Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Arruinamos a infância

Para as crianças de hoje, uma hora de brincadeira é como uma gota d’água no deserto. É claro que elas são infelizes.

Tim Brooks, The New York Times

21 de agosto de 2019 | 03h00

Segundo o psicólogo Peter Gray, as crianças hoje estão mais deprimidas do que estavam durante a Grande Depressão e mais ansiosas do que no auge da Guerra Fria. Um estudo publicado pelo Journal of Abnormal Psychology concluiu que, entre 2009 e 2017, os índices de depressão subiram mais de 60% entre os jovens de 14 a 17 anos e 47% entre os de 12 e 13. Não se trata diagnósticos inflados. O número de crianças e adolescentes atendidos em pronto-socorros com pensamentos suicidas, ou que já tentaram suicídio, dobrou entre 2007 e 205.    

Simplificando, nossas crianças não estão bem.

Por muito tempo, como mãe e como escritora andei à procura de um culpado único. Seriam as telas dos eletrônicos? A comida? A falta de ar fresco e tempo livre? O aumento do número de crianças superprotegidas e com compromissos demais? A cultura abrangente da ansiedade e do medo? 

Tudo isso pode contribuir. Mas cheguei à conclusão de que os problemas de saúde mental e emocional de nossas crianças não são causados por nenhuma mudança única no ambiente, mas por uma mudança fundamental no modo como vemos as crianças, como as educamos e como essa mudança transformou nossas escolas, bairros e relações pessoais e comunitárias. 

A criação de filhos, antes vista como um trabalho necessário visando ao bem comum, transformou-se num desafio para os pais, excetuando-se os mais ricos. Os pais estão por sua própria conta quando se trata do bem-estar da prole. Muitos tiveram de priorizar a segurança física e a supervisão das crianças por  adultos em lugar de cuidar de seu desenvolvimento emocional e social saudável. Quando a função dos pais é privatizada e a infância é institucionalizada, as crianças sofrem. 

Impossibilitados de confiar em estruturas comunais para cuidar das crianças e permitir que elas tenham um tempo para elas, pais que trabalham são obrigados a confinar os filhos por longos períodos. Os períodos escolares são hoje mais longos e organizados mais rigidamente. Jardins de infância, onde predominavam as brincadeiras, são hoje uma preparação para o primeiro grau. Crianças muito pequenas têm deveres de casa mesmo com muitos estudos concluindo que isso é prejudicial. Testes padronizados e treinamentos substituíram amplamente o descanso, os almoços prazerosos, a arte e a música. 

O peso do estresse escolar na angústia mental é confirmado por dados sobre suicídio infantil. “Os índices de suicídio infantil são duas vezes mais altos em períodos escolares que durante as férias”, segundo Gray. “Isso é verdade para suicídios levados a cabo, tentativas e idealização de suícidios.” 

Mas os problemas com a saúde mental e emocional das crianças não são causados apenas pelo que acontece nas salas de aula. Eles também refletem o que ocorre em nossas comunidades. A falta de recursos de todo tipo, incluindo (mas não limitando) o acesso a serviços de atendimento à saúde mental, à saúde em geral, à moradia acessível e a uma educação melhor, leva muitos pais a trabalhar mais e mais duro que nunca. Ao mesmo tempo em que mais é exigido dos país, o tempo livre na infância e atividades individuais se tornaram tabu. 

Assim, para muitas crianças, quando o dia escolar termina não faz muita diferença. Elas passam as tardes, fins de semanas e férias em atividades, enquanto os pais trabalham. Lugares públicos onde antes crianças se reuniam para brincadeiras não supervisionadas e não estruturadas hoje estão hoje fora dos limtes. Os que podem levam os filhos de uma atividade estruturada para outra. Os que não podem os mantêm em casa. Brincadeiras livres e independência infantil viraram relíquias, riscos para a segurança e até perigo de molestamento sexual. 

Tali Raviv, diretora do Centro para Resistência Infantil, diz que muitas crianças atualmente têm dificuldade em conviver socialmente. Segundo ela, “as crianças hoje têm menos oportunidades de praticar o convívio sócio-emocional – seja por viverem em comunidades violentas nas quais não podem brincar na rua, seja por serem superprotegidas e não terem liberdade de ir até a esquina”. Elas não sabem “como começar uma amizade ou um relacionamento, o que fazer quando alguém as aborrece  ou como resolver um problema”. 

Muitos pais e pediatras especulam qual o peso das telas dos eletrônicos e da mídia social nesse déficit social. Mas é importante considerar que simplesmente proibir, ou limitar o tempo da criança na tela, não é suficiente. As crianças se voltam para os eletrônicos porque não há mais oportunidades de interação humana real. As praças e espaços onde elas  aprendiam a ser pessoas sumiram ou se tornaram muito perigosas para quem tem menos de 18 anos.  

Para muitos americanos, a família nuclear se tornou uma instituição solitária – e a infância um longo estágio para garantir um lugar numa clase média que vem encolhendo. 

Alguma coisa precisa mudar, diz Denise Pope, cofundadora do Chalenge Success, uma organização baseada em Palo Alto, Califórnia, que ajuda escolas a melhorarem a saúde mental de suas crianças. Segundo ela, crianças precisam folgar, precisam de almoços mais longos, precisam brincar livremente. Precisam de tempo com a família. Precisam de menos lições de casa, menos provas escolares e mais ênfase no aprendizado sócio-emocional. 

Challenge Success também trabalha com os país, encorajando-os a confraternizar com os vizinhos, organizar dias livres nos quais as crianças possam simplesmente brincar e ensinando-os a não intervir em conflitos normais entre crianças, para que elas possam desenvolver meios de solucionar problemas por si mesmas. 

Gray me disse que não é surpresa que o programa (do qual ele é consultor) esteja sendo bem recebido. “Crianças estão prontas a levantar uma hora mais cedo para brincar”, disse ele. “É como uma gota de água para quem está num deserto.” 

Grupos como esse estão fazendo um trabalho importante, mas, se servem de indício, não deveríamos nos surpreender com  que tantas crianças sejam infelizes. Investir num segmento da população significa encontrar um meio de que esse segmento se sinta seguro e livre. Quando se trata de crianças, frequentemente falhamos. Não é de espantar que tantas estejam sucumbindo ao desespero. De vários modos, os Estados Unidos desistiram da infância e das crianças. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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