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Assintomáticos e Pré-Sintomáticos

Confusão deriva do uso indiscriminado do termo assintomático (que quer dizer sem sintoma)

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2020 | 16h05

Na confusão causada por Bolsonaro, que não entendeu ou preferiu manipular a afirmação da diretora da OMS Maria Van Kerkhove, o que realmente importa é o seguinte: É possível uma pessoa se contaminar com o SARS-CoV-2, através de um contato com alguém que não apresenta sintomas da doença? A resposta é um sonoro e inequívoco sim. É possível e muito comum. Mas então por que toda a confusão? Ela deriva do uso indiscriminado do termo assintomático (que quer dizer sem sintoma).

Entre os médicos esse termo descreve pessoas que se infectam com o vírus e se curam sem jamais apresentar qualquer sintoma. Elas não ficam com febre, não tossem, não se sentem cansadas e nunca sentem falta de ar. Mas você vai me perguntar, se elas nunca sentiram nada, como sabemos que elas foram infectadas? Pela simples razão que essas pessoas testam positivo para o vírus em exames de RT-PCR e também em testes sorológicos. Como essas pessoas não apresentam sintomas elas somente são descobertas quando se testa ao acaso indivíduos de uma população. Hoje sabemos que elas existem, mas ainda não sabemos ao certo qual a proporção delas na população. O grupo que faz o levantamento epidemiológico no município de São Paulo encontrou diversas dessas pessoas mas ainda não pode afirmar sua frequência na população da cidade.

Entre os médicos, essas pessoas não se confundem com maioria dos casos de pessoas infectadas com SARS-CoV-2, que apresentam sintomas, sofrem e depois se curam. Essas pessoas são chamadas de casos sintomáticos, pois apresentam sintomas durante o desenrolar da doença. Muito provavelmente a grande maioria das pessoas infectadas com o SARS-CoV-2 se encontram nesse grupo. Mas veja bem, todas essas pessoas sintomáticas, depois que são infectadas, passam por um período de incubação durante o qual não apresentam sintomas. Esse período que vai do dia da infecção ao aparecimento do primeiro sintoma dura em média 5,2 dias, mas pode ser mais curto durando 2 ou 3 dias ou pode se prolongar por até 14 dias. Após esse período de incubação os sintomas aparecem. Durante a incubação essas pessoas são chamadas de pré-sintomáticas pois ainda não desenvolveram sintomas. Claro que você só vai saber se uma pessoa infectada é assintomática ou sintomática ao longo do tempo. Não dá para saber nos primeiros dias de infecção.

Mas o que se sabe desde o início da pandemia é que pessoas no estado pré-sintomáticas, ainda antes do aparecimento dos sintomas, transmitem o vírus e infectam outras pessoas. E como essas pessoas ainda não apresentam sintomas, nem elas nem quem interage com elas sabe que o vírus pode estar passando de um pré-sintomático para uma pessoa saudável. É esse tipo de transmissão que leva pessoas a se contaminar a partir de pessoas sem sintomas.

A diretora da OMS estava se referindo à transmissão de vírus de um caso assintomático para outras pessoas e afirmou que aparentemente essas pessoas não transmitem facilmente o vírus. Ela não estava se referindo a uma pessoa pré-sintomática que sabemos que transmite o vírus.

O que sabemos, e foi minuciosamente descrito no trabalho científico abaixo, é que as pessoas pré-sintomáticas começam a transmitir o vírus 2 a 3 dias antes do aparecimento dos sintomas e que o dia em que é mais fácil essas pessoas transmitirem o vírus para outra pessoa é no dia anterior ao aparecimento dos sintomas. É exatamente por isso que é tão difícil conter a pandemia, mesmo que as pessoas se isolem no momento em que sentem os primeiros sintomas, elas já podem ter passado o vírus para outras pessoas durante os 2 ou 3 dias anteriores, muito antes de elas próprias saberem que estão infectadas. O período em que uma pessoa transmite o vírus para outra dura aproximadamente 10 a 14 dias, sendo que 2 ou 3 desses dias, aqueles em que a transmissão é mais fácil, ocorre antes do aparecimento dos sintomas, e os outros 7 a 11 dias ocorrem depois do aparecimento dos sintomas.

A transmissão de uma pessoa pré-sintomática para uma pessoa saudável é responsável por 44% dos novos casos da doença. Os outros 56% são casos em que a pessoa se contamina a partir de pessoas com sintomas. E esse fato nunca foi posto em dúvida pela OMS ou qualquer outra entidade científica. Bolsonaro, mais uma vez, usou uma informação errada para defender o fim do distanciamento social. Portanto lembre sempre, você pode sim contrair o vírus de uma pessoa sem sintomas. Tome cuidado.

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