Keith Negley/The New York Times
Keith Negley/The New York Times

Automutilação de adolescentes desafia médicos e cientistas

Cerca de 1 em cada 5 adolescentes revela ter se machucado para aliviar a dor emocional pelo menos uma vez, mas existem poucos centros de pesquisa dedicados ao tema e ainda menos clínicas especializadas no tratamento

Benedict Carey, The New York Times

18 de novembro de 2019 | 14h00

As sensações vieram de algum lugar ali dentro, como veneno injetado por uma seringa: uma mistura de tristeza, ansiedade e vergonha que dominaria qualquer pessoa, ainda mais uma adolescente.

"Peguei um palito de picolé, esculpi uma ponta afiada e me arranhei", disse Joan, estudante de ensino médio em Nova York; ela pediu para que seu sobrenome fosse omitido, por questão de privacidade. "Nem sei de onde veio a ideia. Só sabia que era uma coisa que as pessoas faziam. Lembro que chorei muito e pensei: 'Por que acabei de fazer isso?'. Fiquei com medo de mim mesma."

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Lembro que chorei muito e pensei: 'Por que acabei de fazer isso?'. Fiquei com medo de mim mesma
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Joan, estudante

Ela sentiu alívio quando o enxame de angústia se dissolveu. E começou a se cortar regularmente, primeiro com faca, depois com lâminas de barbear, cortando os pulsos, os antebraços e, com o tempo, boa parte do corpo. "Ficava me cortando por dez, quinze minutos", disse ela, "e depois não sentia mais aquela sensação terrível. Podia seguir com o meu dia".

A automutilação, sobretudo entre garotas adolescentes, tornou-se tão disseminada tão rapidamente que os cientistas e terapeutas agora estão tentando alcançá-la. Cerca de um em cada cinco adolescentes revela ter se machucado para aliviar a dor emocional pelo menos uma vez, de acordo com uma análise de três dezenas de pesquisas em quase uma dúzia de países, entre eles Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha. O hábito da automutilação, com o tempo, indica maior risco de suicídio, sugerem os estudos.

Mas existem pouquíssimos centros de pesquisa dedicados à automutilação e ainda menos clínicas especializadas em seu tratamento. Quando os jovens que se machucam procuram ajuda, muitas vezes se deparam com sustos, mal-entendidos e reações exageradas. Os níveis aparentemente epidêmicos do comportamento expuseram uma falha estrutural dos cuidados psiquiátricos: como a automutilação é considerada um "sintoma" e não um diagnóstico em si, como a depressão, os testes para tratamentos são assistemáticos e os terapeutas têm poucas evidências sobre as quais se basear.

Nos últimos anos, pesquisadores psiquiátricos começaram a juntar as peças, dando ênfase à biologia e os gatilhos sociais da automutilação. Agora, a história oferece aos pais - dezenas de milhões no mundo todo - alguma ideia do que está acontecendo quando veem uma criança com cicatrizes ou queimaduras e permite a avaliação de tratamentos especializados: em um estudo recém-publicado, pesquisadores de Nova York descobriram que a automutilação pode ser reduzida com uma forma específica da terapia que foi inventada para tratar o que é conhecido como Transtorno de Personalidade Borderline.

"Este tipo de comportamento costumava se restringir às pessoas gravemente comprometidas, com histórico de abuso sexual e grande alienação corporal", disse Barent Walsh, psicólogo que foi um dos primeiros terapeutas a se dedicar à automutilação, no programa Bridge em Marlborough, Massachusetts, agora parte do Open Sky Community Services. "Então, de repente, alastrou-se para a população em geral, a ponto de afetar crianças de famílias ricas. Foi quando o financiamento para as pesquisas começou a chegar."

Joan tinha 13 anos quando começou a se cortar. Agora, aos 16, reduziu bastante os episódios nos últimos meses. "Mas ainda faço isso, tipo, toda semana, mais ou menos."

O mal-entendido mais comum acerca da automutilação é achar que se trata de uma tentativa de suicídio: o pai ou a mãe entra e pega o adolescente se cortando, e a visão do sangue é ofuscante.

"Muitas pessoas pensam isso, mas, na realidade, você se corta por outras razões", disse Blue, de 16 anos, outra estudante de ensino médio de Nova York. Ela também pediu para que seu nome fosse omitido. "Tipo, é a única maneira que você conhece de lidar com inseguranças intensas ou raiva de si mesma. Ou você está tão entorpecida pela depressão que não consegue sentir nada, e isso é uma coisa que você consegue sentir."

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É a única maneira que você conhece de lidar com inseguranças intensas ou raiva de si mesma
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Blue, estudante

Se esse método é uma epidemia da era das mídias sociais, isto ainda é uma questão em debate no meio científico. Não foram realizadas pesquisas sobre automutilação antes de meados da década de 1980.

Nos anos 1990, a ideia de automutilação e o tormento psíquico associado começaram a aparecer na cultura popular. A princesa Diana falou sobre isso em uma entrevista; os atores Johnny Depp e Angelina Jolie também. Um famoso videoclipe de 2010 da cantora Pink continha cenas vívidas de automutilação. Na época, dezenas de fóruns online vinham proporcionando uma comunidade de apoio e compreensão àqueles que se machucavam - e, muitas vezes, reforçando o comportamento como um traço de pertencimento a um clube especial, dizem alguns especialistas.

Entre os atuais estudantes universitários americanos, um grupo privilegiado por definição, cerca de um em cada cinco relatou ter se automutilado de propósito para aliviar a dor emocional pelo menos uma vez, de acordo com pesquisas realizadas em dez universidades por Janis Whitlock, diretora do Programa de Pesquisa Cornell sobre Automutilação e Recuperação. O primeiro episódio, disse ela, ocorre por volta dos 15 anos, em média, mas um grande número de pessoas começa mais tarde, aos 17 ou 18 anos.

Poucas pessoas que se machucam uma vez param por aí, disse Whitlock, autora de Healing Self-Injury: A Guide for Parents (Curando a automutilação: um guia para os pais).

"Cerca de três em cada quatro continuam se machucando, e a frequência tende a subir e descer, conforme as pessoas passam por diferentes fases. É absolutamente enlouquecedor para os pais, porque é difícil saber o que está acontecendo."

Para cerca de 20% das pessoas que entram nesse processo, esse padrão se torna um vício completo, tão poderoso quanto os opioides.

"Tinha uma coisa muito profunda naquilo, e estava sempre lá, à mão", disse Nancy Dupill, de 32 anos, que se cortou regularmente por mais de uma década antes de superar o hábito, na terapia; agora ela trabalha como especialista em adolescentes no centro de Massachusetts. "Cheguei ao ponto em que me cortava tanto que, depois, não conseguia me lembrar das coisas que tinham acontecido, nem do que tinha desencadeado o processo."

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Cheguei ao ponto em que me cortava tanto que, depois, não conseguia me lembrar das coisas que tinham acontecido, nem do que tinha desencadeado o processo
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Nancy Dupill, especialista em adolescentes

Na psiquiatria, a automutilação é considerada um sintoma, não um distúrbio em si. Como resultado, as pessoas que têm o hábito de se machucar geralmente recebem um diagnóstico subjacente, como depressão, transtorno de déficit de atenção, estresse pós-traumático, transtorno de personalidade borderline, bipolaridade ou alguma combinação de tudo isso, variando de médico para médico.

"Recebi diagnóstico de depressão, bipolaridade, borderline", disse Dupill.

Ela não achava que os rótulos se encaixavam muito bem ao seu caso, e "alguns dos remédios prescritos me fizeram entrar em pânico e me machucar muito mais". Ela considera que os acessos de ansiedade e angústia que sentia, e às vezes ainda sente, são uma reação pós-traumática a uma infância caótica.

Se um diagnóstico se encaixar, dizem os especialistas, o tratamento deve integrá-lo. Em artigo publicado neste verão, uma equipe liderada por Theodore Beauchaine, da Universidade Estadual de Ohio, demonstrou que meninas pré-adolescentes com histórico de trauma familiar e transtorno de déficit de atenção correm um risco extremamente alto de sofrer automutilação. Tratar o TDAH e o estresse traumático seria uma poderosa estratégia de prevenção e poderia reduzir o risco de suicídio.

O único tratamento que parece ser mais eficaz para acabar com o hábito da automutilação é uma terapia de conversa, originalmente inventada para pessoas com diagnóstico de transtorno de personalidade borderline, as quais têm alto risco de suicídio.

Por meio de sessões de terapia individual e em grupo, pelo menos uma vez por semana, durante dois meses ou mais, as pessoas que se machucam aprendem habilidades para enfrentar as dificuldades do tormento. A terapia é chamada terapia comportamental dialética, ou DBT (na sigla em inglês).

Em um estudo com 800 adolescentes internados no Zucker Hillside Hospital, em Glen Oaks, Nova York, uma equipe de médicos descobriu que aqueles que receberam a DBT sofreram muito menos incidentes de automutilação, passaram menos tempo sob alerta de suicídio e tiveram internações hospitalares mais curtas, em comparação com os adolescentes que haviam sido tratados antes da DBT se tornar o tratamento padrão.

"Há muita esperança", disse Dupill "se você permitir que a pessoa que está passando por isso tenha algum controle, se você a ouvir, se mostrar interesse pelo comportamento dela e não tiver medo". /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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