Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Bacon, linguiça e salsicha podem causar câncer, diz OMS

Carnes processadas passam a integrar grupo de produtos cancerígenos no qual também estão o tabaco e o álcool

Fabiana Cambricoli e Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2015 | 13h33

Atualizado às 14h44

GENEBRA - Comer duas fatias de bacon por dia, ou apenas 50 grams de carne processada, aumenta a chance de desenvolver o câncer em 18%. Quem faz o alerta é a Organização Mundial da Saúde (OMS), que, num informe publicado nesta segunda-feira, 26, recomendou a redução no consumo de carnes como linguiças e presuntos, que foram colocadas na mesma categoria cancerígena que álcool, asbesto, cigarro e até plutônio. Todos esses produtos são classificados no grupo 1 de risco. 

A recomendação, alvo de uma forte polêmica, ainda indicou que as carnes vermelhas também representam uma ameaça. Mas diante de evidências limitadas para chegar a uma constatação definitiva, foram colocadas no grupo 2A, que aponta para produtos "provavelmente cancerígenos para humanos". 

A OMS não nega que as carnes tem benefícios para a saúde. Mas pede moderação e indica que até elevadas temperaturas, como no caso de um churrasco, também poderiam liberar elementos com certo impacto. O consumo de 100 g de carne vermelha por dia ainda aumentaria as chances de desenvolver a doença em 17%.

O maior problema estaria nas carnes que tiveram de passar por modificações para aumentar seu prazo de validade ou simplesmente para alterar seu gosto, como sal, defumado ou outros processos. 

A recomendação foi publicada pela OMS depois de um amplo estudo realizado pela Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, que avaliou todas as evidências científicas. 

Comer um sanduíche de bacon, porém, não é tão ameaçador como fumar e, para Kurt Straif, especialista da OMS, o risco "continua baixo". A ameaça, porém, está no consumo rotineiro desses produtos. Com o tempo, acumulam os elementos químicos no corpo humano.

"Diante do número elevado de pessoas que consomem carne processada, o impacto global na incidência do câncer é de relevância para a saúde pública", disse Straif. 

As estimativas apontam que 34 mil mortes por ano relativas ao câncer ocorrem por conta de dietas com alto teor de carne processada. O valor é muito inferior aos mais de 1 milhão de mortes anuais pelo cigarro ou 600 mil pela bebida. Ainda assim, a OMS insiste que sua recomendação tem como meta ajudar as pessoas a equilibrarem suas dietas.

Reações. A proposta gerou uma série de ataques e abriu o debate. A entidade insiste que tomou a decisão depois de um ano de considerações e encontros até mesmo com a indústria.

"Tudo é uma questão de moderação", disse Tim Key, da Universidade de Oxford. "Se você come isso todos os dias, de repente reduzir pode ser algo positivo. Mas ninguém está falando em deixar de comer carne."

Para os representantes do setor de carnes, a recomendação é um "equívoco". "Evitar carne numa dieta não é uma estratégia contra o câncer", disse o Painel Consultivo de Carnes, que reúne as principais indústrias do setor e que sugere que o combate esteja concentrado no cigarro, na obesidade e em outros fatores. 

Para Robert Pickard, representante da entidade, a recomendação da OMS vai "contra o sentido comum".

Para o Instituto de Carne da América do Norte, os cientistas que tomaram a decisão se basearam em "dados inconsistentes, fracos, velhos e sem credibilidade". Betsy Booren, representante do grupo, alertou que os dados foram "manipulados para garantir um resultado específico".

O grupo ainda ironizou as decisões científicas da OMS, alertando que não se pode hoje ficar próximo a um "vidro ensolarado, usar aloe vera, tomar vinho ou café ou comer algo na grelha".  "Se você é uma cabeleireira, também precisa mudar de emprego", comentou. 

Mas o Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer há anos já havia alertado para o risco das carnes processadas, orientado que não se consuma mais de 500 g de carnes por semana. 

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