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'As medidas de isolamento social precisam ser mantidas', diz vice-diretor da OPAS

No Estadão Talks, Jarbas Barbosa fala que o Brasil está em um momento de aceleração casos do novo coronavírus e ainda não conseguiu controlar a disseminação da doença

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 12h34

O vice-diretor da Organização Pan Americana da Saúde (OPAS), Jarbas Barbosa, afirmou que o Brasil ainda não está pronto para deixar as medidas de isolamento social. Ele disse que para fazer isso é necessário controlar a transmissão do coronavírus. “Tem que ser planejado e cuidadoso”, explicou. Barbosa foi o convidado desta terça-feira, 28, da série Estadão Live Talks.

“O Brasil se encontra naquele momento de aceleração do número de casos”, falou o vice-diretor em entrevista a Eliane Cantanhêde, colunista do Estado, Jorge Cimerman, médico do Instituto Emílio Ribas e colunista do Estado, e Mateus Vargas, repórter da sucursal de Brasília. Ele explica que, nesse estágio, o País tem de ter observar o grau de ocupação do serviço de saúde e planejar a sua ampliação, além de observar o número de respiradores e testes disponíveis. 

“Se a gente deixa a transmissão correr de maneira natural, nenhum sistema de saúde é capaz de atender a demanda gerada”, avalia. Jarbas falou que as medidas de distanciamento precisam ser implementadas antes de ocorrer o pico da doença.

Para justificar a manutenção do isolamento social no País, ele citou um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Os resultados preliminares da pesquisa mostraram que apenas 0,05% da população brasileira teve contato com o coronavírus e, por isso, podem ter desenvolvido anticorpos contra o vírus. 

Barbosa lembra que o estudo foi feito há duas semanas e, por isso, o número de pessoas que teve contato com o vírus já aumentou. Ele disse que, mesmo que o índice cresça bastante e que 10% da população tenha tido contato com o vírus, ainda assim é muito perigoso relaxar o isolamento. “Se levantar as medidas de distanciamento social você terá uma segunda onda (de contaminação), com certeza”, afirmou.

O vice-diretor da OPAS falou sobre o “passaporte da imunidade”, um documento que seria criado para identificar quem já teve a covid-19 e supostamente estaria imune à doença. Ele apontou algumas falhas no mecanismo que vem sendo discutido a nível global e já foi criticado pela Organização Mundial de Saúde. O primeiro ponto levantado por Barbosa é que ainda não se sabe se o paciente infectado pelo novo coronavírus fica imune a ele. “Será que não vai haver um mercado ilegal desses passaportes?”, questiona, citando outra possível complicação do mecanismo.

Favelas

Jarbas Barbosa falou também sobre a situação das favelas brasileiras. “O impacto nessas populações pode ser muito grave”, salientou. Ele lembra que essas áreas são densamente povoadas, principalmente pela superlotação das residências. Isso dificulta ou até mesmo impede o isolamento domiciliar de doentes. A recomendação para as pessoas que estão com sintomas leves da covid-19 é ficar em casa e sem contato com os outros moradores.

“Tem que avaliar a realidade, adaptar e buscar alternativas”, disse. Uma dessas alternativas citada por ele é a transformação de espaços públicos que não estão sendo utilizados em abrigos para os infectados. Isso já foi feito em Paraisópolis, onde duas escolas foram convertidas, temporariamente, em casas de acolhida.

Barbosa disse ainda que é importante distribuir produtos de higiene e limpeza, como álcool em gel, nas comunidades. “Muitas vezes eles têm dificuldade de acesso à água”, comentou. Lavar as mãos com frequência ou usar álcool em gel são recomendações importantes no combate ao coronavírus.

Cloroquina

“Nós ainda não temos uma recomendação sobre tratamento específico para a covid-19”, afirmou o vice-diretor da OPAS. Ele disse que há vários estudos em curso, como o uso de plasma de pessoas que foram curadas da doença e os testes com cloroquina. Ambos vêm sendo feitos por diversos países, incluindo o Brasil.

Especificamente sobre a cloroquina, Barbosa falou que o uso dela para tratar pacientes com coronavírus é um “uso fora da bula”. “Você tem alternativas que são comuns na prática médica. O que eu considero importante é seguir bem procedimentos médicos e técnicos”, disse. Ele afirmou que o uso preventivo da cloroquina, ao surgimento dos primeiros sintomas, não é recomendado e pode gerar problemas. “Medicamento são seguros, mas têm efeitos colaterais”, lembra.

“É importante que o médico converse com o paciente ou com a família e diga claramente que não há evidências científicas (sobre a eficácia da cloroquina contra a covid-19)”, falou Jarbas Barbosa. O vice-diretor da OPAS falou que o uso do remédio deve ser feito em quadros graves, com nenhuma outra alternativa terapêutica.

O Estadão Live Talks  foi transmitido nas redes sociais do Estadão: YouTube (TV Estadão), FacebookLinkedinTwitter e também pelo Webinar. A cobertura completa estará no portal do Estadão (www.estadao.com.br).

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