Jalal Morchidi/EFE/EPA
Jalal Morchidi/EFE/EPA

Atraso em notificações faz números da covid-19 caírem aos domingos e segundas

Diferença, segundo técnicos da pasta, se dá pelo regime de plantão nos centros de saúde e em laboratórios, o que atrasa o repasse das informações

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 13h37

BRASÍLIA - Os registros de contaminações e de mortes pelo novo coronavírus despencam em fins de semana e feriados, o que, segundo especialistas, prejudica análises sobre tendências das curvas de contágio. Dados do Ministério da Saúde apontam que os domingos e as segundas-feiras são os dias com menos notificações de novas vítimas da covid-19. A diferença, segundo técnicos da pasta, se dá pelo regime de plantão nos centros de saúde e em laboratórios, o que atrasa o repasse das informações.

No início da semana passada, o presidente Jair Bolsonaro chegou a comemorar o que classificou como “sinal de que o pior já passou”, ao se basear em uma sequência de seis dias com quedas sucessivas no total de mortes. Terminou a semana, porém, diante de recordes sucessivos de contagem de corpos provocadas pela doença que ele já classificou como “gripezinha”.

Ao lançar a projeção, na terça-feira, 5 de maio, antes de os números daquele dia serem divulgados pelo Ministério da Saúde, o presidente não considerou o feriado da sexta-feira anterior, o final de semana e a segunda-feira. As estatísticas mostram que as notificações, sempre referentes ao constatado nas 24 horas anteriores, costumam ser menores nesses dias. Elas ficam represadas e crescem no decorrer da semana.

"É um sinal de que o pior já passou. Peço a Deus para que isso seja verdade e vamos voltar à normalidade", declarou o presidente, em frente ao Palácio da Alvorada. Minutos depois, o Ministério da Saúde anunciaria um somatório de óbitos até então não registrado no País em um único dia: 600 mortes causadas pelo novo vírus.

Nos dois dias seguintes, o Brasil voltaria a contabilizar, de um dia para o outro, ao menos seis centenas de pessoas mortas por covid-19 e, na sexta-feira, 8, alcançaria a marca de 751 mortes reconhecidas. Em seguida, confirmando a tendência de diminuição em fins de semana, foram 396, na segunda-feira, 11. No dia seguinte, o recorde até agora: 881 mortos.

Desde que o primeiro caso de infecção foi confirmado no País, em 26 de fevereiro, uma quarta-feira, o País registra aos domingos, em média, 1.826 novos casos de contaminação. É o menor quantitativo entre todos os dias da semana. As segundas-feiras têm, em média, 1.972 novos registros. A maior média é das quartas-feiras, com 3.135 casos.

Desde o dia em que a primeira morte foi conhecida, em 17 de março, uma terça-feira, as médias de novos óbitos reportadas por dia da semana também são menores aos domingos (160) e às segundas (168). A maior média é do dia seguinte, terça-feira (263).

Em números absolutos, dentro das 13.149 mortes confirmadas como decorrentes do novo coronavírus, o comportamento dos registros é semelhante. As notificações feitas aos domingos e às segundas-feiras foram em menor volume, 1.283 e 1.347, respectivamente. Com as 881 mortes anunciadas na última terça, esse é dia da semana em que mais mortes foram apresentadas: 2.494. Em quartas-feiras, quando houve o segundo maior registro até o momento, já foram reportadas 2.368 mortes pelo Ministério da Saúde.

Os óbitos comunicados diariamente pelo ministério não ocorreram nas últimas 24 horas. Podem ter ocorrido há vários dias ou mesmo semanas, apenas foram, nesse período, confirmados como causados pelo novo coronavírus. A característica é um dos motivos da subnotificação de casos.

A oscilação também é observada em feriados. Nesses períodos, o número de mortes se estabiliza ou cai, antes de registrar aumento significativo em dias posteriores. No último dia 2 de maio, por exemplo, dia seguinte ao feriado de 1º de maio, houve 395 confirmadas, contra 428 no dia anterior. Já no dia 3, um domingo, 301. O total também se manteve baixo no dia seguinte, com 296, até a explosão, na terça da semana passada, com as 600 mortes.

Pesquisador do Instituto de Redução de Riscos e Desastres e do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Jones Albuquerque faz análises diárias sobre o comportamento dos casos de covid-19 com base nos dados divulgados pelo governo local. Ele observa que a oscilação nos relatórios existe não apenas no Brasil, mas também em diversos países que lidam com a nova doença.

Entre os motivos que aponta para as variações, além dos regimes de plantão nos centros médicos, está a oscilação nos estoques de itens necessários para os exames. “Os laboratórios privados que estão ajudando o Estado entram em recesso. E na última semana tivemos uma ‘baixa’ nos insumos no País, então muitos laboratórios literalmente pararam no feriadão”, comentou.

A característica, segundo ele, prejudica um mapeamento preciso das tendências das curvas de alastramento. “É por isso que as curvas são tão ‘inconstantes’, mundialmente inclusive, dificultando toda e qualquer projeção sobre os dados”, frisou.

Em entrevistas coletivas, o Ministério da Saúde já reconheceu que a rotina de alguns dias da semana em centros médicos envolvidos com o diagnóstico da covid-19 sofrem alteração no ritmo de testes.

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