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As incertezas geradas pela Ômicron no Brasil

O importante é todos tomarem a terceira dose o mais rápido possível e vacinar as crianças

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2022 | 05h00

O mundo aprendeu muito sobre a Ômicron, mas isso não nos ajuda a saber o que vai acontecer no Brasil. O que sabemos sobre a Ômicron é que ela se espalha muito mais rápido. Cada pessoa infectada com a variante original infectava aproximadamente três outras pessoas. Uma pessoa infectada com a variante tem o potencial de infectar algumas dezenas de pessoas. Mas esse alto potencial de infecção agora encontra pela frente pessoas já vacinadas. Entre as pessoas vacinadas, grande parte, principalmente as que tomaram a terceira dose, sequer se infecta. As que se infectam, apresentam uma doença leve, semelhante a uma gripe.

A confusão causada pela Ômicron no mundo desenvolvido se deve a pessoas com sintomas leves terem fácil acesso a testes. E, ao testarem positivo, serem obrigadas a se isolar por 10-15 dias (muitos países já estão diminuindo esse número). Essas pessoas, quase sem sintomas, deixam de trabalhar, provocando o caos nos hospitais e empresas de transporte aéreo.

A primeira incerteza sobre o que vai ocorrer no Brasil é não sabermos como pessoas vacinadas com duas doses de Coronavac (são dezenas de milhões) se comportarão frente a Ômicron. Os resultados descritos acima vieram de estudos feitos em populações vacinadas com Pfizer (Israel, EUA) ou Pfizer e Astra Zeneca (Inglaterra). No Brasil somente a população mais jovem foi vacinada com Pfizer, e somente uma parte pequena da população tomou a dose de reforço. Pode ser que a Coronavac proteja contra a Ômicron, ou pode ser que a proteção seja baixa e os casos de pessoas vacinadas com Coronavac venham a apresentar quadros mais graves da doença, com mais internações e mortes. A Coronavac continua desconhecida.

A segunda incerteza é que o número de pessoas que estão sendo testadas é pequeno e com um viés para os casos mais graves e pessoas mais ricas. Sem saber o número real de pessoas com casos leves ou assintomáticos, é impossível entender o que está acontecendo e o que vai ocorrer nos próximos meses. Além disso o número de amostras que está sendo sequenciado para identificar casos de Ômicron é pequeno e pouco representativo.

Essas incertezas fazem com que os poucos dados que vêm sendo divulgados (o apagão no sistema do SUS piora a situação) sejam pouco confiáveis, para não dizer errados. E sem informação só resta aos brasileiros esperar, ver o que acontece, e torcer para Deus ser brasileiro. Enquanto isso o importante é todos tomarem a terceira dose o mais rápido possível e vacinar as crianças imediatamente. 

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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