Ed Jones/AFP
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Argentinos não cantam mais o tango 'Fumando espero'

Buenos Aires tornou-se cidade virtualmente 100% livre da fumaça de cigarro desde 2010

Ariel Palácios, correspondente

31 de maio de 2012 | 15h07

BUENOS AIRES - O tango "Fumando espero", no qual o protagonista fala do prazer "sensual, genial" de fumar um cigarro enquanto aguarda a amada, não é mais um hit parade dos argentinos. Neste dia internacional do combate ao tabaco, o país poderá celebrar a redução das áreas onde essa atividade pode ser praticada.

 

Desde 2010 a capital argentina tornou-se uma cidade 100% teoricamente livre de fumaça de cigarros, charutos e cachimbos em espaços públicos. A determinação foi adotada pela assembleia legislativa do distrito federal, que estipulou a proibição de fumar em todos os espaços fechados com acesso público, sejam privados ou do setor público. Somente é possível fumar em pátios, terraços e varandas.

 

Um terço dos adultos argentinos - 8 milhões de pessoas - são fumantes, segundo dados da Fundação do Centro de Pesquisas de Doenças Alérgicas e Respiratórias (Cidea). A Aliança Livre de Fumaça de Tabaco Argentina (Aliar) sustenta que uma pessoa morre a cada doze minutos no país por causa das doenças atribuíveis ao consumo de tabaco. Segundo o Atlas Internacional do Tabaco, a Argentina concentra o maior número de fumantes per capita de toda a América Latina, com uma média de 1.014 cigarros por ano, acima da média paraguaia (968), chilena (909) e brasileira (850).

 

No entanto, diversas pesquisas indicam que mais de 75% dos próprios fumantes argentinos estão a favor das restrições do consumo de cigarros em áreas públicas.

 

O ministério da Saúde da Argentina determinou que este dia terá o slogan "Protejamos nossas crianças do cigarro". Segundo dados do ministério, quase 30% das crianças argentinas começa a fumar antes dos 12 anos. Em algumas cidades do país ONGs trocarão guloseimas por cigarros.

 

Para combater o consumo de tabaco, o Ministério da Saúde aproveitará a jornada mundial para fazer atividades na frente do Obelisco, o monumento-símbolo de Buenos Aires, que incluirá a divulgação de material informativo. Personalidades do esportes e da televisão estarão presentes para fazer campanha contra o cigarro.

 

No entanto, apesar das proibições, diversos argentinos tentam driblar a lei. Esse é o caso dos taxistas, classe profissional que costuma ignorar as normas sobre cigarros.

 

Ver um taxista fumado dentro do veículo é algo comum. No melhor dos casos, alguns motoristas perguntam ao passageiro se a fumaça o incomoda. Os motoristas de ônibus também resistem em abandonar o hábito. Seu modus operandi, para driblar a lei, é acender o cigarro, abrir um pouco a janela, colocar a mão esquerda do lado de fora, segurando o cigarro do lado externo do veículo de transporte de passageiros.

 

Desde 2006 o país teve uma onda de leis municipais e provinciais para impedir o tabaco em lugares públicos. Em junho passado o Parlamento aprovou uma lei nacional. No entanto, até agora a norma não foi regulamentada pela presidente Cristina Kirchner.

 

Normas. A lei anti-tabaco da cidade de Buenos Aires exclui da proibição os centros psiquiátricos e penitenciárias, já que essas instituições precisam permitir o consumo de cigarros como forma de "descomprimir as tensões". A lei anterior indicava que lugares públicos como bares e restaurantes poderiam ter uma área reservada para fumantes. Com a nova norma, os estabelecimentos comerciais tiveram um prazo de 180 dias para eliminar os "fumódromos".

 

O prazer de acender um cigarro, aspirar a nicotina e olhar para as monumentais cataratas do Iguaçu acabou também em 2010, quando a Administração de Parques Nacionais (APN), anunciou a categórica proibição para a atividade de fumar. O motivo: o Parque Nacional Iguazú, do lado argentino das quedas, foi declarado "área livre de fumaça de cigarro".

 

Os turistas somente podem fumar no Centro de Visitantes, a área comercial do "Parque del Iguazú", afastada das quedas d'água. Mas, quem quiser fumar ali deverá levar seus próprios cigarros ou pedir emprestado a outro colega fumante, já que há vários anos os estabelecimentos do parque não comercializam o produto. 

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