Wilmot Chayee/AP
Wilmot Chayee/AP

Autoridades apontam fragilidades na detecção de infectados com Ebola

Um problema é a confiança nos passageiros, que respondem a questionário; familiares de paciente permanecem isolados nos EUA

THE NEW YORK TIMES

03 Outubro 2014 | 10h58

NOVA YORK - A chegada nos Estados Unidos de um homem infectado pelo vírus Ebola mostra a dificuldade em controlar ou restringir o avanço da doença, e o quão porosos são os procedimentos no mundo de viagens aéreas globalizadas.

Autoridades da Libéria demonstraram a intenção de processar Thomas Eric Duncan por ter supostamente mentido em um questionário no aeroporto sobre não ter mantido contato com pessoas infectadas por Ebola antes da viagem entre a Libéria e os Estados Unidos, onde foi diagnosticado com o vírus.

“Ele mentiu no questionário”, disse Binyah Kesselly, autoridade do Aeroporto da Libéria. Se ele tivesse respondido sinceramente, Kesselly acrescentou que não teria permitido que ele deixasse o país. Duncan esteve em três voos para viajar de Monróvia, capital da Libéria, a Dallas, no Estado norte-americano do Texas, com conexões em Bruxelas, na Bélgica, e em Washington, já nos Estados Unidos.

A sua jornada mostra quão fácil é para a doença viajar e quão frágeis os procedimentos são, confiando profundamente na honestidade dos passageiros e na diligência dos funcionários dos aeroportos, expõe o jornal norte-americano The New York Times. Especialistas ouvidos pelo diário apontam que esse sistema poderá sucumbir rapidamente com o avanço do vírus.

A temperatura corporal de Duncan foi medida por um funcionário do aeroporto em Monróvia, que havia sido treinado pelo Centro Americano de Prevenção e Controle de Doenças e apontou 36ºC.

Porém, Duncan não informou durante o processo de análise que havia ajudado a carregar uma mulher grávida com sintomas de Ebola para um hospital alguns dias antes. Essa mulher morreu, assim como seu irmão, que a havia carregado com Duncan.

De acordo com o NYT, a administração Obama não alterou procedimentos para viagens aéreas após o caso registrado em Dallas e destacou a existência de um guia para companhias aéreas e agentes de viagens para estarem atentos a passageiros doentes. O guia inclui observação visual e questionamentos aos passageiros nas fronteiras.

O secretário de imprensa da Casa Branca, Josh Earnest, defendeu que “não há nada nesse caso que indique qualquer fragilidade ou falhas no sistema nesse momento”.

Earnest sustentou que a melhor maneira para manter o vírus fora dos Estados Unidos é erradicá-lo na sua fonte, na África. Enquanto isso, ele ponderou que o risco de novas infecções “não é zero”.

“Qualquer coisa que façamos não alcançaremos o risco zero nos Estados Unidos até que a epidemia termine na África”, disse Thomas R. Frieden, diretor do Centro Americano de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

A Libéria não tinha scanners nos aeroportos até o final do mês de julho e só acrescentou procedimentos de segurança após um homem ter sido visto doente e vomitando durante um voo, tendo levado a doença à Nigéria, resultando em 20 infecções e oito mortes. Hoje, o governo do país diz medir a temperatura de passageiros duas vezes ao escanear a testa das pessoas com um termômetro infravermelho.

“Não há nada mais que possamos fazer a curto prazo além de por em quarentena pessoas que querem viajar 21 dias antes do dia da partida”, informou Binyah Kesselly, líder do Aeroporto da Libéria. 

Entre 9.624 passageiros que deixaram o país africano em aeronaves comerciais sob novas medidas de restrição, apenas duas foram identificadas para passarem por exames adicionais.

The New York Times aponta que especialistas norte-americanos desconfiam do número estranhamente baixo, dizendo que é “altamente improvável” ou “não possível” que uma porcentagem tão pequena de viajantes teria febre, mesmo que não relacionado com o Ebola. A metodologia dos funcionários do aeroporto pode não estar funcionando corretamente.

Durante uma epidemia de Sars, doença viral que afeta o sistema respiratório, testes térmicos em mais de 7 milhões de passageiros que deixavam o Canadá, Cingapura, China e Taiwan não detectaram casos da enfermidade, apontou um estudo.

Autoridades globais de saúde disseram que perigo de contágio em voos é baixo, já que passageiros infectados não são contagiosos durante o período de incubação.

Mas com a expansão da epidemia, essas políticas precisam ser reavaliadas, opinou J. Stephen Morrison, diretor do Centro Global de Políticas de Saúde do Centro de Estudos e Estratégias Internacionais.

“Esses procedimentos foram desenvolvidos quando a ameaça era mais controlável”, disse Morrison. “A ameaça agora está mais potencializada”, acrescentou.

Falhas. O NYT também apontou falhas nos procedimentos de atendimento ao primeiro paciente infectado por Ebola nos Estados Unidos. Mais de seis meses após o início da epidemia em países da África Ocidental, autoridades de saúde locais e federais norte-americanas têm mostrado uma resposta falha ao caso que apareceu nesta semana no continente americano.

Autoridade sanitárias confirmaram recentemente que uma semana depois de o homem da Libéria ter se sentido doente em Dallas, e quatro dias após ele ter sido posto em isolamento hospitalar, o apartamento onde ele mora com outras quatro pessoas não havia sido higienizado. Toalhas e lençóis que ele usou quando estava doente permaneciam na casa. Oficiais do Estado visitaram o local sem proteção.

Os oficiais disseram estar sendo difícil encontrar uma empresa interessada em entrar no apartamento para limpá-lo e remover roupas e lençóis, que foram postas em um saco plástico. Eles disseram agora ter contratado uma empresa que fará o trabalho em breve.

O atraso surge em meio a informações de que ao menos 100 pessoas podem ter mantido contato com Thomas Duncan e aparece um dia após o hospital ter admitido que errou o diagnóstico do paciente durante uma primeira consulta em que ele foi dispensado para voltar para casa.

Quando Duncan, de 42 anos, foi levado pela primeira vez ao Hospital Presbiteriano do Texas no dia 25 de setembro, ele foi examinado e mandado para casa com antibióticos por médicos que aparentemente não suspeitaram do Ebola.

Uma enfermeira ouviu do homem que ele havia viajado para a Libéria, país líder em registro de casos e mortes pelo vírus na atual epidemia. Mas o detalhe não foi comunicado ao restante da equipe médica do hospital.

Uma mulher que esteve com Duncan no primeiro atendimento contou à rede americana de televisão CNN que falou por duas vezes de forma enfática que o homem havia estado na Libéria. A mulher acrescentou que viu o paciente suar intensamente e sofrer com diarreia. Ele também vomitou no estacionamento do condomínio onde mora. Apesar de ter mantido contato com o infectado, a mulher não mostrou sintomas do vírus.

A falha em higienizar o apartamento do paciente e recolher lençóis e roupas revelou um problema mais amplo em lidar com materiais de pessoas infectadas pelo vírus. Responsáveis por hospitais disseram que enfrentam um grande desafio por terem recebido diferentes ordens de autoridades sobre como e onde eliminar esses materiais.

Os quatro membros da família que moram no apartamento onde também estava Duncan foram ordenados a permanecerem em isolamento e violações podem resultar em processos criminais e cíveis. Carros de polícia estavam estacionados próximo ao local para manter a imprensa afastada e a família isolada.

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