Christina Rufatto/Estadão
Christina Rufatto/Estadão

As crianças e a covid-19

Deixo aqui um recado para todos os pais: não parem o tratamento dos seus filhos

José Luiz Setúbal*, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 17h29

Muito se tem falado sobre a pandemia do novo coronavírus, mas raramente abordando a perspectiva da criança e do adolescente na crise. Como pediatra, gostaria de trazer à luz alguns pontos. Estamos falando de algo conhecido há menos de seis meses e, apesar disso, milhares de trabalhos científicos já foram publicados. Mas poucos trazem referências sobre os pequenos. Não chega a ser surpreendente, uma vez que este público não está entre os mais afetados.

Dos estudos que tive acesso, o mais interessante me parece este: "Epidemiological Characteristics of 2143 Pediatric Patients with 2019 Coronavirus Disease in China", que sairá na edição de junho da prestigiosa revista Pediatrics da Academia Americana de Pediatria. Na análise destes mais de 2 mil casos da província de Hubei, na China, resumidamente, foi observado que crianças de todas as idades parecem suscetíveis à covid-19, sem diferença de gênero.

Crianças pequenas, particularmente bebês, foram as mais vulneráveis à infecção. As manifestações clínicas eram menos graves do que nos pacientes adultos. Sendo que só 6% dos casos foram graves ou moderadamente graves, contra 18,5% nos adultos. E só houve uma morte (um menino de 14 anos). Mais de 90% dos pacientes pediátricos eram assintomáticos, apresentando formas leves da doença.

Para explicar por que as crianças e adolescentes são menos suscetíveis à covid-19, cientistas pensam ser possível pois a maturidade e função imunológica em crianças é menor do que em adultos, já que elas não apresentariam uma resposta exagerada - conhecida como 'tempestade de citocinas' - que causa grande inflamação pulmonar nos adultos. 

Entretanto, este estudo tem uma série de limitações, pois não permite avaliar as características clínicas das crianças antes da covid, já que estes dados não estavam disponíveis. Também não há informações sobre o período de incubação. Além disso com a epidemia em curso, com muitas crianças afetadas e hospitalizadas em vários países precisamos obter uma melhor compreensão e informações mais detalhadas do desfecho clínico, que devem ser objetos de estudos futuramente. 

No hospital em que atuo, até o momento houve 10 crianças internadas e com boa evolução. Nossas projeções pelos modelos matemáticos não nos assustam. Passaremos pela epidemia com poucos casos e estamos preparados. Já que nesta época do ano sempre montamos uma operação especial para gripes e outros vírus respiratórios que acometem os pequenos.

O que é ruim e me preocupa neste instante são as crianças com doenças crônicas. Cardiopatias, neuropatias, diabetes, problemas nos rins, intestinos, algo que tratamos normalmente e é vital não interromper. Estamos abertos para as emergências ou cirurgias e para as consultas normais podemos usar as teleconsultas.

Deixo aqui um recado para todos os pais: não parem o tratamento dos seus filhos. Liguem para o médico de confiança, pois a maioria já aderiu ao teleatendimento e à tele orientação. Pode ser até um paliativo, mas que acalma a ansiedade das famílias e é um remédio muito menos amargo.

*Pediatra, presidente do Conselho do Hospital Sabará e da Fundação José Luiz Egydio Setúbal

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