Márcio Pinheiro/SESA
Márcio Pinheiro/SESA

Academias condenam uso indiscriminado da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a covid-19

Nota conjunta foi assinada pelos presidentes da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 17h48

RIO -  A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Academia Nacional de Medicina (ANM) divulgaram neste domingo, 12, uma nota conjunta na qual condenam o uso indiscriminado da cloroquina (CQ) e da hidroxicloroquina (HCQ) no tratamento da covid-19, sob a alegação de que ele “não esta apoiado em achados científicos robustos”. A nota ressalta ainda que efeitos colaterais significativos foram constatados como arritmia cardíaca, toxicidade hepática e problemas de visão.

Jair Bolsonaro é um dos maiores entusiastas do uso desses medicamentos no tratamento da covid-19. Ele já defendeu a adoção dessa terapia em cadeia nacional, ao mesmo tempo em que condenou as políticas de isolamento social adotadas pelos governos e prefeituras.

“Achamos que era importante fazer esta nota porque persistem algumas informações circulando sem evidência cientifica adequada e isso leva a uma confusão da população com sofrimento e expectativas irreais”, afirmou o presidente da ANM, Rubens Belfort, que assina a nota juntamente com o presidente da ABC, Luiz Davidovich. “É óbvio que todos nós gostaríamos muito que esses remédios fossem comprovadamente de sucesso. Porém, na fase atual, não existem informações muito fortes e a população enganada por isso pode deixar de dar prioridade ao mais importante neste momento que é o afastamento social e o uso de máscaras.”

No texto, os dois especialistas lembram que, a partir de algumas constatações in vitro, estão sendo desenvolvidos estudos clínicos com o objetivo de confirmar a eficácia do tratamento desses medicamentos na covid-19, mas que, até agora, nada de conclusivo foi encontrado.

“Alguns desses estudos, testando poucos pacientes, encontram-se publicados até este momento e são, portanto, preliminares”, ressalta a nota. “Os resultados desses estudos preliminares são controversos. Alguns estudos sugerem boa eficácia em alguns parâmetros clínicos (nenhum deles indica a melhora de sobrevida) e outros sugerem inclusive risco a saúde dos pacientes com covid-19 que usaram a medicaçao. Não há, portanto, qualquer evidencia comprovada clinicamente do benefício do uso da CQ ou HCQ e há relatos de efeitos colaterais potencialmente significativos.”

As academias de medicina e ciências lembram ainda que, além da necessidade de prova cientifica da eficácia clínica dos medicamentos no tratamento da covid-19, há outras questões importantes que seguem em aberto, como o esquema de tratamento e o período do ciclo da doença em que eles deveriam ser empregados.

“Assim, enquanto não estiverem disponíveis os resultados dos estudos clínicos que estão sendo conduzidos no mundo todo com esses dois medicamentos, testando número adequado de pacientes e de acordo com as melhores práticas científicas, seus usos no tratamento dos portadores da covid-19 devem ser restritos a recomendações de especialistas, com consentimento do paciente ou de sua família e cuidadoso acompanhamento médico”, sustenta a nota.

A nota lembra ainda que a experiência científica já demonstrou mais de uma vez que o uso precipitado de um medicamento baseado apenas em resultados preliminares, “pode trazer consequências graves e irreparáveis para a população”, além de impactar negativamente no avanço dos estudos de outros compostos eventualmente mais eficazes.

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