Igor do Vale / Estadão
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Ataque hacker e falha de comunicação dão margem à 'guerra política' das vacinas

Anvisa passa a ser alvo de questionamentos sobre interferência externa em suas decisões

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 12h30

BRASÍLIA - No foco da guerra política envolvendo a corrida por uma vacina contra o coronavírus, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a ser alvo de questionamentos sobre interferência externa em suas decisões. Isso porque mandou suspender estudos clínicos da vacina Coronavac no mesmo dia em que o governador de São Paulo, João Doria, anunciou a chegada do primeiro lote do imunizante no próximo dia 20.  O produto é desenvolvido pelos chineses em parceria com o Instituto Butantã.  Apesar de o presidente Jair Bolsonaro já ter aproveitado a decisão para atacar o adversário político, a cúpula da agência argumenta que não houve qualquer "ordem de cima" para a suspensão.

A medida foi tomada após o registro de evento adverso grave em um voluntário dos estudos. Fontes da agência reconhecem, no entanto, que houve ruído na comunicação com o Instituto Butantã. A rede do Ministério da Saúde e da Anvisa estava fora do ar, sob manutenção após um ataque hacker na semana passada, e a notificação do governo paulista sobre a morte de um voluntário só foi vista na segunda-feira, 9, três dias após o envio. 

O Butantã afirma que o voluntário não teve eventos graves relacionados à vacina. Já fontes da Anvisa alegam que a interrupção é normal e segue o rito deste tipo de estudo. Pelo rigor das pesquisas, é preciso conferir até mesmo se um voluntário atropelado, por exemplo, não estava com alguma alteração nos sentidos causados pela vacina, alegam técnicos da agência.

A comunicação da suspensão também foi alvo de reclamação pelo presidente do instituto. Dimas Covas afirmou que só soube da decisão pela imprensa. Representantes da Anvisa e do Butantã tiveram reunião nesta terça-feira, 10. Segundo fonte da agência, a conversa foi “esclarecedora”. Não há data, porém, para o retorno do estudo. Antes de decidir pela volta ou não dos ensaios, a agência pede parecer de um comitê de segurança internacional.   

Fontes da agência dizem que interrupções em estudos deste tamanho são comuns. Lembram que o mesmo foi feito com outras vacinas em desenvolvimento, como a de Oxford/AstraZeneca. Os técnicos da agência queixam-se que procedimentos deste tipo têm virado munição na guerra política entre governo federal e do Estado de São Paulo.

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