Argentina barra votação de alerta contra a dengue

Doença já contaminou mais de 40 mil pessoas em todo o país segundo ONGs, governo reconhece 12 mil casos

Por Marina Guimarães, correspondente da Agência Estado,

16 Abril 2009 | 16h07

O mosquito da dengue, que já afeta nove das 24 províncias argentinas, chegou à capital federal e à Província de Buenos Aires. Mais de 40 mil pessoas em todo o país estão contaminadas, segundo dados de organizações não-governamentais (ONGs). O governo, por sua vez, reconhece 12 mil casos e evita declarar estado de emergência sanitária. Apesar da gravidade da situação a bancada governista no Senado brecou na noite de quarta-feira, 15, a votação de um projeto que estabelecia "um alerta epidemiológico".

 

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Em campanha eleitoral para renovar um terço da Casa e metade da Câmara nas eleições de 28 de junho, o líder do governo no Senado, Miguel Pichetto, argumentou que a decisão é para "não alarmar" a população e evitar uma repercussão negativa nacional e internacional.

 

A oposição, no entanto, justifica que a situação requer justamente que a população esteja "alarmada" e faça a parte dela para combater a doença. Em apenas 15 dias, o número de ocorrências triplicou.

 

Para o senador socialista Rubén Giustiniani, "é um papelão a tentativa do governo de ocultar a epidemia". O líder da bancada da União Cívica Radical (UCR), Ernesto Sanz, disse que havia um acordo com a bancada governista para aprovar o projeto.

 

O governo até mesmo participou do debate sobre o assunto, que durou mais de duas horas, mas, no último momento, Pichetto recebeu uma ligação da presidente Cristina Kirchner para recuar, segundo informou uma fonte ligada a ele.

 

Após a ligação, Pichetto disse que "é preciso evitar as manchetes catastróficas que já estão sendo publicadas" pelos jornais. "Não coloquemos a Argentina no mapa vermelho do mundo", completou.

 

O governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, aliado da administração federal, pediu que não se transforme a enfermidade num assunto político, mas reconheceu que os funcionários públicos da região e ele mesmo "têm de assumir o problema".

 

A proposta que estava em discussão no Senado visa a alertar a população em todo o país sobre a epidemia e declara estado de emergência sanitária nas zonas da fronteira com a Bolívia e Paraguai, as mais afetadas pela moléstia.

 

Os primeiros casos foram registrados no norte argentino, há quatro semanas e, desde então, não param de aumentar. A situação crítica foi denunciada por médicos e pela população, mas prefeitos e governadores alinhados com a Casa Rosada demoraram a reagir e a admitir as condições.

 

Cristina ainda não se manifestou sobre o assunto e os quase 7 mil casos em Chaco, onde até um secretário do Estado e a metade dos agentes sanitários foram contaminados. Na última semana, foram confirmados contágios de cerca de 200 moradores na Capital Federal e na Província de Buenos Aires.

 

A Casa Rosada tem ignorado a situação, que já se tornou grave, como reconheceu a ministra de Saúde, Graciela Ocaña, algumas semanas depois da epidemia ter se instalado. Graciela é a única do gabinete de Cristina que viaja às províncias afetadas e admite o problema.

 

Por causa disso, Graciela estaria sendo hostilizada pelos demais ministros e pelo próprio casal presidencial, Néstor e Cristina Kirchner. As eleições legislativas de junho são consideradas fundamentais para o casal definir a candidatura a presidente em 2011.

 

As pesquisas apontam para fortes riscos de derrota do kirchnerismo em algumas províncias, mas a principal delas é a de Buenos Aires. Para não perder neste principal distrito eleitoral, que define uma eleição presidencial, Néstor Kirchner pode anunciar no dia 24 que será candidato a deputado junto com o atual governador Daniel Scioli.

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