Reprodução/YouTube
Reprodução/YouTube

Prefeitura estima que SP tem 1,16 milhão de infectados; mortalidade é 3 vezes maior na periferia

Resultado da primeira testagem em massa da capital, parte de inquérito sorológico, vê infecção maior da população da zona leste e contaminação de 9,5% da população

Bruno Ribeiro e Marina Aragão, O Estado de S. Paulo

23 de junho de 2020 | 12h35
Atualizado 23 de junho de 2020 | 18h38

Os primeiros resultados de um inquérito sorológico realizado pela Prefeitura de São Paulo sobre o coronavírus indicou que 9,5% de toda a população, ou 1,16 milhão de pessoas, foram expostos à doença. Segundo a Prefeitura, é uma taxa maior que de outros países que fizeram inquéritos parecidos, como França e Espanha. Oficialmente, até aqui, a cidade tinha 118 mil casos confirmados da doença. 

Dessa forma, segundo o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, a taxa de mortalidade da doença na cidade é de cerca de 0,5 morte para cada mil infectados. "Sem a taxa de prevalência, a taxa de letalidade na cidade de São Paulo era de 26 casos para mil infectados. O inquérito sorológico nos apresenta o real cenário da letalidade. A taxa de letalidade é de 0,5%, cinco pessoas a cada 1 mil infectados", afirmou.

O levantamento é uma pesquisa feita com 5.446 indivíduos, que foram testados pela Prefeitura após terem sido escolhidos por sorteio, de forma a contemplar todas as regiões na cidade. Divididas por região, essa taxa de infecção varia. Na zona leste, a doença já chegou a 12,5% dos moradores. Na zona sul, a 7,5% da população. 

Mortalidade é três vezes maior nos bairros da periferia

A Prefeitura também apresentou um mapa sobre a mortalidade da doença feita de acordo com a população de cada um dos 96 distritos da cidade. A imagem mostra que a letalidade da doença é maior nos bairros da periferia.

Há oito bairros onde a taxa é acima de 120 mortes para cada 100 mil habitantes: Iguatemi, Guaianases, Lajeado e Jardim Helena (os bairros da fronteira leste da cidade), Brasilância e Cachoeirinha, da zona norte, e a , no centro. Fechando a lista, há o Brás, também da região central, que é o líder de casos. Ali, a taxa de mortes para cada 100 mil habitantes é superior a 140 casos.

Por outro lado, há cinco bairros da cidade em que essa taxa é de até 40 mortes para cada 100 mil habitantes, todos regiões onde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é muito elevado: PerdizesPinheiros, na zona oeste, Moema e Jardim Paulista, na zona sul, e Bela Vista, no centro.

"Tínhamos uma interpretação distorcida da realidade de óbitos do município", disse o secretário, ao explicar que Sapopemba (zona leste), Brasilândia e Grajaú (zona sul) eram os bairros que mais vinham obtendo atenção da Prefeitura, pelo número de mortos, enquanto havia outros bairros que, proporcionalmente, estavam em situação mais grave.

Aparecido não fez análises sobre a diferença entre os bairros desenvolvidos do centro e as regiões carentes da periferia. Afirmou, por outro lado, que o inquérito "vai nos permitir identificar em cada distrito da cidade quais foram as comorbidades que se associaram à covid, qual realidade específica de cada um desses diretórios, em que a nossa atenção básica de saúde vai ter que se debruçar e fazer a partir desse momento."

A pesquisa faz parte do processo de reabertura comercial da cidade, que vem sendo realizada pela gestão Bruno Covas (PSDB) em parceria com o governo João Doria (PSDB). “A estratégia desenvolvida até agora apresentou resultados bastante importantes”, disse Aparecido, ao destacar que, até o momento, não houve pacientes que morreram sem conseguir atendimento médico. 

Em 29 de junho, outras 5.446 pessoas serão testadas em uma nova etapa do inquérito, para avaliar a evolução da doença. O exame feito foi o imunocronomatográfico IgM/IgG - WONDFO, que detecta se o avaliado já teve contato com o vírus, por meio da presença de anticorpos para o coronavírus no sangue, segundo a Prefeitura.

A relação entre condições sociais e mortalidade do coronavírus já havia sido apontada por pesquisas independentes. O Observatório da Covid-19 BR, que reúne mais de 60 pesquisadores de universidades brasileiras, divulgou no último dia 5 uma análise feita com base em dados da própria Prefeitura mostrando como fatores como raça, renda e densidade domiciliar impactavam na mortalidade do paciente.

No caso da raça, "na população de pessoas com 60 anos ou mais as desigualdades são bem evidentes. Pretos (risco de óbito 57% maior) e pardos (risco de óbito 37% maior) apresentam maior mortalidade por COVID-19 do que os brancos", diz o documento. Ainda considerando a população com mais de 60 anos, "a mortalidade por covid-19 também é maior nos bairros com maior número de moradores por domicílio, sendo 62% maior entre os residentes em distritos com maior densidade domiciliar (Belém, Brasilândia, Cachoeirinha, Cidade Dutra, Grajaú, Iguatemi, Itaim Paulista, Itaquera, Jaçanã, Jaraguá, Jardim Helena, Lajeado, Marsilac, Parelheiros, Perus, São Miguel, São Rafael e Tremembé), comparado ao grupo de distritos onde a média de moradores por domicílio é menor que 2,71", afirma a análise.

O médico Paulo Lotufo, doutor em Saúde Pública e professor da USP, destaca que há dois fatores que contribuem para a mortalidade da doença. A incidência e a letalidade. "A incidência é muito decorrente das questões ambientais: se a pessoa está conseguindo fazer isolamento", diz o médico, ao pontuar que, na periferia, há mais pessoas vivendo em casas com mais gente e necessidade de passar mais tempo no transporte público. 

No caso da letalidade, segundo Lotufo, ela está relacionada à qualidade do atendimento médico recebido por quem procura ajuda. "A pessoa que está em uma região mais pobre, com certeza vai ter uma incidência maior e uma dificuldade maior em ter atendimento médico", afirma.

O profissional destaca, entretanto, que a pesquisa apresentada pela Prefeitura tem efeito de chamar a atenção para o avanço da doença, mas ele diz que a cidade deveria estar fazendo testes para rastrear as pessoas que de fato estão transmitindo a covid-19 e monitorá-las, de forma a conter a propagação da doença. "O que você precisa fazer agora é conseguir fazer a detecção do vírus."

Procura por serviços está em queda, diz Prefeitura

Na apresentação, a Prefeitura disse ainda que a procura aos serviços de saúde por pacientes doentes está em um ritmo menor. Em 21 de maio, segundo os dados da entrevista coletiva, havia 52 pedidos feitos a cada dia por leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Atualmente, essa taxa é de 14 pedidos por dia, o que indica, na avaliação de Aparecido, que a doença está desacelerando. Neste momento, há 246 mil pessoas com sintomas da doença que estão sendo monitoradas pela Prefeitura. Os 118 mil casos confirmados estão dentro deste grupo.  

"Um dos momentos mais importantes da pandemia foi quando, há uns 60 dias, nós mudamos o protocolo e as pessoas que a atenção básica (os postos de saúde) identificava com sintomas leves e moderados no território, nas áreas das unidades de saúde, nós passamos imediatamente a monitorar e internar essas pessoas, a colocar essas pessoas para tratamento nos hospitais de campanha", afirmou o secretário. Dessa forma, conseguiram evitar o agravamento de pacientes que poderiam piorar e precisar de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), de acordo com Aparecido. 

"Os números, as taxas e os cenários estão sendo monitorados diariamente pela secretaria", complementou. "Mesmo com a abertura que nós tivemos há 15 dias da economia, há estabilidade de novos casos aqui no município", afirmou. "Agora, qualquer alteração que venha a ocorrer, não há a menor sombra de dúvida que possam ser retomadas (ações de fechamento do comércio)", continuou o secretário, ao ser questionado se, diante da reabertura, poderia haver uma segunda onda de disparada nos novos casos. "Já tivemos várias medidas adotadas pelo prefeito na cidade que a gente avançou quando podia avançar e recuou quando tinha de recuar."

Aparecido disse ainda que, por ora, não há decisão sobre suspender as atividades do Hospital Municipal de Campanha do Pacaembu, na zona oeste, o primeiro a ser aberto e que se destina a receber pacientes transferidos para enfermarias após saírem de UTIs. O contrato com a organização social do Hospital Albert Einstein para o gerenciamento do espaço termina no dia 30. O secretário estadual da Saúde, José Henrique Germann, havia dito nesta manhã, em um seminário virtual, que o hospital seria fechado.  


  

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.