Tiago Queiroz/Estadão - 05/10/2021
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Ômicron: saiba por que a subvariante BA.2 passou a dominar a Dinamarca e o que isso significa

Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que o surgimento de novas mutações do coronavírus é normal e vai continuar ocorrendo no mundo. Até o momento, linhagem não preocupa autoridades sanitárias

Luiz Henrique Gomes, especial para o Estadão

02 de fevereiro de 2022 | 15h00

Desde que foi identificada em novembro de 2021, a variante Ômicron do coronavírus se tornou a linhagem do vírus Sars-Cov-2 mais contagiosa e prevalente no mundo, mas um subtipo seu chamou a atenção na Dinamarca na última semana por ter sido encontrado em 98% dos novos casos de covid-19 no país. Nomeada BA.2, a linhagem não é exatamente nova e inicialmente não representa uma mudança brusca da pandemia, mas começa a ser detectada em maior número e parece ser mais contagiosa.

Segundo os especialistas, a aparição da subvariante e a sua prevalência mostra um comportamento esperado dos vírus - e não apenas do coronavírus -, que sofrem contínuas mutações à medida que infectam as pessoas. Isso aconteceu anteriormente com outras variantes (a Delta tem mais de 120 linhagens identificados pelos cientistas, por exemplo) e vai continuar acontecendo com a Ômicron. No entanto, não significa necessariamente que todos os subtipos vão causar um impacto na saúde pública, como causou a Gama, a Delta e, agora, a Ômicron.

No caso da BA.2, trata-se de uma linhagem já encontrada em mais de 50 países, inclusive no Brasil. O primeiro registro foi feito em novembro, nas Filipinas, poucos dias após a África do Sul identificar a linhagem ‘original’ que deu nome a Ômicron, chamada BA.1. Somente a partir da segunda quinzena de janeiro, no entanto, a BA.2 passou a ser detectada em maior número. A Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido investiga as suas características.

Mas, afinal, o que diferencia a linhagem BA.2 da Ômicron da BA.1? E por que a BA.2 não é considerada uma nova variante, mas uma ‘subvariante’? Essas são algumas questões que o Estadão levou a especialistas para tirar dúvidas desta nova variante. Abaixo, veja as respostas:

O que é a linhagem BA.2 da Ômicron?

A linhagem BA.2 da Ômicron é uma mutação do vírus Sars-Cov-2, causador da covid-19, detectada primeiramente nas Filipinas, em novembro do ano passado. Sua descoberta aconteceu poucos dias depois da África do Sul identificar a linhagem ‘original’ da Ômicron, agora chamada BA.1 pelos cientistas para diferenciar do seu subtipo. Ela tem cerca de 20 mutações diferentes com relação à primeira identificada.

Entretanto, diferente da variante Ômicron com a Delta, o subtipo não apresenta mutações na sua estrutura genética que a distinguem de maneira relevante da linhagem identificada na África do Sul. Por isso, é considerada uma “irmã” da BA.1 e não é classificada até o momento como uma nova variante preocupante, como aconteceu anteriormente com a Beta, a Gama, a Delta e, por último, a Ômicron.

Todas as citadas têm em comum o fato de terem alterado os rumos da pandemia. No ano passado, a Gama foi responsável pela onda de infecções que chegou a causar 4 mil mortes em 24 horas no Brasil. Agora, a linhagem BA.1 da Ômicron causa uma explosão de casos em todo o mundo e iniciou uma nova onda de covid-19, no momento em que a pandemia parecia enfraquecer.

Até o momento, a BA.2 não apresenta essas características e, portanto, não chega a ser considerada uma nova variante. “Mutações são normais e acontecem o tempo inteiro. Mas nomear uma mutação como nova variante só acontece quando essa mutação chama a atenção e precisa ser melhor monitorada, por poder causar uma mudança nos rumos da pandemia”, explica o virologista e pesquisador do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), Anderson Brito.

Em quantos países a BA.2 já foi detectada?

Segundo a plataforma de dados Outbreak, com base nas informações do Gisaid (sistema em que os cientistas registram o sequenciamento genético dos vírus), 57 países já detectaram pelo menos uma infecção de covid-19 causada pela variante BA.2. No entanto, na maioria destes países ela ainda é menos prevalente do que a BA.1.

Destes países, os que registram mais casos são Dinamarca, Índia, Reino Unido, Suécia e Singapura. Na Dinamarca, ela se tornou responsável por 98% dos casos de covid-19 a partir da segunda quinzena de janeiro.

No Reino Unido, 426 casos da linhagem BA.2 foram identificados a partir do sequenciamento genético. A análise da  Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido sugere que ela tem se espalhado mais rápido do que a linhagem original, a BA.1. Apesar disso, a mutação não causou surpresa no país. “É da natureza dos vírus evoluir e sofrer mutações, então é de se esperar que continuemos a ver novas variantes emergirem”, disse um dos diretores da agência, Meera Chand, à Reuters.

A linhagem já foi identificada no Brasil?

Sim. Pelo menos três casos já foram identificados no Brasil, todos no estado de São Paulo. O primeiro foi detectado na última semana de dezembro em Sorocaba, no interior paulista. O segundo caso foi identificado na primeira semana de janeiro, em Guarulhos. O último foi detectado na capital paulista, neste domingo, 30.

As três detecções aconteceram graças ao sequenciamento genômico do vírus. Por isso, especialistas afirmam que é muito provável que haja mais casos espalhados da linhagem espalhadas no País. “Não conseguimos sequenciar todos os casos, então é muito provável que esse subtipo já esteja em outros lugares do Brasil que ainda não identificamos”, disse Anderson Brito.

O Brasil monitora pouco as variantes do coronavírus que circulam pelo País. Somente 0,39% dos 25,4 milhões de casos de covid-19 confirmados desde o início da pandemia foram sequenciados. O índice é inferior a países com nível socioeconômico semelhante, como o Chile (0,91%) e a África do Sul (0,82%). A Dinamarca, por exemplo, sequenciou mais da metade dos seus casos (54,35%).

Segundo Anderson Brito, isso dificulta saber quais variantes circulam no país. “É como procurar um fugitivo na cidade de São Paulo tendo apenas cinco policiais”, comparou. “Uma hora podemos encontrar, mas isso vai levar muito mais tempo do que levaria se houvesse mais sequenciamento genético.”

De acordo com o David Schlesinger, CEO da Mendelicks, laboratório genômico de São Paulo, é muito provável que a BA.2 repita o comportamento observado na Dinamarca e supere a BA.1 no Brasil nas próximas semanas. Ele cita como exemplo a própria chegada da BA.1 no País no início de dezembro, que em um mês superou a variante Delta.

A linhagem BA.2 é mais infecciosa do que a linhagem original da Ômicron?

Segundo um estudo preliminar divulgado na Dinamarca na última semana, a BA.2 é 1,5 vez mais contagiosa do que a BA.1, mas não apresenta uma diferença clínica no quadro da covid-19. As duas apresentam quadros mais leves da covid-19, se comparado com variantes anteriores.

Além disso, assim como a BA.1, ela também pode escapar às vacinas e gerar infecções em vacinados, apesar do quadro clínico da doença ser leve na maioria destes casos pela resposta imunológica. Por ser mais contagiosa, ela também tem mais chance de realizar esse escape.

Além disso, a resposta imunológica dos infectados pela BA.1 é efetiva para a BA.2. “Essa informação nos diz que é mais provável que aconteça parecido com o que aconteceu no Brasil quando a Delta chegou. Ela progressivamente substituiu a variante Gama, mas não causou uma nova onda de covid-19”, disse David Schlesinger.

Na Dinamarca, por exemplo, o alto contágio do novo subtipo não alterou os planos do país em pôr fim às restrições contra a covid-19. Nesta terça-feira, 1º, o país afirmou estar retornando 'à vida conhecida antes da covid-19'.

No entanto, na avaliação de Anderson Brito, o fato de ser mais contagiosa pode fazer a BA.2 chegar a locais em que a BA.1 ainda não chegou no Brasil e gerar novos repiques de casos. Apesar da linhagem original do Ômicron atingir fortemente os grandes centros do País, Brito chama a atenção para locais mais isolados, em que o vírus demora mais a chegar.  “As linhagens disputam entre si, como numa corrida, e por isso vence quem é mais contagioso”, explicou Anderson Brito.

A BA.2 pode escapar ao diagnóstico de covid-19 dos testes antígenos e RT-PCR?

Não. Assim como acontece com as outras variantes, uma pessoa que foi infectada pela BA.2 vai diagnosticar a covid-19 através dos testes antígenos e RT-PCR disponíveis na rede de saúde.

Entretanto, há uma pequena diferença com relação a Ômicron identificada na África do Sul: hoje, há testes RT-PCR que já conseguem identificar que uma pessoa foi infectada por esta variante na hora do exame. Isso não deve se repetir para a BA.2, por conta de umas das mutações. Neste caso, a identificação precisa ser feita pelo sequenciamento genômico.

Na prática, essa diferença afeta somente a base de dados científica que busca localizar as variantes do vírus Sars-Cov-2 em circulação. O diagnóstico da doença permanece o mesmo, assim como a sua notificação epidemiológica de um caso confirmado.

Além da BA.2, existem outras linhagens do Ômicron em circulação?

Sim. Cientistas já detectaram a linhagens BA.3 ainda em dezembro de 2021, mas essa mutação não mostrou a mesma força que as suas ‘irmãs’. Novas linhagens vão continuar aparecendo, mas algumas desaparecem porque não são tão contagiosas quanto as outras.

Para Brito, do ITpS, não seria surpreendente se, daqui a algumas semanas, já houvesse ao menos 30 novas linhagens da Ômicron identificadas. “É normal que isso aconteça, assim como a Delta tem mais de 120 linhagens. Enquanto houver transmissão do vírus, novas linhagens vão surgir”, declarou.

Como se proteger desta nova linhagem?

A prevenção contra a BA.2 é a mesma para qualquer mutação e variante do vírus Sars-Cov-2. Especialistas recomendam o uso de máscara, o distanciamento social e a higienização correta. A vacinação também continua necessária para reduzir os riscos de hospitalização e de transmissão do vírus.

A máscara mais indicada é a PFF2, pelo baixo custo no mercado, alta proteção e reuso. “Dois anos depois da pandemia, não há mais razões para usarmos máscaras de pano e outras, que oferecem uma proteção menor. Hoje, temos as máscaras PFF2 que oferecem segurança contra qualquer variante”, alertou Anderson Brito.

Apesar de oferecer menos riscos à saúde do que outras variantes, a Ômicron (tanto a BA.1 quanto a BA.2) tem uma capacidade de se espalhar muito rapidamente. Isso põe em risco a vida de pessoas mais vulneráveis a covid-19, como não-vacinados e pessoas com comorbidades. Por isso, especialistas continuam recomendando todas as medidas de prevenção.

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