REUTERS/ Sumaya Hisham
REUTERS/ Sumaya Hisham

As vacinas vão deter a Ômicron? Os cientistas estão correndo para descobrir

A variante pode ser mais transmissível e ter mais potencial para escapar às respostas imunológicas do corpo, tanto à vacinação quanto à infecção natural, do que as versões anteriores do vírus, segundo especialistas

Apoorva Mandavilli, The New York Times

29 de novembro de 2021 | 17h47

Enquanto as nações cortavam conexões aéreas com o sul da África, em meio a temores de mais um surto global de coronavírus, no domingo os cientistas se empenhavam para reunir dados sobre a nova variante Ômicron, suas capacidades e – talvez o mais importante – a eficácia com que as atuais vacinas nos protegerão contra mais essa ameaça.

As primeiras descobertas formam um quadro confuso. A variante pode ser mais transmissível e ter mais potencial para escapar às respostas imunológicas do corpo, tanto à vacinação quanto à infecção natural, do que as versões anteriores do vírus, disseram especialistas em entrevistas.

As vacinas podem continuar a prevenir doenças graves e a morte, embora doses de reforço devam ser necessárias para proteger a maioria das pessoas. Mesmo assim, as fabricantes das duas vacinas mais eficazes, Pfizer-BioNTech e Moderna, estão se preparando para reformular suas vacinas, caso seja necessário.

“Nós realmente precisamos ficar vigilantes com essa nova variante e nos preparar para ela”, disse Jesse Bloom, biólogo evolucionário do Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle.

“Em mais algumas semanas, provavelmente teremos uma noção melhor de quanto essa variante está se espalhando e se será necessário avançar com uma vacina para ela”, disse Bloom.

Enquanto os cientistas começavam a examinar vigorosamente a nova variante, os países ao redor do mundo reduziam as viagens de ida e volta para as nações do sul da África, onde a Ômicron foi identificada pela primeira vez. Apesar das restrições, o vírus foi encontrado em meia dúzia de países europeus, como Reino Unido, além de Austrália, Israel e Hong Kong.

A Ômicron já é responsável pela maioria dos 2.300 novos casos diários na província de Gauteng, na África do Sul, anunciou o presidente Cyril Ramaphosa no domingo. No plano nacional, as novas infecções mais do que triplicaram na semana passada e a positividade dos testes aumentou de 2% para 9%.

Os cientistas reagiram mais rapidamente à Ômicron do que a qualquer outra variante. Em apenas 36 horas desde os primeiros sinais de problemas na África do Sul, na terça-feira, os pesquisadores analisaram amostras de 100 pacientes infectados, reuniram dados e alertaram o mundo, disse Tulio de Oliveira, geneticista da Escola de Medicina Nelson R. Mandela, em Durban.

Apenas uma hora após o primeiro alarme, cientistas da África do Sul também corriam para testar vacinas contra a nova variante. Agora, dezenas de equipes em todo o mundo – incluindo pesquisadores da Pfizer-BioNTech e Moderna – juntaram-se à corrida.

Eles só vão conhecer os resultados daqui a duas semanas, no mínimo. Mas as mutações que a Ômicron carrega sugerem que as vacinas provavelmente serão menos eficazes, em algum grau desconhecido, do que foram contra qualquer variante anterior.

“Com base no muito trabalho que as pessoas fizeram com outras variantes e outras mutações, podemos dizer com bastante confiança que essas mutações vão causar uma queda considerável na neutralização de anticorpos”, disse Bloom, referindo-se à capacidade de o corpo atacar um vírus invasor.

Os médicos sul-africanos estão observando um aumento nas reinfecções em pessoas que já sofreram com a covid-19, sugerindo que a variante pode superar a imunidade natural, disse o Dr. Richard Lessells, médico de doenças infecciosas da Universidade de KwaZulu-Natal.

A Ômicron tem cerca de 50 mutações, incluindo mais de 30 na proteína spike, a proteína viral que as vacinas preparam o corpo para reconhecer e atacar.

Algumas dessas mutações já tinham sido observadas. Acredita-se que algumas tenham potencializado a capacidade da variante Beta de contornar as vacinas, enquanto outras provavelmente turbinaram a extrema contagiosidade da Delta.

“Meu melhor palpite é que se trata de uma combinação desses dois elementos”, disse Penny Moore, especialista em vírus do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul, sobre a nova variante.

Mas a Ômicron também tem 26 mutações únicas na proteína spike, em comparação com 10 na Delta e 6 na Beta. Muitas delas parecem dificultar que o sistema imunológico reconheça e detenha a variante.

“Há muitas [mutações] que nunca estudamos antes, mas olhando só para a localização na proteína spike, elas estão em regiões que sabemos serem imunodominantes”, disse Moore, referindo-se a partes da proteína que interagem com as defesas do sistema imunológico do corpo.

A equipe de Moore talvez seja a mais avançada nos testes de quão bem as vacinas resistem à Ômicron. Ela e seus colegas estão se preparando para testar o sangue de pessoas totalmente imunizadas contra uma versão sintética da variante Ômicron.

A criação desse “pseudovírus” – um substituto viral que contém todas as mutações – leva tempo, mas os resultados devem estar disponíveis em cerca de 10 dias.

Para imitar mais de perto o que as pessoas provavelmente encontrarão, outra equipe liderada por Alex Sigal, especialista em vírus do Instituto de Pesquisa de Saúde da África, está cultivando Ômicron viva, que será testada contra o sangue de pessoas totalmente imunizadas, bem como daquelas que foram previamente infectadas.

Esses resultados podem demorar mais, mas devem fornecer uma imagem mais completa do desempenho das vacinas, disse Sigal.

Se as vacinas provarem ser muito menos potentes contra a Ômicron, talvez seja necessário ajustá-las para aumentar sua eficácia. Preparando-se para o pior, Moderna, Pfizer-BioNTech e Johnson & Johnson planejam testar uma versão artificial da Ômicron contra suas vacinas.

As vacinas de mRNA – Moderna e Pfizer-BioNTech, em particular – foram construídas com tecnologia que deve permitir uma modificação rápida. Os cientistas da Pfizer “conseguem adaptar a atual vacina em seis semanas e enviar lotes iniciais em 100 dias, caso uma variante de escape” venha a enganar o sistema imunológico, disse Jerica Pitts, porta-voz da Pfizer.

O trabalho da Moderna começou na terça-feira, imediatamente depois que seus cientistas souberam da Ômicron – a mais rápida reação da empresa a uma variante, disse o Dr. Stephen Hoge, presidente da Moderna.

Mesmo sem dados sobre a propagação da Ômicron, é óbvio que a variante pode ser uma ameaça temível para as vacinas, disse ele.

“Essa coisa é uma mistura meio Frankenstein de todos os maiores sucessos”, disse Hoge, referindo-se às muitas mutações relativas à variante. “Acionou cada um de nossos alarmes”.

A Moderna consegue atualizar sua atual vacina em cerca de dois meses e ter resultados clínicos em cerca de três meses, se necessário, disse ele.

Ambas as empresas também planejam testar se as doses de reforço fortalecerão o sistema imunológico o suficiente para evitar a nova variante. As doses de reforço das vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna demonstraram aumentar os níveis de anticorpos significativamente.

Mas esses anticorpos talvez não sejam amplamente eficazes contra todas as iterações do vírus e podem não ser suficientes para neutralizar totalmente a Ômicron, disse Michel Nussenzweig, imunologista da Universidade Rockefeller em Nova York.

Pessoas que se recuperam de covid-19 e receberam uma dose da vacina tendem a produzir uma gama mais ampla de anticorpos, os quais são capazes de reconhecer mais versões do vírus, do que as pessoas que foram apenas vacinadas.

“É claro que a imunidade híbrida, o tipo que as pessoas obtêm quando estão infectadas e vacinadas, é superior e é muito, muito provável que esse tipo de imunidade consiga enfrentar essa coisa também”, disse Nussenzweig.

“Não vimos isso depois de duas doses de vacina. Mas esperamos que depois de três doses haja algum efeito”, disse ele.

Nussenzweig e seus colegas estão se preparando para testar a Ômicron contra as vacinas de mRNA, bem como as vacinas feitas pela Johnson & Johnson e AstraZeneca. Eles esperam ter resultados dentro de um mês.

Vacinas específicas contra a Ômicron criadas em apenas algumas semanas seriam um feito milagroso. Mas a perspectiva de produzi-las e distribuí-las levanta questões assustadoras.

Se novas versões forem necessárias para proteger as pessoas em todos os lugares, as empresas devem disponibilizá-las aos países africanos que mais precisam delas e menos podem pagar por elas, disse Oliveira.

“A África do Sul pelo menos conseguiu obter suas próprias vacinas”, disse ele. Mas os países mais pobres como Sudão, Moçambique, Essuatíni e Lesoto precisarão de opções de baixo custo.

A Pfizer não respondeu a uma pergunta sobre vacinas de baixo custo para as nações africanas. Hoge, presidente da Moderna, disse que a empresa já tem um acordo com a União Africana para entregar 110 milhões de doses a US $ 3,50 por meia dose de vacina.

Hoge disse reconhecer que 110 milhões correspondem a menos de 10% da população da África. Mas, observou ele, “nós também somos a menor de todos as fabricantes, então, com alguma esperança, 10% já seria útil”.

Apesar da frustração que os cientistas sul-africanos expressaram quanto à iniquidade da distribuição de vacinas e aos efeitos punitivos das restrições de viagem, eles foram inundados com pedidos de sequenciamentos genéticos da Ômicron por parte de Itália, Alemanha, Austrália e Nova Zelândia, bem como de laboratórios na América do Norte.

Quanto mais equipes envolvidas, melhor, disse Moore, que recebeu cerca de 50 solicitações apenas no sábado. À medida que o vírus se move pelo globo, é provável que continue acumulando mutações. “Conseguir a combinação certa de mutações já é acertar um alvo móvel”, disse ela.

Pesquisadores de vários os lugares querem evitar conclusões prematuras, um erro que cometeram quando apareceu a variante Beta. Os testes preliminares dessa variante levaram em consideração apenas uma mutação conhecida e subestimaram sua capacidade de escapar do sistema imunológico, lembrou Moore. (Felizmente, a variante acabou se revelando menos contagiosa).

Para obter uma imagem completa da eficácia das vacinas contra a Ômicron, os cientistas devem observar não apenas os níveis de anticorpos, mas também as células imunológicas que podem reconhecer e destruir as células infectadas. As células imunológicas chamadas células T são cruciais para evitar que uma infecção progrida para doença grave ou morte.

Algumas das mutações da Ômicron ocorrem em partes do vírus que servem de alvo para as células T, o que significa que elas podem ter mais dificuldade de reconhecer a variante.

Uma simulação de computador já previu que essas mutações podem alterar cerca de seis das centenas de regiões que as células T conseguem reconhecer, disse Wendy Burgers, imunologista da Universidade da Cidade do Cabo.

Pode não parecer muito. Mas as pessoas têm conjuntos variados de células T, portanto, dependendo de quais alvos as mutações eliminam, algumas pessoas mal podem ser afetadas pela Ômicron – enquanto outras podem ficar vulneráveis.

Burgers espera obter sangue de 50 pessoas infectadas com a variante para avaliar como as mutações irão se comportar em determinada população. Assim que as amostras estiverem em mãos, os resultados serão disponibilizados após “provavelmente uma semana de análises e trabalho até de madrugada”, disse ela.

Mesmo que as vacinas resistam à Ômicron, novas versões provavelmente serão necessárias em algum momento – e talvez muito em breve. O vírus está adquirindo mutações muito mais rápido do que o esperado, disse Bloom.

O vírus da influenza sazonal é o exemplo mais citado de vírus que sofre mutações rapidamente, exigindo atualizações frequentes das vacinas. Mas o coronavírus é “pelo menos comparável e possivelmente até mais rápido do que o influenza”, disse Bloom. “Sempre haverá novas variantes surgindo.”

Este artigo foi publicado originalmente no New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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