Divulgação/Lar Joana D'Arc
Divulgação/Lar Joana D'Arc

Asilos registram 493 mortes e dois mil casos de covid-19 em São Paulo

Total de idosos contaminados pelo novo coronavírus em asilos estaduais chegou a 2.027, segundo dados do Ministério Público

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 10h00

SOROCABA – O novo coronavírus já causou a morte de 493 idosos em instituições de longa permanência do Estado de São Paulo. Outros 138 óbitos estão em investigação. O total de velhinhos contaminados em asilos chegou a 2.027 nesta quinta-feira, 9, segundo dados do Ministério Público de São Paulo (MPSP). Há ainda 393 casos suspeitos. O vírus pegou também 1.095 funcionários, mas não há informações sobre mortes.

Os números correspondem a levantamento feito em 1.700 dos 2.012 abrigos permanentes de pessoas idosas, públicos e privados, existentes no Estado, segundo o MPSP. A população nos lares monitorados é de 39.637 pessoas com mais de 60 anos. As instituições estão espalhadas por todas as regiões de São Paulo – o mapeamento só não atingiu a região de Marília. A capital concentra o maior número de óbitos, segundo o levantamento do MPSP. Dos 1.209 idosos que se contaminaram, 304 morreram. Em asilos da Grande São Paulo, 388 pegaram o vírus e houve 102 mortes.

No Interior, a região de Piracicaba lidera com 94 casos e 31 mortes. Na Baixada Santista foram 27 óbitos e 81 casos positivos. A região de Campinas teve 80 casos e 12 mortes. Instituições da região de Sorocaba somaram 31 casos e 11 óbitos, mas têm outras nove mortes em investigação. As regiões de Bauru, com 25 casos e dez óbitos, e São José do Rio Preto, com 57 casos e 10 óbitos, também tiveram alta disseminação.

Houve mortes pela covid-19 ainda em lares de idosos nas regiões de Araçatuba, Franca e Ribeirão Preto, e casos positivos em Presidente Prudente e Taubaté. A capital paulista tem mais da metade do número de funcionários de asilos contaminados. Foram 637. Na Grande São Paulo, 160 servidores contraíram o vírus. Na região de Santos, foram 72. No Interior, as maiores incidências de coronavírus entre funcionários de instituições aconteceram em Piracicaba (64), Rio Preto (51), Campinas (43), Ribeirão Preto (22) e Sorocaba (22).

Responsável pela fiscalização das instituições de atendimento às pessoas idosas, o Ministério Público adotou procedimentos para acompanhar as medidas de proteção a essa população, considerada mais vulnerável, desde o início da pandemia. Os casos de coronavírus são de notificação obrigatória pelos municípios aos órgãos da saúde, mas as prefeituras não têm a obrigação de discriminar quando se tratam de idosos abrigados. O acompanhamento dos casos permite aos promotores a proposição de medidas de proteção contra a doença.

Em Tabapuã, na região de Rio Preto, um surto de coronavírus em um asilo causou a morte de oito idosos e infectou outros vinte. Dez funcionários também pegaram a doença. A promotoria de justiça interveio para cobrar a retirada dos internos que passaram por testes e não apresentaram o vírus. Eles foram para a casa de familiares. Um grupo de idosos que não tinham vínculo familiar permanece isolado no interior da unidade. A direção do Lar Joana D’Arc, onde acontece o surto, informou que todos os protocolos foram seguidos desde o início da pandemia.

Em Piracicaba, o MPSP acompanha a situação de cinco asilos onde aconteceram 31 óbitos pelo coronavírus. No Lar dos Velhinhos, considerado a primeira cidade geriátrica do Brasil, com 400 idosos residentes ou abrigados, cinco novos óbitos aconteceram nos últimos dias e o número de mortes na instituição, devido à doença, subiu para 13. Outros 50 idosos e 30 funcionários foram infectados. Também já foram registradas mortes no Lar Betel (10), Lar Bem Viver (6), Gran Giardino (1) e Mundo Melhor (1).

Em Itu, um asilo foi interditado após terem sido registradas nove mortes. A prefeitura determinou a interdição depois da intervenção da promotoria local. O MP acompanhou também a situação de um asilo de Hortolândia, onde seis idosos morreram com a covid-19. Um asilo de Botucatu registrou quatro mortes. Em Ribeirão Preto, foram registradas cinco mortes no Lar Padre Euclides. O levantamento do MPSP não incluiu a região de Marília, onde aconteceram, em uma semana, três mortes de idosos com o coronavírus no Lar São Vicente de Paula.

Pode haver defasagem também nos números de Campinas. Conforme o Departamento de Vigilância em Saúde do município, desde o início da pandemia, 46 idosos morreram com a doença em 27 instituições de longa permanência da cidade, mais que o triplo dos óbitos registrados pelo MP. Os 547 moradores foram testados e outros 62 deram positivo. Entre os 243 funcionários, 24 contraíram o vírus. Segundo o Ministério Público, os dados são informados após a confirmação definitiva da causa da morte, o que pode ocasionar atraso.

Em Piracicaba, o idoso Osair Olívio Zangerolamo, de 65 anos, morador do Lar Betel, voltou a ser internado na última segunda-feira, 6, depois de ter conseguido superar o novo coronavírus. Ele havia sido internado no fim de abril no Hospital Regional de Piracicaba e recebeu alta no dia 8 de junho. No período de 40 dias, Osair teve duas paradas cardíacas, duas intubações e teve de passar por uma traqueostomia. Na saída, foi aplaudido pela equipe médica e funcionários. “Ele venceu uma dura batalha, mas ficou com sequelas e, em função delas, voltou a ser internado, mas não tem mais o vírus”, disse o dirigente do Betel, Luiz Adalberto dos Santos.

Para obter dados sobre o coronavírus em asilos, o Centro de Apoio das Promotorias do Idoso do MPSP mandou e-mail para todas as instituições do Estado pedindo para notificarem os casos suspeitos e confirmados. Os promotores recebem essas notificações e tomam as medidas necessárias.

O MPSP enviou para as entidades as normas técnicas definidas pelos órgãos de saúde em relação ao coronavírus e a população idosa. As normas incluem a suspensão das visitas, o protocolo de isolamento dos casos suspeitos e o encaminhamento dos casos confirmados à vigilância epidemiológica. As instituições foram orientadas para testar todos internos e funcionários, principalmente onde aconteceram casos da doença.

Plataforma de monitoramento

A Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo informou que desenvolveu uma plataforma digital de monitoramento dos casos de covid-19 nas instituições de longa permanência de idosos (ILPI), em parceria com a Fundação Pesquisas Econômicas (Fipe). “A plataforma inédita, que está em fase de implementação, é um espaço onde o gestor responsável pela ILPI informa semanalmente o número de novos casos entre os idosos acolhidos e funcionários, bem como o número de óbitos registrados”, disse.

Conforme a pasta, durante a pandemia, o governo de São Paulo já anunciou medidas específicas para os idosos residentes nessas instituições, como o ‘Vivaleite’ para atender cerca de 20 mil idosos que vivem em abrigos e vilas socioassistenciais do Estado, além do repasse de R$ 3 milhões para atender as despesas de custeio específicas durante a pandemia em mais de 500 instituições.

A pasta de Desenvolvimento Social informou que desconhece a metodologia do monitoramento feito pelo MPSP. No entanto, em parceria com o Instituto Butantan, reforçou a testagem para coronavírus nos abrigos institucionais de idosos, com mais de 6,6 mil aplicações de testes.

Outros países

Países da Europa mais afetados pelo novo coronavírus, como Itália, Espanha e França, tiveram as populações de casas de repouso praticamente dizimadas pela covid-19. No fim de abril, quase a metade das mortes pelo vírus nesses países tinham acontecido em asilos e instituições de longa permanência de idosos. Em Bérgamo, no norte da Itália, muitas residências de idosos ficaram praticamente desabitadas após a passagem do vírus. Na Espanha, militares encarregados de desinfetar as casas de repouso encontraram idosos abandonados, muitos deles mortos nas camas. Houve registros semelhantes em asilos franceses.

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