Myke Sena/MINISTÉRIO DA SAÚDE - 17/12/2021
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Audiência sobre vacinação de crianças tem médicos ligados a notícias falsas; Anvisa não comparece

Evento organizado pelo Ministério da Saúde ocorre nesta terça-feira e conta com fala de profissionais que já espalharam informações falsas sobre a doença e a vacina. Decisão da pasta é esperada para esta quarta-feira

Julia Affonso, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2022 | 12h28
Atualizado 04 de janeiro de 2022 | 16h29

BRASÍLIA - Em audiência pública de cerca de 4h30 sobre a vacinação de crianças contra a covid-19, o Ministério da Saúde,  ouviu nesta terça-feira, 4, representantes de entidades científicas e também médicos contrários à vacina pediátrica e que já espalharam informações falsas sobre a doença. O evento não teve a participação de representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que autorizou a aplicação do imunizante no mês passado. 

A agência foi convidada, mas decidiu não participar porque avaliou que já havia se manifestado oficialmente. Segundo o Ministério da Saúde, a Anvisa encaminhou um e-mail à pasta, informando que seu parecer sobre a aplicação do imunizante em crianças é público. "A Anvisa, por seu caráter técnico, visualiza que sua participação na audiência pública não agregaria novos elementos à temática", informou a agência no documento enviado à Saúde.

"A aprovação da Anvisa veio após uma análise técnica criteriosa de dados e estudos clínicos conduzidos pelo laboratório Pfizer, no qual se atestou que a vacina é segura e eficaz para o público infantil. Para a avaliação da ampliação da faixa etária dessa vacina, a Agência contou com a consulta e o acompanhamento de um grupo de especialistas em pediatria e imunologia que teve acesso aos dados dos estudos e resultados apresentados pelo laboratório."

A audiência faz parte de um pacote de consultas anunciado pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para deliberação sobre a aplicação da vacina em crianças de 5 a 11 anos. Apesar da liberação pela Anvisa, da chancela de especialistas e da experiência internacional, o governo Jair Bolsonaro é contrário à vacinação dessa faixa etária e tenta criar mecanismos para dificultar a aplicação, como a necessidade de apresentação de uma prescrição médica. 

Durante a audiência, representantes de entidades médicas e de sociedades científicas apoiaram a vacinação de crianças de 5 a 11 anos e ressaltaram a segurança e a eficácia do imunizante, mostrando dados e estudos. Os especialistas citaram as consequências de não vacinar esta faixa etária, como hospitalizações, mortes, sequelas e absenteísmo escolar e dos pais no trabalho.

A diretora-médica do laboratório, Marjori Dulcine, enfatizou que "a coisa mais importante para esclarecer neste momento é que a vacina não é experimental". "Ela já foi aprovada pela Anvisa", ressaltou.

Renato Kfouri, representante da Associação Médica Brasileira (AMB), chamou atenção para a importância de não se aderir a "teorias da conspiração". "Eu quero tranquilizar as famílias, os pais que estão aqui. Se a gente acreditar em teorias conspiratórias, que os órgãos internacionais querem matar nossas crianças, agem de má fé, querem colocar em risco a vida dos nossos filhos, fica realmente uma discussão muito desqualificada em termos de nível de entendimento."

Os termos em que a aplicação ocorrerá a partir da segunda quinzena de janeiro deverá ser divulgado pelo ministério nesta quarta-feira, 5. Nesta terça-feira, a pasta realiza a audiência pública que supostamente ajudará a embasar as previsões técnicas de aplicação da vacina. Os três médicos pró-cloroquina são indicações da deputada Bia Kicis (PSL-DF), aliada do presidente Bolsonaro. O grupo também é contrário à exigência do passaporte da vacinação. 

Em transmissão ao vivo em sua rede social no começo da audiência, Bia Kicis relatou ter convidado os médicos Roberto Zeballos, José Augusto Nasser e Roberta Lacerda, contrários à imunização de crianças, para falar no encontro. 

Em agosto, o Projeto Comprova mostrou que Zeballos fez diversas afirmações incorretas sobre a covid-19 em vídeo no Instagram. Hoje, ele tem mais de 390 mil seguidores. Na ocasião, o médico minimizou a importância da variante Delta ao escrever que ela era "pouco agressiva".

Zeballos também errou ao dizer que as vacinas disponíveis até aquele momento não funcionavam contra a Delta. É verdade que os imunizantes foram desenvolvidos quando a variante ainda não circulava, mas eles são, sim, eficazes contra a variante, segundo especialistas. 

Procurado, Zeballos afirmou na época ter sido “o primeiro brasileiro a entender o mecanismo da doença” e declarou que “não tem sentido você vacinar com uma vacina que não é livre de riscos – todo mundo sabe disso – nas pessoas que já tiveram a doença”, mas, completou que “talvez as pessoas tenham o benefício de ter uma doença mais leve”. O Comprova considerou a publicação do médico enganosa porque ele usa dados incorretos ou imprecisos sobre a variante Delta e sobre a vacinação.

Zeballos falou na audiência pública desta terça por cerca de dez minutos e repetiu a versão de que a vacina "gerou uma resposta imunológica de 95%" para a "cepa anterior" que não está mais circulando. Referiu-se ao imunizante contra a covid como  "vacina emergencial", ignorando o fato de que a Pfizer tem o registro definitivo das doses contra a doença. O médico pediu ainda respeito à "ciência da observação".

Em outra checagem, o Projeto Comprova também apontou que a médica Roberta Lacerda tirou dados de hospital israelense de contexto ao acusar o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos de mentir sobre infecções em não vacinados. A postagem circulou em agosto do ano passado. O Comprova classificou o conteúdo como enganoso porque ele retira informações de contexto e as utiliza de modo a confundir.

Prescrição médica é inviável, diz representante de secretarias

No início da audiência, a secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, Rosana Leite de Melo, afirmou que a maioria das pessoas que participaram da consulta pública sobre vacinação de crianças é contrária à obrigatoriedade de prescrição médica para a imunização, o que vinha sendo defendido pela gestão Bolsonaro. A consulta, cujo formato de realização foi criticado por especialistas e apresentou falhas durante sua execução, também mostrou a maior parte dos participantes contrária à compulsoriedade da vacinação nesse público.

"Tivemos 99.309 pessoas que participaram neste curto intervalo de tempo cujo documento esteve para consulta pública. Sendo que a maioria se mostrou concordante com a não compulsoriedade da vacinação e a priorização das crianças com comorbidades. A maioria foi contra a obrigatoriedade de prescrição médica no ato de vacinação", disse a secretária.

A representante do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) na audiência, Kandice Falcão, afirmou que a entidade é "extremamente contra a exigência de prescrição médica para vacinação de crianças". Ela lembrou que os municípios estão enfrentando uma epidemia de arboviroses (como dengue e chikungunya, por exemplo), surtos de influenza e problemas decorrentes de alagamentos e enchentes.

"Não dá, não dá mesmo", disse. "Em se tratando de saúde pública, isso é completamente inviável. Os profissionais de saúde estão sobrecarregados por conta da alta demanda de atendimento desde o início da pandemia." 

Kandice Falcão pontuou que há municípios no País que têm apenas uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para fazer todos os atendimentos. A representante do Conasems citou o esgotamento físico e mental dos profissionais de saúde e afirmou que em janeiro cerca de 30% dos funcionários do Sistema Único de Saúde (SUS) saem de férias, o que pode dificultar o trabalho.

"É muito complicado, é extremamente inviável e isso dificulta muito a exigência de prescrição médica em plena campanha de vacinação. A gente ainda está fazendo dose 2, dose de reforço e iniciar uma vacinação de criança é uma campanha", disse.

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