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Atenção nutricional vira estratégia na recuperação das sequelas pós-covid

Pioneiro em Santa Catarina, ambulatório da UFSC presta atendimento gratuito a pacientes que sobreviveram à infecção do novo coronavírus

Leon Ferrari, especial para o Estadão

22 de julho de 2021 | 10h00

Mesmo quando já não têm mais o vírus no corpo, pacientes que passaram pela covid-19 relatam uma série de sequelas, que vão desde perda de olfato até dificuldades em deglutir alimentos. Nutricionistas afirmam que uma alimentação saudável e adequada pode ajudar no alívio e recuperação desses problemas. Núcleos dedicados a esse acompanhamento têm surgido pelo Brasil. 

"Não há um nutriente ou um tipo de alimento que vá tratar os sintomas, mas sabemos que com uma dieta adequada, junto aos tratamentos necessários, os pacientes têm melhores respostas", explica Luciana da Conceição, mestre e doutora em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que, junto a Júlia Dubois, coordena o Ambulatório de atenção nutricional para paciente pós-Covid-19.

Sônia Alscher, professora de Nutrição da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), concorda e acrescenta que a doença é capaz de alterar o estado nutricional de quem a contrai. "A falta de apetite, de paladar e de olfato levam à baixa ingestão alimentar, o que afeta o estado nutricional", avalia. 

A especialista destaca a importância de discutir atendimentos individualizados, mas acredita que manter a microbiota saudável é uma medida que todos podem tomar. Para isso, indica, por exemplo, consumir mais alimentos fibrosos, como frutas, e reduzir os industrializados. Além disso, acrescenta que "as pessoas devem conhecer como está a sua dosagem sanguínea de vitamina D, e mantê-la normal", o que pode ser feito ao consultar um médico ou nutricionista. 

Para as profissionais, pacientes que desenvolvem quadros mais graves da doença sofrem mais prejuízos nutricionais. "O tempo de internação prolongado em UTI, em ventilação mecânica invasiva, pode levar a dificuldades de deglutição devido à intubação", exemplifica Sônia. 

Luciana afirma ainda que, como as internações por covid-19 podem ser longas, o indivíduo pode apresentar perda acentuada de massa muscular e, por conta disso, apresentar uma redução de suas funcionalidades. "Junto a isso, há o estresse próprio da UTI de longa permanência, que vai trazer um impacto muito grande para o paciente", avalia.

Conforme o estudo italiano Nutritional management of covid-19 patients in a rehabilitation unit, a desnutrição por causa de infecções agudas da covid-19 parece ser uma sequela recorrente. Os pesquisadores italianos destacaram que, de acordo com os parâmetros do Malnutrition Universal Screen Tool (MUST), dentre os pacientes acompanhados, 45% tinham alto risco de desnutrição, outros 26%, risco moderado.

A pesquisa publicada na revista científica European Journal of Clinical Nutrition (EJCN), em maio de 2020, mostrou também que 90% dos 50 pacientes que passaram pela Unidade de Reabilitação da Covid-19 do Instituto Científico San Raffaele, em Milão, entre março e maio de 2020, apresentaram algum grau de disfagia - dificuldade de deglutição. Por conta disso, necessitaram de uma dieta modificada durante a recuperação da doença.  

Nesse sentido, as profissionais brasileiras acreditam que a ingestão de determinados nutrientes ou a suplementação pode fazer com que o paciente recupere suas funcionalidades de forma mais rápida e eficiente. Elas destacam, no entanto, que a atenção nutricional não deve substituir outros tratamentos pós-covid-19, mas sim aprimorar o atendimento multidisciplinar. 

"Quando se pensa na alimentação, se pena na questão do paladar. Mas a nossa função, como nutricionistas, é maior", afirma Júlia, mestre e doutora em Bioquímica pela UFRGS. Para além de encontrar a dieta ideal, por exemplo, as profissionais destacam a necessidade de encontrar estratégias para que o paciente consiga manter a alimentação durante o período. 

Preparações rápidas são mais indicadas, a fim de que o paciente direcione mais esforços à recuperação. "As pessoas só pensam no comer, mas existe toda uma preparação e uma movimentação prévia para você sentar e comer. Precisamos pensar nisso também, porque ele tem dor, tem fadiga, porque ele esquece", destaca Júlia.  

Pioneiro em SC, ambulatório atende nutricionalmente pacientes com sequelas 

Pensando nisso, Júlia e Luciana criaram o Ambulatório de atenção nutricional para paciente pós-covid-19, um projeto de extensão vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que oferece assistência nutricional a pessoas que convivem com sequelas do vírus. Para ter acesso ao serviço gratuito, remoto e pioneiro no Estado, o paciente deve ter mais de 18 anos e ter sido internado na rede hospitalar pública ou privada da Grande Florianópolis por conta da doença. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail nutricovidufsc@gmail.com ou pelo WhatsApp (48) 9 9998-6257.

Mauri Sérgio de Souza, morador de Florianópolis, é um dos pacientes do ambulatório. O gerente comercial, de 53 anos, precisou ficar hospitalizado cerca de 30 dias por causa da covid - 18 deles passou intubado. Durante o período, perdeu aproximadamente 10 kg.

Com a perda de massa muscular, relata ter ficado debilitado e mais fraco. "Eu não conseguia nem mesmo levantar um garfo", conta o gerente comercial. A alta hospitalar, então, significou apenas a volta para casa, pois o processo de recuperação segue até hoje.

Em um primeiro momento, Souza buscou acompanhamento de fisioterapeutas e psicólogos. Em junho, passou a contar com o atendimento também das profissionais do ambulatório da UFSC. Orientado pelos profissionais, conta ter passado a consumir mais frutas e verduras, bem como tomado mais água. As mudanças alimentares, na opinião dele, permitiram aliviar os sintomas de fadiga. "Faz pouco tempo, mas já tenho me sentido mais disposto", afirma. 

Síndrome pós-covid-19

Com quase um ano e meio de pandemia, já foram criados, no âmbito científico, termos como covid-19 pós-aguda ou covid-19 crônica. Profissionais da área da saúde já desenvolvem protocolos de recuperação a pacientes com sequelas.  

"A síndrome pós-covid é sistêmica. Significa que ela atinge muitos órgãos e cada pessoa vai ter um impacto diferente em órgãos diferentes", explica Júlia. Conforme o artigo Post-acute covid-19 syndrome, publicado em março na revista científica Nature, os quadros pós-covid são similares "às síndromes virais pós-agudas descritas em sobreviventes de outras epidemias de coronavírus virulentos".

No estudo Sixty-Day outcomes among patients hospitalized with covid-19, publicado na edição de novembro de 2020 do jornal American College of Physicians, pesquisadores americanos acompanharam 1.250 pacientes que receberam alta da covid de 38 hospitais em Michigan. Durante os 60 dias de análise, 6,7% deles morreram, outros 15,1% necessitaram ser internados novamente. 

Dos 488 pacientes que completaram a pesquisa, 32,6% relataram sintomas persistentes. A falta de ar ao subir escadas foi uma reclamação comum a 22,9%. Outros 15,4% relataram tosse e 13,1%, perda persistente do paladar e olfato. 

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