Argentina vive ilegalmente no Brasil para tratar-se de Aids

Com programa modelo, muitos estrangeiros vêm ao Brasil em busca de tratamento contra a doença

Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo,

19 de abril de 2008 | 00h02

A argentina Lúcia (nome fictício) veio para o Brasil último semestre de 2006. Estava grávida de cinco meses. Por causa de um episódio em que sua pressão arterial subiu perigosamente, foi levada para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Enquanto estava internada, os médicos refizeram os exames de pré-natal. Descobriu, então, que era portadora do HIV.   Estrangeiros vêm ao Brasil em busca de tratamento para a Aids   Não quis voltar para a Argentina. Temeu a reação da família e não queria rever o marido que a contaminara. Sua criança nasceu com a doença. Hoje, com um ano, é um bebê bonito e sorridente de grandes olhos escuros. Mas, nos primeiros meses, correu sério risco de vida, por causa de uma toxoplasmose. A mãe sente-se triste quando recorda que ficarão algumas seqüelas, principalmente dificuldades no aprendizado. "Mas, quando olho para meu filho brincando, penso que todo sofrimento valeu a pena", afirma.   Lúcia já encaminhou toda a papelada para legalizar sua situação no Brasil. Como o filho nasceu aqui, ela tem direito à cidadania brasileira. Alguns migrantes, contudo, permanecem em situação irregular.   Como Lúcia, pelo menos 1.256 estrangeiros estão em tratamento no Brasil, segundo dados do Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom), do Programa Nacional de DST e Aids. Mas apenas 385 das 664 Unidades Dispensadoras de Medicamentos (UDMs) já estão integradas ao sistema, o equivalente a 58%. O Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, por exemplo, é uma das UDMs que ainda não utiliza o Siclom. Em 2006 e 2007, atendeu 112 estrangeiros. Eles não estão considerados no somatório acima.   O paraguaio Cláudio (nome fictício) descobriu que era portador do HIV, vírus causador da Aids, na véspera do Natal de 1993, quando estava com 19 anos. Realizara os exames médicos admissionais em uma empresa de Ciudad del Este (Paraguai) e, por telefone, a médica deu-lhe a notícia de que era soropositivo.   Mudou-se para a capital Assunção. Lá, o tratamento consumiu casa, carro, moto e as mensalidades do último ano da faculdade. "Gastei mais de R$ 200 mil", afirma. Mesmo assim, perdeu a visão do olho direito, a audição do ouvido esquerdo e um acidente vascular cerebral prejudicou-lhe a dicção. Os exames mostravam que as defesas imunológicas eram praticamente nulas e já perdera um terço do seu peso normal.   O infectologista que acompanhava o caso aconselhou-o: "Aqui no Paraguai não podemos fazer mais nada por você. Sugiro que vá para São Paulo." Hoje, com 34 anos, Cláudio mora em São Paulo, trabalha e gosta de praticar esportes. Precisa tomar cinco anti-retrovirais. Um deles, o T-20, conhecido comercialmente como Fuzeon, custaria US$ 17 mil anuais, cerca de R$ 28 mil. É a droga mais cara do coquetel disponível no País. O Sistema Único de Saúde (SUS) fornece-a gratuitamente.   Foz do Iguaçu é um dos poucos lugares onde os requisitos para ingressar no tratamento são mais exigentes. A coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids, Rosa Maria Lima, explica que, há dois anos, todos os meses, três novos paraguaios procuravam ajuda no Serviço de Atendimento Especializado (SAE). "Havia estrutura para realizar os exames de CD4, genotipagem e carga viral, pois eram financiados pelo governo federal e estadual. Mas o município não conseguiria arcar com os exames de rotina: tomografia, exames de sangue..."   Decidiram, então, encaminhar os estrangeiros não-residentes no Brasil para tratamento em Ciudad del Este. "Em 2006, o Brasil iniciou um intenso diálogo com o Paraguai para trocar experiências. Desde então, o serviço deles melhorou bastante", afirma Rosa. "Aqueles que comprovam residência no Brasil são atendidos aqui e recebem toda assistência para regularizar, o mais rápido possível, sua situação legal." Atualmente, 27 paraguaios são atendidos em Foz do Iguaçu.

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