REUTERS/Bruno Kelly
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Atendimento a pacientes com covid-19 em Belém cai 79% em hospital para tratamento da doença

Redução considera o número de atendimentos entre os dias 1° e 14 dos meses de maio e junho; ministérios e Defensorias Públicos temem nova onda do vírus

Roberta Paraense, especial para O Estado

16 de junho de 2020 | 18h26

BELÉM - Os números de casos de infectados e de óbitos provocados pelo novo coronavírus no Pará continuam em crescimento, mas sem saltos. Um indicativo de que a pandemia começa a dar passos curtos no território paraense, sobretudo na capital Belém, é a baixa na procura de atendimentos nas unidades de saúde. Em abril e maio, pacientes chegaram a fazer filas para entrar em hospitais públicos e privados. Já no mês de junho, a procura passou a ser tímida.

Aberto exclusivamente ao tratamento da doença no dia 30 abril, o Hospital Regional Dr. Abelardo Santos (HRAS), em Icoaraci, distrito de Belém, foi protagonista de muitas cenas dramáticas durante o pico da pandemia. Filas à porta, tumulto, gritaria e brigas marcaram o dia em que anunciaram que o local seria transformado num pronto-socorro aos infectados pelo novo coronavírus. Dezenas de pessoas, desesperadas, se dirigiram à unidade e tentaram entrar à força, derrubando o portão central. A polícia foi acionada. Atualmente, o movimento em frente ao hospital é tranquilo e sequer lembra a confusão do último mês, na corrida por atendimento.

Do dia 1° a 14 de junho, o hospital registrou 3.905 atendimentos —  uma média de 278 pacientes sendo recebidos por dia no pronto-socorro e ambulatório. O número representa uma queda de 79% em relação ao mesmo período do mês anterior. Entre os dias 1º e 14 de maio, foram registrados 18.975 atendimentos, ou 1.355 diários. Desde que passou a atender as pessoas com sintomas de covid-19, a unidade acolheu, até esta terça-feira, 16, 34.355 pacientes. 

Segundo um recorte da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa), no último domingo, 14, foram feitos 169 atendimentos no pronto-socorro e ambulatório, o menor número já registrado. Durante a primeira quinzena do mês de maio, cerca de mil pessoas, em média, eram atendidas por dia. O dia 8 de maio registrou o número mais alto: 1.639.

O diretor técnico do hospital Abelardo Santos, Milton Bonny, explica as dificuldades atravessadas pela administração no início do atendimento a pacientes com sintomas do novo coronavírus. “O hospital era de referência a várias doenças de alta complexidade no Estado. Ele foi transformado em portas abertas à covid-19, no momento em que a doença estava se espalhando por Belém, e as outras unidades de saúde da capital estavam cheias. A procura de pacientes foi imediata. Não estávamos acostumados a receber demanda tão alta, o início foi difícil, os processos eram novos”, lembra.

A unidade hospitalar é uma referência no Brasil no tratamento da doença, devido à estrutura que permite o atendimento a pacientes com casos leves e graves. “Temos um ambulatório, o pronto-socorro, distribuímos um coquetel de medicamentos, com corticoides, azitromicina e cloroquina. Além disso, os pacientes que evoluem à uma situação mais delicada, são colocados nas nossas Unidade de Terapia Intensiva (UTIs), com 101 leitos”, explicou Bonny.

Possível nova onda

O diretor técnico também avalia números de atendimento decrescentes, porém alerta a população de uma possível segunda onda. “Não se sabe se o resultado positivo foi devido a darmos a medicação e o atendimento logo no início, ou se foi pelas medidas restritivas de lockdown aplicada pelo governo, que manteve o distanciamento das pessoas. Ou se foi a soma dos fatores. Hoje, estamos com uma situação controlada. O que não significa que as pessoas podem relaxar nas medidas de distanciamento e higiene. É preciso a conscientização da sociedade, para que não tenhamos um novo pico”, orientou Bonny.

Até a última atualização do boletim epidemiológico, desta segunda-feira, 15, o Pará tinha batido a marca de 71.243 casos de covid-19 confirmados e 4.291 óbitos causados pela doença. No entanto, 58.844 se recuperaram. 

Uma delas foi a lavradora Deuzenira Reis dos Santos, de 46 anos. Durante 10 dias, ela ficou internada na UTI do hospital Abelardo Santos. Hoje, em casa, comemora a recuperação. “Quando eu cheguei ao hospital já estava inconsciente. Meu estado de saúde era grave. Acordei três dias depois de que eu já estava internada. Fiquei até assustada, pois não estava entendendo nada do que se passava naquele momento", lembrou. "Entrei lá quando a doença estava bem agravada no Pará. Havia muitas pessoas, mas todas medicadas e sendo atendidas. Hoje estou bem, em casa, me recuperando aos poucos, porque a doença deixou algumas sequelas, como um pouco de indisposição”, disse.

A lavradora mora no município de Santa Luzia do Pará, na região nordeste do Estado, a 200 quilômetros da Capital. Após a procura por atendimento de saúde na sua localidade, ela foi encaminhada para o município vizinho, Capanema, com uma infraestrutura maior, mas também não encontrou tratamento específico no local. Foi levada a Belém no dia 18 de maio, e passou diretamente para a UTI do Abelardo Santos, de onde saiu debaixo de comemoração de parentes, amigos e pelos profissionais de saúde que a acompanharam.

Desde o início da pandemia, o Abelardo Santos já era um dos hospitais referenciados para internação de casos graves de covid-19. Para apoiar a rede municipal, passou a atender de portas abertas, ou seja, o paciente pode ir direto ao local em busca de ajuda médica, sem precisar de encaminhamento. O pronto-socorro do HRAS tem 319 leitos. A equipe médica do hospital também orienta sobre a importância do uso de máscaras, cedendo gratuitamente o material de proteção aos usuários do serviço.

Com a demanda de atendimento caindo, o cenário do hospital Abelardo Santos vem mudando. No dia 25 de maio, o Estadão publicou o relato do contador George Gonçalves, de 38 anos. Em 22 horas, ele viu o seu pai, o aposentado Pedro Damasceno, de 67, definhar até a morte no local. George contou à reportagem que em uma única tarde viu cinco pessoas morrerem no corredor, ao seu lado. 

Reabertura do comércio

No dia 1º de junho, o Pará começou a dar passos mais largos nas medidas restritivas de distanciamento social, com flexibilização de reabertura dos setores econômicos. Atualmente, shoppings, barbearias, salões de beleza, comércio de rua, igrejas, escritórios e repartições públicas já estão abertos. As medidas foram anunciadas pelo Governo do Estado, em consonância aos índices mais baixos de infectados e à liberação de leitos de UTI. Em Belém, a taxa de ocupação atual é de 64,69%.

O Estado, que foi um dos primeiros a adotar o lockdown, atualmente vive numa normalidade. No último fim de semana, por exemplo, a Praça Batista Campos, uma das principais de Belém, estava cheia. Crianças, adultos e idosos passeavam e praticama atividades físicas. Alguns deles, porém, sem o uso de máscaras, que é obrigatório no Estado. 

Órgãos pedem retomada de lockdown

O Pará ocupou a 18ª posição no ranking nacional de isolamento social, na última segunda-feira, 15, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social.  Após a flexibilização do isolamento em algumas cidades, incluindo a Capital, o Estado vem oscilando nas posições. No último domingo, 14, despencou para o 21° lugar no ranking, apesar da alta taxa de 47,02% de pessoas em casa. Na segunda-feira,15, subiu, mas logo caiu e registrou 38,43%.

Temendo uma nova onda da doença, os Ministérios Públicos Federal, Estadual e do Trabalho já recorreram à Justiça com pedidos da volta das medidas mais restritivas. No entanto, nenhum juiz concedeu as liminares. Os órgãos fiscalizadores acreditam que as medidas de flexibilização são precoces e temem uma segunda onda da doença, sobretudo em Belém, por onde o pico já passou.

O último pedido foi na sexta-feira, 12. Os Ministérios e as Defensorias Públicas do Estado e da União cobram melhorias na divulgação de casos e mortes por covid-19 no Pará. A recomendação foi conjunta e enviada à Secretária de Saúde.

Na segunda-feira, 15, os representantes das entidades se pronunciaram afirmando que o novo formato do boletim divulgado pelo governo estadual não atende à recomendação, visto que as principais cobranças não foram acatadas.

Em nota, a Procuradoria-Geral do Pará (PGE) informou que, desde a última sexta-feira, 12, a Secretaria de Saúde fez alterações no formato de divulgação dos dados sobre a covid-19 no Pará. Dentre elas está a organização dos números por região, atendendo a solicitações anteriores dos Ministérios Públicos e Defensorias. Sobre as novas recomendações, a PGE informa que foi notificada e que o Estado já constrói um modelo que atenda às observações.

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