Gislaine Honorato/ Arquivo pessoal
Gislaine Honorato/ Arquivo pessoal

Aumentam casos de hostilidade por medo do coronavírus no interior de SP

Há registros de agressões verbais a pessoas suspeitas de portar ou espalhar o vírus e até contra iniciativas de acolhimento a pessoas vulneráveis

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 20h00

SOROCABA - Aumentam os casos de pessoas de fora que são hostilizadas ao chegar em pequenas cidades do interior de São Paulo, devido ao medo do novo coronavírus. Muitas localidades estão com barreiras físicas ou sanitárias para restringir a entrada de forasteiros. Há registros de agressões verbais a pessoas suspeitas de portar ou espalhar o vírus e até contra iniciativas de acolhimento a pessoas vulneráveis.

Um comerciante paulistano que possui chácara em Pereiras, cidade de 7,5 mil habitantes, a 158 km da capital, contou nesta terça-feira, 31, que desistiu de permanecer em quarentena em sua propriedade depois que sua família foi hostilizada por moradores locais. “Tenho a propriedade há muitos anos, vou quase todo fim de semana e nunca tive problema. Na semana passada, fomos com a intenção de ficar em isolamento por um período lá, pois nosso comércio está fechado aqui (em São Paulo). Aí começaram a dizer que estávamos levando o vírus para lá. Abordaram minha esposa na rua, houve tanta amolação que a gente ficou quatro dias e veio embora”, disse, com a condição de não ser identificado. A cidade não tem caso confirmado da doença e, segundo a prefeitura, não há bloqueios.

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A paulistana Yasmin Nicolielo, de 26 anos, passou a viver um pesadelo depois de se dirigir a uma unidade de saúde de Avaré, no interior de São Paulo, para fazer o exame do coronavírus. Após o exame no pronto-socorro, ela se viu estampada em sites locais como “o primeiro caso de covid-19 em Avaré”. Logo as redes sociais passaram a tratá-la como a “bem de vida” que “veio trazer coronavírus para Avaré”. Suas fotos foram espalhadas em grupos com comentários maldosos.

Yasmin tinha ido a Avaré, cidade onde reside a mãe, passar o carnaval. Como chegara há pouco tempo de viagem à Itália, e houve recomendação para brasileiros que estiveram lá guardarem isolamento, ela decidiu fazer o teste e não voltou para São Paulo, ficando sem contato com os demais familiares. Yasmin conta que sua irmã também sofreu retaliações e foi ‘convidada’ a não ir à escola. “É incompreensível o quanto as pessoas destilaram ódio gratuito com a notícia do caso suspeito. Eu fui culpada por viajar, por realizar um sonho”, escreveu. O exame dela deu negativo.

No fim de março, um ônibus de turismo foi parado em uma barreira no acesso da rodovia Euclides da Cunha (SP-320) à área urbana de Santa Fé do Sul. Guardas municipais orientaram o motorista a fazer a meia volta, devido a decreto municipal restringindo o acesso às medidas de isolamento para evitar o coronavírus. Quando o veículo fazia a manobra de retorno, foi atacado com mangas podres, por alguns garotos, como contou a comerciante Claudia Bastos, que estava no ônibus. “Uma manga acertou em baixo da janela onde eu estava. Não deu para entender o que eles diziam, mas com certeza o motivo era terem achado que a gente estava levando o vírus.”

A prefeitura informou que não há registro do incidente e que o controle nas entradas da cidade foi adotado com o intuito de ajuda na prevenção da doença. Conforme o município, os motoristas de veículos que chegam são interpelados sobre o motivo da entrada na cidade, tendo em vista a recomendação de permanecer em casa em quarentena.

Em Santos, no litoral paulista, uma arquiteta de 37 anos, descendente de japoneses, foi hostilizada no final de fevereiro quando caminhava pela rua com o filho de um ano no colo.  Segundo o relato divulgado em redes sociais, um grupo de adolescentes, achando que ela era chinesa, se aproximou gritando: “Coronavírus, volta para seu país”. Na mesma quadra, uma idosa japonesa também foi abordada de forma hostil pelos garotos. 

A arquiteta, que é moradora de Santos, conta que chorou ao chegar à casa. Ela não registrou boletim de ocorrência. O caso veio a público porque a moradora relatou o episódio a um grupo de amigas por rede social. Na época, o epicentro da doença ainda estava na China. Ela contou que, antes do isolamento, foi abordada três vezes em locais públicos por pessoas que perguntaram se ela era chinesa.

O empresário Rodrigo Mariotoni e sua mulher Raquel Cristina Barreta Cestari, moradores de Itapira, estão pagando uma conta alta pelo que alegam ter sido uma brincadeira sobre o preconceito das pessoas contra suspeitos de coronavírus. No dia 18 de março, eles postaram um vídeo em rede social em que ironizavam a possível infecção, após viagem ao exterior. “Fomos confinados pelo mundo da população, porque nossa saúde está muito debilitada (...) A gente vai pedalar uns 70, 80 (quilômetros) por dia até onde nossa saúde vai aguentar. Já que estamos com coronavírus, então vamos levar ele para o mundo da ‘mountain bike’, diz Raquel.

Casal de Itapira-SP

Chegaram do exterior infectados e orientados ao isolamento

Ajudem-os a ficarem famosos pic.twitter.com/NhuUbOVwFk — Beta Bastos (@robertabastosn) March 21, 2020

A postagem foi replicada e acabou gerando ação do Ministério Público de São Paulo. Em liminar, a justiça mandou Rodrigo e Raquel se submeterem à imediata avaliação médica e isolamento social, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. De pouco adiantou o casal ter se explicado, alegando que só fez a brincadeira após ter sido isolado até por amigos devido ao preconceito. O dois foram execrados em redes sociais - os xingamentos mais brandos foram “vermes”, “acéfalos” e “lixo”.

A loja de bicicletas e artigos para ciclistas do empresário passou a ser alvo de uma campanha. “Não comprem na loja dele, não entrem lá”, “Vamos quebrar sua loja, vocês são responsáveis por espalhar o vírus” e “suas bikes são roubadas ou contrabandeadas?”, escreveram. O casal chegou a temer pela segurança de suas filhas e teve de se isolar em seu sítio, desta vez devido às ameaças, já que o exame de coronavírus deu negativo. Rodrigo e Raquel foram contatados por telefone, nesta terça-feira, 31, mas uma funcionária informou que eles não falariam sobre o caso.

Varal polêmico

Em Limeira, com o propósito de ajudar moradores de rua, a comerciante Gislaine Honorato teve a ideia de instalar um varal na avenida em frente à sua loja e pendurar sanduíches em sacos plásticos para os moradores de rua se alimentarem, mas acabou sendo hostilizada em redes sociais. Segundo ela, em meio ao isolamento para evitar a propagação do coronavírus, essas pessoas sofrem preconceito e acabam se tornando ainda mais invisíveis. “Eles reclamam que as pessoas querem ainda mais distância deles agora”, disse. Junto com os lanches, ela coloca bilhetinhos de incentivo.

Gislaine tem o apoio de um grupo de voluntários do projeto “Juntos para o Bem” que atende esse público. Junto a muitos elogios, ela e sua iniciativa sofreram ataques em redes sociais. “A pessoa está com fome, tem que passar pela humilhação de pular no varal igual cachorro e ainda é zombada com essas mensagens que não servem para nada para quem está há dias sem se alimentar”, postou um internauta. “Ser humano vivendo nas ruas em condições precárias, enfrentando humilhações, nem um animal merece isso”, postou outro.

Entre os muitos que defenderam a iniciativa, um internauta advertiu: “Faça algo e não faça a guerra, porque já estamos nela!” A comerciante disse que está acostumada com essas reações. “Esses comentários são normais e a maioria é de apoio. Trabalhamos há seis anos ajudando essas pessoas com cesta básica mensal, sopa e orientação. Não é uma ação isolada. Já fizemos também varal com roupas de frio”, explicou.

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