Gastán Ramseyer
Gastán Ramseyer

As descobertas de uma cética insone em um retiro de ioga

Depois dos perrengues da pandemia, mergulhar nesse processo de autocuidado era mais uma salvação do que uma ostentação

Kátia Arima, Especial para o Estadão

04 de junho de 2022 | 05h00

Sentar no chão, fechar os olhos, cruzar as pernas e assim me manter por 10 minutos. Simples, não? Mas, na postura meditativa, sucumbi ao sono e a cabeça tombou. Quando abri meus olhos, a instrutora tinha visto tudo. Dei uma risadinha sem graça e torci para que acabasse logo. Comecei a implicar com a costura da roupa que pinicava o corpo e a me preocupar com os pernilongos. Um verdadeiro siricutico mental ao som da orquestra de insetos. Quando o sininho tocou, ufa! Aqueles minutos me pareceram horas.

Por que eu havia dormido na hora de meditar se nos últimos meses estava sofrendo de insônia? Esses e outros tantos questionamentos surgiram - e se diluíram ao longo dos dias - na minha primeira experiência de retiro, quase 2 mil quilômetros distante da minha família em São Paulo. Durante quatro dias, mergulhei em um processo de autocuidado, em que pratiquei as posturas da ioga, entoei mantras em sânscrito, fiz refeições vegetarianas, nadei no mar, na cachoeira, no rio, dei cambalhota, evoluí nas posturas invertidas, bebi vinho, fiz novas amizades, me emocionei, bebi vinho de novo, gargalhei. E dormi muito bem, inclusive com as pernas para cima durante uma prática de relaxamento, para o espanto de todos.

Era um presente que havia dado para mim mesma, para celebrar um ano de prática de ioga online com a minha professora Juliana Barrena, que organizava o seu primeiro retiro, a Imersão Purna, junto com a professora Nanda Lorders. Depois de tanto perrengue durante a pandemia, eu sentia que ir para o retiro estava mais para salvação do que para ostentação. Parcelei R$ 1.400 em quatro vezes o pacote com hospedagem em quarto duplo por três noites, com programação e refeições inclusas. Some aí o preço do transporte. Como nas posturas (asanas) de torção, espremi o orçamento e a agenda.

Na esteira da ioga e da meditação, geralmente vêm as práticas místicas. Eu, a cética que não acredita nem em horóscopo, estava ciente do terreno em que eu estava pisando. Por isso, não me surpreendi com um ritual de defumação que abriu o evento. Nanda rodeou rapidamente um pedaço de palo santo queimado em volta do meu corpo e me sugeriu “deixar do lado de fora as preocupações”. Ótima proposta. Lembrei da frase famosa de autoria obscura: “Não creio nas bruxas, mas que existem, existem”.

Nos apresentamos uns aos outros no grupo e percebi que estava acompanhada principalmente de mulheres de meia idade. Entre os 15 participantes, a maioria não tinha muita experiência com ioga e meditação e estava lá em busca de paz e descanso. Depois de alguma conversa, fizemos a nossa prática de ioga, em roda, a minha primeira experiência em grupo. Enfim, eu estava lá, concentrada, esticando, retorcendo e equilibrando o meu corpo, com alguns estalos nas articulações. Corpo e mente devidamente trabalhados, era hora da refeição ovolactovegetariana - que só não pode ser considerada “leve” porque repeti o prato algumas vezes. E dormi como um anjo.

De hábitos vespertinos, eu me arrastava até a sala de práticas às 7 horas, em jejum, me esforçando para saudar as pessoas alegremente. Não demorou para que aparecesse um desafio: o kapalabhati, exercício de respiração do “crânio brilhante”, com um rápido sobe e desce abdominal de propósito purificante. Perdi o compasso do resto da turma. Eu estava precisando oxigenar o cérebro.

Mas não faltaram oportunidades: logo engrenamos numa prática de vinyasa ioga, uma modalidade com sequência de posturas que fluem com a respiração. Foram duas horas prazerosas em que nem vi o tempo passar. No fim da prática, hora do savasana, a postura do cadáver. Apesar do nome assustador, trata-se apenas de deitar-se no chão com braços e pernas afastados, em estado de relaxamento, em um dos momentos considerados mais importantes da prática. “É a hora que a mágica acontece”, comentou a professora Juliana. Como uma cereja no bolo, um suave aroma floral estava no ar, que senti até…adormecer. Não era esse o objetivo, mas aconteceu.

“Você estava dormindo? Escutei o seu ronco”, perguntou uma das participantes. “Não, imagine”, desconversei, já com pressa de abocanhar o café da manhã e pisar nas areias baianas. A pousada Lagoa da Pedra, onde estávamos hospedados, era simples, mas muito agradável: integrada à natureza, a uma distância caminhável da praia e de uma cachoeira. Junto com algumas das participantes, fomos nos encontrar com o mar - e com o Rio Imbassaí, que deságua na praia.

Tomei esses banhos de axé na companhia da soteropolitana Karina Uchôa, funcionária pública de 46 anos, que só conhecia pela tela, compartilhando as práticas online de ioga. Ao vivo, eu confirmo que aquela mulher agitada está cheia de prana (energia vital). Ela me contou que estava no seu terceiro retiro. Difícil de acreditar que ela também tivesse encarado um retiro de meditação zen budista, que sugeria aos participantes que ficassem em silêncio durante as refeições e após o jantar, até a manhã do dia seguinte. “Foi desafiador, mas foi bom para olhar para dentro”, reconhece a tagarela que enfrentou a sua noite de silêncio.

Mas a pessoa mais popular do retiro era a psicóloga paulistana Silvia Sá, de 45 anos. O motivo: ela sabia tudo sobre vinhos. Sim, o álcool estava liberado. Numa das vivências, quando a proposta era explorar todos os sentidos, no escuro degustamos lentamente vinho e chocolate. Para explorar o tato, ainda no escuro, a sugestão era tocar como quisesse o braço de um participante. Para mim a experiência foi bem tranquila, mas as risadas denunciaram que para alguns isso era um incômodo - ou uma alegria.

Depois dançamos, bebemos e, já no quarto, cantarolei por alguns minutos sob efeito do álcool, para o desespero da Tatiana Sato, outra psicóloga paulistana, de 40 anos, amiga que dividia o ambiente bagunçado comigo. 

No dia seguinte, 7h, estavam todos entoando o famoso mantra “ommmmm”, com as mãos unidas. Nos primeiros minutos da aula, enquanto me esticava, me emocionei e permiti soltar algumas lágrimas com palavras simples da professora Juliana: “lembre-se de quem você é. Está tudo aí, você é completa”. Não sei se por efeito dessa fala ou do combo completo, eu destravei e, espevitada, passei a encarar as cambalhotas, paradas de mão, pontes e grandes saltos de Hanuman, o deus-macaco do hinduísmo.

Não que as acrobacias importassem, mas sentia que não era só meu corpo que se beneficiava daqueles movimentos, mas também a minha mente, que estava mais flexível e corajosa. Já na posição de descanso, ouvi a frase que marcou o retiro, o mantra perfeito para os ansiosos: “nada a fazer, nenhum lugar para ir”. 

Ioga e retiro não devem ser encarados como uma panaceia, sempre alertou a professora Juliana. Sei disso, mas o fato é que a insônia nunca mais deu as caras por aqui e, como uma mágica, na semana seguinte eu consegui fazer a postura invertida sirsasana, que exige concentração e força. Comemorei como uma criança que se equilibra pela primeira vez na bicicleta, apesar dos tombos. Cheia de gratidão e renovada, sem medo de ser taxada de “gratiluz”, já aguardo o próximo retiro. 

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