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Coquetel anticovid se mostra promissor, mas é preciso conhecer ação contra variantes do vírus

Anvisa aprovou neste mês o Regn-CoV2, segundo fármaco contra a doença; comunidade médica está otimista

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 05h00

Há muitas notícias tristes de falecimentos em todo País, com números expressivos diários que insistem em não diminuir. Porém, em meio a tudo isso, fomos informados pela nossa agência regulatória (Anvisa) que uma nova medicação recebeu a aprovação de seu colegiado, para uso emergencial, assim como tinha ocorrido meses atrás nos Estados Unidos, pelo FDA, e na Europa, pelo EMA.

Este é o segundo fármaco em pouco tempo e com proposta bem definida que iremos delinear neste espaço. A primeira aprovação recaiu sobre o remdesivir, um antiviral para uso em pacientes que necessitam de recurso de oxigênio, porém, sem a necessidade de ventilação mecânica. São pacientes internados em casos moderados e que se beneficiam atenuando o número de dias de internação hospitalar e reduzem a carga viral. Ainda outros estudos estão provavelmente no prelo de boas revistas científicas e devemos ser brindados por novidades com desfecho positivo. 

Drogas combinadas devem sugerir avanços no tratamento específico da covid-19, como venho pautando há tempos, fazendo analogia com a infecção pelo HIV/aids e a hepatite C que tomaram outra conotação após combinação de drogas. No caso da aids, ao elevar a imunidade e parar a replicação viral levou a melhor qualidade de vida para os pacientes e menor número de infecções oportunistas – consequentemente menor internação e taxa de óbitos. No segundo caso, vimos cura em mais de 90% dos casos aliados a efeitos adversos leves e transitórios, situação esta jamais vivida ate então.

Falando da segunda droga para uso emergencial anticovid, é uma combinação de dois anticorpos monoclonais neutralizantes, casirivimabe e imdevimabe (Regn-CoV2), que bloqueiam a entrada do vírus na célula. Esta nova opção para que todos lembrem foi utilizada pelo ex-presidente americano Donald Trump em meados de novembro. Apresenta um custo elevado, que terá de ser avaliado pelo Ministério da Saúde para incorporação no SUS. 

Critérios de elegibilidade deverão ser bem regulamentados. Baseado nisso, tanto o FDA quanto a Anvisa em seu uso emergencial já referem a esta necessidade baseado em idade avançada e em comorbidades crônicas. Tem possibilidade de uso em pacientes a partir de 12 anos e com peso superior a 40 quilos. O grande avanço: uma única dose de aplicação na veia. 

Devo mencionar o uso apenas em casos leves. Assim, em pacientes que fazem o diagnóstico por RT-PCR e tem sintomas já conhecidos em até dez dias e não necessitem de suplementação de oxigênio e não estejam internados. O melhor dos mundos. Dados apontam para redução de 70% de hospitalização e morte por covid-19. Temos de deixar bem claro que não se trata de nada preventivo. Não se adquire em farmácias e não é para uso domiciliar.

Se for aprovado para nosso SUS, deverá ter aval médico, porque após a administração do medicamento o paciente deverá ficar em observação ao menos por uma hora. Assim teremos de criar locais específicos – polos aplicadores e realizar treinamento para os profissionais da saúde. A rede privada provavelmente não fará a aquisição, por causa da baixa quantidade no mundo ainda da medicação e do interesse da farmacêutica, em um primeiro momento, em só oferecer a governos federais.

O Regn-CoV2 no tocante a efeitos colaterais mostra-se bastante seguro com reações de hipersensibilidade e alergias a medicação não chegando a 1%. A comunidade médica está bem otimista neste momento, porém, devemos nos ater que ainda falta a publicação cientifica da fase 3, e sem isto deixamos de ter dados da construção do estudo clínico.

Outro ponto importante: saber se estes anticorpos monoclonais neutralizantes têm ação na variante P.1, que circula em nosso País. Devemos ficar atentos também para as outras variantes e, até mesmo, para a indiana, que vem devastando aquela região e deve logo estar circulando em outras localidades. Cada dia tem se tornado desafiador a pesquisadores, médicos, governantes e demais profissionais de saúde. 

Apesar dos avanços no campo farmacológico, medidas preventivas devem ser mantidas: distanciamento social, uso de máscaras constante e lavagem das mãos. E vacinação em massa mantida. Seguimos confiantes em novas propostas e descobertas. Vamos vencer o vírus. Questão de tempo. Devemos ser resilientes.

*COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMÍLIO RIBAS

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