos, de diversas partes do mundo, participaram. Entre elas, três mil brasileiras, de 14 centros clínicos de várias regiões do País. Os números finais utilizados para aprovação nos Estados Unidos foram bastante favoráveis. "Trata-se de um avanço muito importante. Podemos comparar o surgimento da vacina ao anticoncepcional oral. Vai modificar a história da mulher", relata Bernadete Nonnenmacher, ginecologista do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS), que participou dos estudos. As mulheres foram divididas em dois grupos de forma aleatória. Durante três anos, 50% receberam a vacina, e as demais, placebo (substância sem efeito medicamentoso). A vacina impediu em 100% das pacientes os cânceres do colo do útero; em 95%, as neoplasias cervicais de baixo grau; em 99%, as verrugas genitais, e em 100%, os pré-cânceres. "É uma vacina de impacto mundial, mesmo em países desenvolvidos onde a prevenção é adequada. Além disso, é preciso frisar que essa é a primeira vacina contra um câncer", explica David Salomão Lewi, médico infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein e professor da disciplina de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A vacina, do laboratório Merck Sharp & Dohme, é classificada como tetravalente, pois previne contra os quatro tipos mais freqüentes de HPV (6, 11, 16 e 18). Os tipos 16 e 18 são responsáveis por cerca 70% dos casos de câncer do colo do útero (quando causado pelo vírus), e os tipos 6 e 11 causam em torno de 90% das verrugas genitais. A função da vacina é estimular a produção de anticorpos para cada subtipo de HPV. A proteção depende da quantidade de anticorpos produzidos pela pessoa. HPV - O contágio pelo HPV (vírus do papiloma humano), em relações sexuais sem proteção, é um dos principais fatores desencadeantes da doença e de lesões precursoras - na pele ou mucosa - nos órgãos genitais masculino e feminino. Normalmente, elas têm crescimento limitado e regridem de forma espontânea. Existem mais de 200 subtipos diferentes de HPV, mas somente os de alto risco estão relacionados com cânceres. Embora as infecções clínicas mais comuns estejam nos órgãos genitais, estudos comprovaram que, embora de forma rara, os vírus podem ser encontrados na pele, laringe (cordas vocais) e no esôfago. Outro dado importante é com relação ao câncer do colo do útero. Apesar de o vírus HPV ser encontrado em cerca de 90% desse tipo de tumor, somente uma pequena parcela das mulheres infectadas desenvolverá o câncer. Estimativas apontam que esse número seja inferior a 10%. O uso da camisinha durante a relação sexual diminui a possibilidade de transmissão do HPV, mas não a evita totalmente. Por isso, a multiplicidade de parceiros aumenta o risco de contrair o vírus. Grande parte das infecções é assintomática e de caráter transitório, o que faz com que muitas pessoas não saibam que estão contaminadas. Quando surgem lesões ou verrugas, diversos tratamentos podem ser oferecidos, mas isso depende da avaliação médica. Até o momento, a medicina não dispõe de nenhum tratamento eficaz para o mal. Tratamento - Estudos indicam que até 80% das mulheres com vida sexual ativa serão infectadas por algum tipo de HPV em determinado momento da vida. No Brasil, em especial, estima-se que cerca de 25% das mulheres estejam infectadas. Os estudos que avaliaram a vacina foram conduzidos somente com mulheres não infectadas. Os médicos defendem que o medicamento seja aplicado antes do início da vida sexual. Para a imunização são necessárias três doses, sendo a segunda aplicada um mês após a primeira e a terceira, e última, ministrada seis meses depois da segunda. A aprovação do FDA é destinada a mulheres entre 9 e 26 anos de idade. Durante o acompanhamento, não foram observados efeitos colaterais graves. "O que aconteceu foi o normal, uma dor leve no local da aplicação, dor de cabeça e febre ligeira. Ela é super-segura", informa Bernadete. Para aprovar a vacina com essa indicação etária, o laboratório submeteu ao FDA estudos com meninas entre 10 e 15 anos em comparação com a faixa de 16 a 23 anos. Os resultados foram semelhantes e motivaram o órgão norte-americano a estender a aprovação. Outro ponto importante diz respeito à mulher infectada. Os médicos informam que, se a paciente estiver infectada somente com um tipo de HPV, vale a pena tomar a vacina para se proteger dos demais. Brasil - Outro país que já aprovou o uso da vacina foi o México. No Brasil, a documentação foi submetida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a decisão pode sair ainda neste mês. Isso não significa, no entanto, que a vacina estará disponível de imediato no Sistema Único de Saúde. Com um custo elevado - em torno de US$ 100 a dose - muitas negociações deverão ser feitas para que o produto seja disponibilizado de forma gratuita para a população. Já existe uma movimentação em torno dessa possibilidade, mas é necessário aguardar. "Haverá uma gestão para que ela seja disponibilizada. O governo não tem tantos recursos para custear no preço atual. O mesmo fato ocorreu quando lançaram a vacina para hepatite B. Com o tempo, ela ficou mais barata", avalia Lewi, do Einstein. A vacina é um marco na prevenção de doenças sérias, mas não acaba com a necessidade de se prevenir com o uso da camisinha e exames ginecológicos. "A prevenção deve continuar. Só que, uma vez instituída a aplicação da vacina, haverá queda de infecção de HPV e de lesões atribuídas ao vírus", acredita Lewi. O mesmo alerta é dado pela ginecologista do Rio Grande do Sul. "A vacina previne contra quatro tipos. Embora sejam os mais freqüentes, ela não libera as mulheres do rastreamento clínico, pois existem outros tipos de HPV", orienta Bernadete. Inicialmente, a aprovação do FDA é destinada a mulheres. Estão em curso, porém, estudos para avaliar a eficácia da vacina em homens. Segundo a ginecologista, inicialmente serão acompanhados homens hetero e homossexuais. A intenção é verificar a performance do medicamento na prevenção de infecções no pênis e no ânus. A partir do próximo ano, os resultados destes estudos devem ser apresentados.

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