Reprodução/TV Estadão
Estudante Paola Victorio, de 26 anos, mora em Sydney. Reprodução/TV Estadão

Austrália venceu a covid-19 com a consciência, afirma estudante brasileira em Sydney

Paola Victorio conta que controle efetivo permitiu volta à rotina pré-pandemia, inclusive sem uso de máscara nos transportes públicos

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 14h00

Paola Victorio, Sydney, Austrália

Viagem, a única restrição

“Não temos mais muitos casos aqui, a vida está praticamente normal. Não temos mais nenhuma restrição no Estado de New South Wales, onde fica a cidade de Sydney. Aqui é tudo controlado pelo Estado. Cinemas abertos, shows, tudo aberto. A única restrição é das viagens. Não podemos sair da Austrália. Mas o comércio está funcionando, festas, tudo normal. A vida voltou 100% ao normal. As escolas voltaram antes mesmo de outras coisas. Na verdade, foi uma das primeiras coisas a serem normalizadas. O governo fez um plano muito legal e os serviços essenciais foram voltando. Mesmo no lockdown, as coisas foram voltando. E a gente tinha farmácia, postos de gasolina. Depois, quando os casos foram diminuindo, a situação ficou mais controlada, as escolas foram das primeiras que voltaram. Teve férias aqui, umas duas semanas atrás, é uma vida normal. Ninguém mais está com aula online.”

À espera da vacina

“Sobre a vacina, já fizeram a parte dos idosos, agora estão no pessoal da saúde, aeroportos. A previsão para a população inteira da Austrália é ser vacinada até setembro, incluindo imigrantes, estudantes, mesmo que não sejam cidadãos daqui. Isso é muito legal. Eles providenciaram um site com todas as informações. Você pode ir lá, demonstrar seu interesse pela vacina. E já consegue ver a data prevista para tomar a vacina. Hoje, com a minha idade, tenho 26 anos, a previsão é que eu tome a vacina no final de junho.” 

Rastreamento inteligente

“Eu vivo em Sydney há um ano e meio. Cheguei seis meses antes da pandemia. Aqui, ficamos no processo de lockdown por três meses. Quando começou, o lockdown foi levado muito a sério. Foi realmente uma fase de muita restrição, de março até o comecinho de junho. Aí começou a abrir, com distância social. A vida normal, mesmo, voltou aqui há mais ou menos dois meses. Aí, já sem qualquer restrição, mesmo mesmo de distância social, sem máscara, nem no transporte público. A única coisa que a gente precisa fazer aqui, que eu acho excelente, é sempre que você vai a um restaurante, ou supermercado, você deve escanear um código, no celular, dar o seu nome e seu e-mail. Dessa forma, eles conseguem rastrear todos os locais nos quais você esteve. Se houver qualquer caso, eles conseguem entrar em contato com todas as pessoas que estiveram naquele local naquele dia. O controle é muito efetivo. E eles, então, colocam no jornal essas pessoas que estiveram nesse local.”

Mudança de planos

“Sobre as viagens, as internacionais estão proibidas. Você pode sair, mas não volta. As fronteiras estão fechadas. Eu tinha planos de passar o Natal com a minha família no Brasil, mas infelizmente não pude. Agora não tenho planos, não. Tenho minha vida aqui. Na verdade, pretendo até trazer a minha família para passar um tempo comigo. Mas ir ao Brasil, não. Eu gostaria de dizer ainda que tem de ter fé e força. Eu tenho acompanhado a situação no Brasil. Na verdade, tento até nem olhar, porque eu sei quanto está difícil a situação, minha família, meus amigos, estão aí. Mas acho que tem de ter fé e consciência. Eu vivo num local no qual com consciência se conseguiu vencer a doença. Então, eu acho que as pessoas têm de ter consciência, pensar em comunidade, pensar no outro. Foi assim que a Austrália venceu a covid.” 

Consciência da sociedade e do governo

“Eu acho também que é até complicado fazer essa análise porque a Austrália é um país rico e deu um suporte muito bom para as pessoas. E, no Brasil, vejo que as pessoas não respeitam as regras do distanciamento porque elas não têm opção. Aqui, existem opções. Se você não sair de casa, não vai morrer de fome. Mas no Brasil, infelizmente, isso não existe. Hoje a principal saída do Brasil seria um gerenciamento melhor do governo, dos recursos, da distribuição de renda e, claro, também ter consciência da população. Muita gente que não está respeitando não é porque não têm opção, mas porque não está nem aí. Então, um pouco mais de consciência e um governo um pouco melhor para a gente aí.  Aqui, eu trabalho de babá e em restaurantes e estudo. Isso é muito comum aqui. Vou começar em julho uma pós-graduação em “business analytics”.

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Fora do País, brasileiros vivem a volta da normalidade

Moradores de Sparks (EUA), Pequim, Melbourne e Sydney (Austrália) e Newcastle (Reino Unido), cidades que fizeram lockdown rigoroso, relatam retomada da rotina e do crescimento da economia

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 14h00

Com o Brasil ultrapassando a marca dos 400 mil mortos pela covid-19, uma média de mortes acima de duas mil pessoas por dia e vacinação atrasada, brasileiros que moram no exterior já testemunham a vida voltando ao normal em diversas partes do mundo onde a pandemia do coronavírus está sob controle. Cidades que tiveram lockdown rigoroso no ano passado, como Sparks, no interior dos Estados Unidos, estão com vacinação avançada e  já protegem jovens de 16 anos. Em Pequim, na China, onde a peste começou, as crianças têm aulas normais, o comércio está bombando e a economia cresce aceleradamente – no primeiro trimestre de 2021, o PIB chinês avançou 18,3% em relação ao mesmo período do ano passado.

“Nós estamos com a maioria dos estabelecimentos abertos, as escolas estão abertas desde agosto quando começou o ano letivo. E os adultos frequentam o comércio normalmente”, conta Natália Gava, de 37 anos, nutricionista de São Paulo que vive em Sparks, no Estado de Nevada, nos EUA, com a família. Natália tem duas filhas, de dez e cinco anos, e mora  nos EUA há sete anos e meio. Do outro lado do mundo, em Pequim, onde vive há três anos, Denise Melo, de 36 anos, solteira, vive situação semelhante. Ela conta que já recebeu a primeira dose da vacina e que a capital chinesa também tem dias de normalidade depois de ter passado por fortes controles de circulação de pessoas. “Aqui, eles respeitam aqueles três meses de lockdown no início de 2020”, lembra Denise. “E quando começou a reabertura, desempregado de loja foi trabalhar na reforma das ruas para fazer a economia girar”, explica Denise, que aguarda a segunda dose da vacina contra a covid-19.

O Estadão ouviu ainda o depoimento da advogada Ana Ganzarolli, 42 anos, que mora em Newcastle, no Reino Unido, cidade que teve reabertura no último dia 12. O coordenador de marketing Guilherme Dorf, de 34 anos, que vive na Austrália, conta que a vida por lá também se normalizou. Em Melbourne, no Estado de Vitória, onde Dorf reside, a covid matou 820 pessoas, dos 910 óbitos causados pelo coronavírus ocorridos no país. A única morte de 2021 ocorreu em Queensland, onde um homem de 80 anos havia retornado recentemente das Filipinas. Em toda a pandemia, o Estado teve sete mortes. Segundo o relato da estudante Paola Victorio, de 26 anos, de Sydney, Estado de Nova Gales do Sul (54 mortes no total), a pandemia parece ser coisa do passado: a última morte por coronavírus foi registrada em 27 de dezembro, conforme dados da Johns Hopkins University. 

Abaixo, leia os depoimentos, que estão publicados também na TV Estadão.

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‘Não esperava que abertura fosse tão rápida’, diz nutricionista brasileira em Sparks, nos EUA

Natália Gava conta que a maioria dos estabelecimentos comerciais já funciona com 50% da capacidade e crianças vão à escola normalmente

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 14h00

Natália Gava, Sparks, Estados Unidos

Volta à ‘normalidade’

“Eu estou agora em Sparks, Estado de Nevada, perto da cidade de Reno. Nós estamos com a maioria dos estabelecimentos abertos, com 50% da capacidade, com exceção de danceterias, casas de shows, que estão fechados. As escolas estão abertas normalmente desde agosto quando começou o ano letivo. As crianças estão indo para as aulas normalmente. E os adultos frequentam o comércio normalmente. Existe só um controle no número de pessoas que podem estar dentro dos estabelecimentos. Nas festas privadas, nós temos uma restrição. Eles pedem para receber no máximo 25 pessoas em casa.”

Cuidados permanecem

“A recomendação também é de que as pessoas usem máscaras, a não ser que estejam vacinadas. O ideal é que pessoas que não foram vacinadas se encontrem somente com uma outra família de cada vez e que continuem usando máscaras. Mas as viagens, por exemplo, estão liberadas, desde que se use máscara em qualquer tipo de transporte. Há só um controle de quem pode entrar de viagens internacionais. Eles aqui estão também recomendando que não se viaje para fora do país, a não ser que seja extremamente necessário.”

Experiência com 2ª onda

“Agora, nós estamos no verão, mas aqui também é relativamente frio. Nós já tivemos aqui uma abertura, por volta de setembro, mas foi colocada o que eles chamaram de uma pausa em todo o Estado em novembro, porque nós tivemos uma segunda onda. E aí eles diminuíram a capacidade dos estabelecimentos de 25%. Depois disso, foi reaberto no início de março. E a ideia é abrir completamente em 1º de julho.” 

A aposta na vacinação

“A vacinação atingiu a população acima dos 16 anos em 12 de março. Está tendo muita procura por vacina e é bem difícil conseguir marcar. Você tem de marcar um horário para tomar a vacina. Mas está indo bem. A gente acredita que a partir das próximas duas ou três semanas vai começar a cair esse ritmo de vacinação, porque há pessoas ainda um pouco relutantes em tomar a vacina. Mas estão vacinando todos de 16 para cima. As principais vacinas são a Pfizer e a Moderna, de duas doses. A vacina da Johnson & Johnson está em pausa há quase duas semanas. A maioria dessas vacinas aqui é de duas doses.” 

Passado e futuro

“Eu não esperava que essa abertura fosse tão rápida. Acreditava que fosse demorar até junho ou julho. No Brasil, eu acho que, o mais importante agora, por mais difícil que seja - e eu entendo que as pessoas têm de ir trabalhar -, mas quem tem a possibilidade de ficar em casa, que fique em casa. Nós tivemos um período muito pesado aqui no final do ano. Cancelamos o Natal, passamos somente na minha casa, sem ninguém de fora. Não é fácil. Mas é por algo mais importante.”

Pensando no outro

“Eu acho que não podemos pensar só na gente. A nossa preocupação maior é não passar a doença para alguém que tenha um risco maior. Então, o mais importante é que enquanto não tiver mais gente vacinada, quem puder ficar em casa, evitar festas e aglomerações, é o mais importante. Eu acho que as pessoas têm de entender que essa doença afeta diferentemente as pessoas. Tem gente que é do grupo de risco e não sofre. Mas tem gente que não é de risco, mas sofre. Não existe uma maneira correta de lidar com isso, infelizmente. É se proteger, ter muita calma e muita paciência.”

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Controle de casos de covid-19 por QR code é aposta em Pequim, conta editora brasileira

‘As ruas estão cheias, o comércio aberto’, diz Denise Melo sobre rotina na China

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 14h00

Denise Melo, Pequim, China

Cidade sitiada contra a covid-19

“Aqui já está praticamente tudo normal. Já há muitos meses não tem casos na cidade. Um dos motivos é porque a cidade está fechada. Nenhum voo de outro país chega aqui. Não tem casos importados. Os casos importados que precisam fazer quarentena são em outras cidades. E como aqui não tem casos, as ruas estão cheias, comércio aberto. As pessoas ainda usam máscaras na rua. Todo lugar tem álcool em gel.”

Mapeamento por QR code

“Para facilitar o controle todo na cidade e no País, tem um código QR para que, em todo lugar que você for, escanear esse código. Nele há todos os seus dados de saúde. Se fez exames, se tomou vacina. Eu, por exemplo, já tomei a vacina. Eu tenho 36 anos. Já foram todas as idades de chineses, e estão vacinando os estrangeiros. Eles vacinaram mais os idosos e o pessoal da linha de frente. Não é que haja pressa para tomar a vacina porque não tem casos. No caso dos estrangeiros, são muito visados (as pessoas não sabem de onde você veio). Para facilitar a nossa vida, é mais fácil tomar a vacina.” 

Organização na pandemia

“Na cidade, há vários métodos. Na China, funcionam muito em comunidades. Cada bairro tem várias comunidades. Eles vão ligando para as pessoas e avisando que tem de tomar a vacina. Aconteceu comigo. No meu caso, fiz pela empresa. Preferi porque eu não falo muito bem a língua e poderia conversar no caso de acontecer alguma coisa comigo por causa da vacina. A empresa agendou tudo.”

Retomada econômica

“Eu vivo aqui há três anos, trabalho como editora numa agência de notícias. Sobre a economia, a China cresceu muito rápido. É impressionante. Mas é preciso lembrar que no começo de 2020, a China inteira virou um deserto. A gente não saiu na rua nem pra espirrar As pessoas aqui respeitaram aqueles primeiros três meses. Isso foi fundamental para eles controlarem a situação. E, assim que abriu, em termos econômicos, eles começaram a reformar tudo, nas ruas, para aquecer a economia. O desempregado da loja que fechou, foi reconstruir calçada. A economia aqui é muito versátil. Eles conseguem colocar as pessoas trabalhando em outras áreas para fazer a economia girar.”

Bônus contra a crise

“E teve bastante ajuda do governo. Não como ocorreu no Brasil, mas como aqui é tudo pelo celular, eles davam bônus para os chineses poderem comprar comida. Houve um apoio muito grande. Eu não tive problema, não houve corte de salário, porque eu posso fazer home office. Mas as pessoas que tiveram que trabalhar, tiveram jornada reduzida, sim. E depois, para reaquecer a economia, eles ganharam bônus para viagens para outras cidades. Como hospedagem gratuita, descontos de 50% na passagem de trem. Isso, para reaquecer a economia das regiões pelo turismo interno.” 

Distanciamento e imunização

“Olha, eu realmente não sei da necessidade das pessoas no Brasil, mas o que eu queria dizer era que se você tem condições de respeitar o lockdown, não sair de casa, talvez em três meses diminua um pouco a contaminação. É preciso também estudar as vacinas. O que está acontecendo muito é que as pessoas tomam a primeira dose e já saem fazendo festa e não é assim que funciona. Tem de esperar a segunda dose porque você ainda pode passar a doença. A minha segunda dose será daqui uma semana, uma semana e meia.”

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‘Colhemos frutos do rigor anterior’, diz coordenador de marketing brasileiro que mora em Melbourne

Guilherme Dorf afirma que lockdown rigoroso é cumprido à risca em casos de aumento descontrolado de casos de covid-19

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 14h00

Guilherme Dorf, Melbourne, Austrália

Antigos hábitos

“Depois de um ano bem difícil, a gente já quase retomou a vida normal. No nosso dia a dia, praticamente não sentimos que existe a doença, mas toda hora a gente está sendo lembrado que existe alguma coisa, que tem de se distanciar. Aqui, quase todo mundo hoje em dia pega transporte público, vai para o trabalho, tem opções de lazer. É bem parecido com o que existia antes. Acho que o único momento mais específico, que a gente se lembra que existe o vírus, fora os anúncios constantes, é que quando a gente entra no transporte público. Aí temos de usar a máscara. Fora isso, é bem impressionante. Parece até que a gente já esqueceu alguns ensinamentos, o que é a parte meio negativa. Mas todo mundo está voltando a ter hábitos que a gente tinha antes da pandemia. É quase coisa do passado.”

Confiança no amanhã

“É difícil falar em coisa do passado porque aqui existe uma compreensão muito grande que a doença é uma coisa muito volátil, que pode voltar a qualquer momento. E, de novo, os anúncios do governo ainda estão muito presentes. Mas se pode falar que é coisa do passado porque a gente já consegue se reunir com amigos, já há eventos grandes, já consegue ficar em lugares fechados sem máscaras. É um momento muito diferente do que a gente viveu no ano passado. Agora é um momento muito positivo. Todo mundo está muito confiante.”

Na dúvida, lockdown

“Há duas perspectivas diferentes. Desde o começo do ano que a situação está bem controlada, mas, por outro lado, a gente vive uma coisa que é difícil explicar para o Brasil. Cada vez que há qualquer tipo de aumento descontrolado no número de casos [de covid-19], e quando falo descontrolado, quero dizer dez novos casos, o que a cidade fez, e isso aconteceu há uns dois meses, é adotar o lockdown. Um lockdown mais rigoroso possível, num período curto de tempo, até entender quais são os desdobramentos disso.” 

Oito ou oitenta

“No começo do ano, a gente estava vivendo quase vida normal e, de repente, na semana em que estava tendo o Australian Open (fevereiro) aqui, foram cinco dias de lockdown super rigoroso até que se conseguiu o rastreio de contato, viu-se quais eram as pessoas, que a doença não ia se espalhar mais, e aí voltou-se à vida normal. Então, apesar de desde o começo deste ano a gente ter uma situação bem controlada, de vez em quando a gente tem essas lembranças. E aí vai do 8 para o 80. Da vida normal para as regras mais rigorosas possíveis para conter o contágio.”

Senso de coletividade

“O governo australiano está muito preocupado com as novas variantes do vírus. Eles entendem que é muito diferente do que houve no ano passado. Na Austrália, é uma situação bem específica. O governo e a população são muito cautelosos, conservadores. Quando tem de se unir para fazer alguma coisa para o bem geral, se não é para sair de casa, as pessoas ligam para a polícia e denunciam se o vizinho está se encontrando com um amigo. Houve muita multa de pessoas que estavam na rua sem motivo e com tudo fechado. Não havia motivo para ir para a rua. Não havia o que fazer. Funcionou muito bem.” 

Vacinação a passos lentos

“Outra coisa que é muito diferente aqui é a vacinação, que está muito devagar. Acho que isso ocorre até pelos números de infecção estarem muito controlados. O governo não está com muita pressa. Eles estão muito cautelosos para escolher as melhores vacinas. Começou agora a ter a vacinação dos grupos prioritários, mais até os profissionais de saúde do que idosos. Mas quando você compara com o Brasil, parece até contraditório, mas aqui está em ritmo bem lento. No ano passado todo mundo queria muito se vacinar, mas neste ano parece que as pessoas não estão com aquela pressa do ano passado. As outras estratégias  funcionaram muito bem.” 

Regulando a balança

“Com relação ao Brasil, é sempre muito delicado falar, porque as situações são muito diferentes. É difícil comparar. Mas o principal recado para os brasileiros é falar para as pessoas que têm condição de ficar em casa, não dependem de sair todo dia para trabalhar, que fiquem em casa. As pessoas devem saber que o vírus é real, ele mata, e que há maneiras práticas de se proteger. Usar máscara, não se expor, manter o distanciamento social. São coisas que funcionam. Mas há um ponto importante também, que é a desigualdade. As pessoas gostam de falar das diferenças culturais entre brasileiros e australianos, de fato, existem, mas há uma outra coisa: é fácil ficar em casa quando você está recebendo auxílio emergencial grande. Isso não tem no Brasil. Eu não sou cidadão australiano, tive auxílio diferente do auxílio do cidadão daqui. Eles receberam quantias muito generosas para ficar em casa e respeitar as regras. O maior problema deles foi a saúde mental. Mas pouca gente passou fome.” 

Presença do Estado

“O governo ajudou muito o cidadão e também os negócios. Foi um momento que deixou muito claro qual é o papel de um Estado. Houve até uma divisão entre os australianos e os imigrantes, que não receberam o volume de auxílio dos cidadãos. Mas ainda assim, eu, por exemplo, consegui acessar auxílio do governo estadual para estudantes internacionais, que aqui são um negócio gigantesco. Consegui pela faculdade, que também é um negócio enorme enorme. O ano passado foi muito difícil para mim e o auxílio não compensou o que eu deixei de receber, mas pelo menos foi um alento. Mostrou que eu não estava totalmente jogado às traças.”

Uma São Paulo segura

“Eu moro aqui há quase três anos. A gente chegou durante a Copa do Mundo de 2018. Melbourne é muito parecida com São Paulo. Multicultural, bem urbana. A questão de esportes, saúde, áreas verdes, é muito presente. Melbourne tem 5 milhões de habitantes, é a segunda cidade mais populosa do país, depois de Sydney. Lembra muito São Paulo. É difícil comparar, porque São Paulo tem 20 milhões e aqui as coisas funcionam muito bem. Em Melbourne, o poder público é muito presente. É uma cidade muito segura. Há grandes eventos esportivos.” 

Mão pesada nas fronteiras

“Uma outra coisa que é bem diferente do Brasil é a questão das fronteiras. A fronteira internacional está fechada há quase um ano. Tem muito australiano que está fora de casa há quase um ano. E quando tem esses picos de casos, porque aos poucos as pessoas vão voltando, eles fecham também as fronteiras estaduais. É uma mão pesada, mas todo mundo entende.” 

Colhendo frutos

“Uma última coisa interessante é que o governo faz anúncios para que, se você tiver qualquer sintoma, procure postos de saúde para testar se você contraiu o coronavírus. E o governo dá um auxílio extra para você não circular e não espalhar o vírus. Isso ajuda no distanciamento social. Eu trabalhava com eventos, grandes grupos, e hoje sempre trabalho com as mesmas pessoas, há treinamento para cuidados, os locais são mais controlados. Hoje em dia, menos, mas no começo do ano quando fechava, era total mesmo. Hoje a gente está colhendo os frutos daquele rigor. E há muitos negócios de fora que querem vir para cá. A minha empresa, que trabalha com produção de filmes, sente isso. Tem produções dos EUA querendo vir. Olha, é preciso falar também que a gente está aqui, abençoado, mas a gente sente pela situação do Brasil. Nossas famílias, amigos, estão no Brasil. A gente sofre e até sente até certa vergonha por estar aproveitando isso aqui, porque parte da gente continua lá.”

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‘Ciência é a chave de tudo’, diz advogada brasileira que mora em Newcastle, Reino Unido’

Ana Ganzarolli destaca o fornecimento de kit de autoexame para covid-19 como uma solução inteligente no enfrentamento da pandemia

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 14h00

Ana Ganzarolli, Newcastle, Reino Unido

Vida praticamente normal

“Nossa vida está praticamente normal. Nós estamos trabalhando, minhas filhas estão indo para a escola. A gente ainda não está viajando, mas provavelmente neste verão, pelo menos dentro da Inglaterra, a gente já tem uma sinalização de que isso vai poder acontecer. Aqui, a gente toma alguns cuidados, como usar máscara em locais fechados. Não se pode ainda visitar as pessoas, há uma limitação de encontrar só em área externa, até quatro pessoas, mas, considerando a pandemia que a gente está enfrentando, é uma vida praticamente normal.”

Imunização seletiva

“Nós estamos em Newcastle upon Tyne, a 100 quilômetros da Escócia, bem ao norte da Inglaterra, bem distante de Londres. Aqui, a vacinação está bem avançada. Aqui no norte, a infecção não foi tão generalizada como na capital, a vacinação está mais lenta. Eu tenho a informação de vacinação agora de pessoas com 45 anos.”

Vida escolar

“O foco não foi tão grande, Newcastle é uma cidade mediana, vamos dizer assim, mas também foi afetada. A partir de 12 de abril é que o comércio reabriu. Nós ficamos quatro meses totalmente isolados. Só se saía para fazer compras. Todo o comércio ficou fechado, escolas também. Agora, reabriu. A vida está voltando ao novo normal. As crianças estão indo para a escola. Há alguns cuidados, adotados desde o ano passado, como dividir os intervalos e os horários de refeição entre as salas para as crianças não terem contato umas com as outras. Os pais têm de chegar de máscara para buscar os filhos e em horários diferentes de saída. E a gente tem de levar imediatamente embora. Nas salas de aula, as crianças não são obrigadas a usar máscara, diferente, por exemplo, da Itália, onde as crianças têm sim de usar máscaras. Aqui, elas não são obrigadas. Na classe da minha filha, que está numa escola primária, já havia, antes do lockdown, uns 20 alunos. Não houve mudança. Acho que não tem limite. Aqui eles têm toda uma atenção, uma preocupação pedagógica, com os alunos.”

Home office e take away

“No trabalho, quem faz um trabalho intelectual, está em home office. No comércio, em lojas, as pessoas voltaram a trabalhar em 12 de abril. Mas o que eles chamam aqui de “key workers”, que são as pessoas da área de saúde, de comida, professores, essas trabalharam o tempo todo. A restaurantes, eu confesso que ainda não fui desde a reabertura. Mas os restaurantes daqui sempre funcionaram “take away”, para entrega. E agora eles só estão funcionando nas áreas abertas. As pessoas não podem entrar. E olha que ainda está bem frio, é primavera. À noite, a temperatura cai bastante.” 

Mudança durante o lockdown

“Eu moro aqui  há um ano. Antes, eu morava numa cidade praiana, Bournemouth. Nós mudamos para cá uma semana depois de ter sido decretado o lockdown. Eu já tinha fechado o contrato. Inclusive, a gente foi parado na estrada, eles estavam fazendo o rastreio das placas dos carros. A gente teve de explicar para a policial que estava se mudando. Ela entendeu, e liberou a gente. Ao Brasil, fui em 2018, faz três anos. Vamos ver se no final deste ano a gente consegue. Meu marido também é brasileiro. A minha filha Ana Clara, de 6 anos, nasceu no Brasil. A minha segunda filha, a Isabela, tem dois anos, nasceu na Itália. Moramos lá durante dois anos. Eu aqui trabalho “part time”, como atendente, mas continuo trabalhando como advogada no Brasil e na Itália, porque consigo fazer os processos online. E estou estudando para tentar entrar na minha área, que é a área de techs.”

Kit de autoexame

“Olha, eu queria dizer à população no Brasil para não perder as esperanças, porque aqui, o fato de a vacinação estar avançada mostra que a ciência é a chave de tudo. Se a gente agora consegue ter uma vida relativamente normal... É só as pessoas investirem na ciência e torcer para que tudo dê certo. Talvez demore um pouco mais, mas com certeza as coisas vão melhorar. Mas eu queria destacar também um kit que é fornecido aqui. Pelo fato de as escolas terem sido reabertas e as crianças ficarem expostas, elas podem ser um canal de transmissão da covid nas casas. Então, o governo incentiva as famílias a pedirem um kit de autoexame, que eles mandam pelo correio. Você não precisa estar com os sintomas para fazer esse teste do kit. Se você tiver os sintomas, aí sim você vai fazer o PCR, que é o exame específico da covid. Esse, do kit, é mais simples. Você faz em casa. É para evitar a proliferação. E também, como aqui muita gente está entre a primeira e segunda dose, as pessoas podem ser portadoras assintomáticas da doença. Dessa forma, evita-se a proliferação do vírus. Isso é uma coisa muito bacana que fizeram aqui. E isso deve ter um custo baixo. É fornecido pelo sistema de saúde, o SUS deles aqui. O resultado é imediato. Pode ser uma sugestão aí para usarem no Brasil.”

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