Prefeitura de São Luis
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Bairros nobres de São Luís obedecem 'lockdown', mas periféricos descumprem decreto

Determinação de isolamento total foi anunciada pelo Governo do Maranhão na última terça-feira

Ernesto Batista, especial para O Estado

08 de maio de 2020 | 10h00

SÃO LUÍS - Com a declaração de 'lockdown' em São Luís na terça-feira, 5, as ruas da capital maranhense deveriam estar mais vazias para evitar a propagação do novo coronavírus, mas não é o que tem acontecido. Apesar de o governo estadual e da prefeitura da capital maranhense terem levantado cerca de 50 barreiras nas principais vias de tráfego da cidade, houve quem furasse o isolamento social. Foram registrados pontos de aglomeração e congestionamento, inclusive em um supermercado atacadista, inaugurado na quinta-feira, 7.

Nos bairros nobres de São Luís, onde a concentração de casos de covid-19 é a maior do Estado, no entanto, o distanciamento social e o fechamento dos estabelecimentos comerciais não essenciais têm sido observados. Na Península da Ponta d'Areia, onde está o metro quadrado mais caro da cidade, a movimentação de veículos praticamente se restringe aos caminhões-pipa, que entregam água potável aos condomínios de luxo da região, e a motos de delivery.

Em outros bairros de classe alta, como Ponta do Farol, Calhau e Renascença, a situação é parecida. A maior movimentação está em torno das farmácias, supermercados e petshops, estabelecimentos que estão autorizados a continuar a funcionar pelo decreto estadual nº 35.784, publicado no domingo, 4, que estabeleceu o fechamento de todos os estabelecimentos comerciais não essenciais por 10 dias - com isso, a medida vai até o próximo dia 14 de maio.

A principal via do comércio de São Luís, a Rua Grande, no centro da cidade, as lojas cerraram as portas e a via ficou completamente vazia, assim como o Centro Histórico, onde está o conjunto arquitetônico com casarões tombados pela Unesco e pelo Iphan, que é considerado o principal atrativo turístico da cidade.

Os transportes públicos também apresentaram queda no número de passageiros transportados. Segundo dados da secretaria Municipal de transportes urbanos (SMTT) e da Agência Estadual de Mobilidade Urbana (MOB), o volume de passageiros caiu de 600 mil passageiros diários nos sistemas urbano e semiurbano da Ilha de São Luís para cerca de 90 mil passageiros. Foi este dado, inclusive, que levou o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), a comemorar os sucesso do 'lockdown' no Twitter.

"O lockdown é um sucesso. Houve gigantesca redução de movimentação de pessoas em toda a cidade. Basta olhar a Rua Grande, as avenidas por onde centenas de milhares circulam, a redução em 85% no número de passageiros de ônibus. Fiscalização está ocorrendo com ponderação e bom senso", publicou Dino.

Em nota, o governo estadual reiterou o que tuitou o governador mais cedo. “O Governo do Maranhão enfatiza a adesão da população ao lockdown e sublinha a relevância da determinação na ilha de São Luís ao informar que houve redução de 85% do número de passageiros de transporte público. A Gestão Estadual reafirma a importância da participação popular na ação e agradece aos maranhenses que aderiram à medida", dizia o comunicado.

A diarista Josiane Sá, de 48 anos, que mora no Coroadinho e está em isolamento social voluntário há 45 dias, contou que as pessoas que vivem em seu bairro estão tentando ficar em isolamento social, mas estão indo às ruas. "Há momentos em que não se vê ninguém na rua, mas parece que, de repente, muita gente sai de casa. Meus pais, por exemplo, moram aqui perto e não param em casa. Um dos meus filhos não fica quieto, sempre tem um motivo pra sair. Todos têm suas justificativas prontas", afirmou Josiane, que mora com o marido e dois filhos, uma adolescente de 16 anos e um jovem de 20 anos, ambos estudantes.

Josiane ainda disse que o marido, que é pedreiro, também está desempregado e que o medo é do dinheiro acabar antes do fim da crise provocada pela covid-19. "Fizemos economias e ainda temos reservas, mas não são muito grande e logo vai acabar. Um alento é que ainda tem patrão pagando", afirmou.

FORA DO CIRCUITO NOBRE

Em contraste ao que disse Dino e ao que se viu na área nobre da cidade, nos bairros mais periféricos, como a Divinéia, a circulação de pessoas é maior. Na feira do Mangueirão, houve registros de aglomerações e parte do comércio não cerrou as portas. Em outro ponto da cidade, na avenida Guajajaras, até um supermercado atacadista foi inaugurado nesta quinta-feira, 7, e também gerou aglomeração, apesar das tentativas de organizar filas com distanciamento e da entrada de clientes controlada.

Na cabeceira da ponte Bandeira Tribuzzi e na avenida Daniel de La Touche também foram registrados congestionamentos. Na área do Coroadinho e da Cohab, a circulação de pedestres não diminuiu, principalmente em deslocamentos de percurso pequeno, como idas a estabelecimentos comerciais de gêneros alimentícios, como padarias e quitandas, também autorizados a funcionar pelo decreto estadual nº 35.784.

Este cenário de circulação de pessoas a pé nos bairros mais periféricos levou o juiz Douglas de Melo Martins, que determinou o lockdown, a ponderar sobre o sucesso do fechamento total e pensar em medidas mais enérgicas. “Eu penso que o futuro dependerá, agora, das outras providências que são necessárias adotar. Nos primeiros dias, é natural que a atuação seja só de conscientização, de orientação. E, do que eu percebi até agora, ninguém foi multado, ninguém foi punido, ninguém foi conduzido a alguma delegacia de polícia" disse o magistrado em entrevista a uma rádio local. E continuou: "Mas, ao que parece, ao meu sentir, talvez, já que só tivemos dois dias de orientação, dois dias de conscientização, dois dias só de esclarecimentos, penso que seria a hora de começar a aplicar punições."

MUDANÇA NA ROTINA

A funcionária pública Luiza Sousa, de 38 anos, que mora na área Itaqui Bacanga, é mãe de dois filhos pré-adolescentes e tem, há 38 dias, a oportunidade de trabalhar em cada office há 38. A percepção, ela conta, é de que o 'lockdown' está gerando dificuldades.

“As aulas online (dos filhos) são frustrantes. Simplesmente não dou conta de fazer os meninos acompanhar tudo, fazer dever, eles entenderem o conteúdo. Meu filho de 11 anos é do Colégio Militar, é o que mais dá trabalho: o conteúdo é maior e mais exigente e ele, ao ver o grau de dificuldade, não quer fazer, só passar o dia todo em joguinhos", disse.

Em outro ponto da cidade, em um condomínio de casas, a turismólogo e estudante de enfermagem Vivianne Dias, de 37, contou como está fazendo para lidar com dois filhos e os pais idosos. "A dificuldade está no fato de só ter um computador em casa e os dois estão tendo vídeoaulas. Estamos usando as redes sociais para manter a relação com o resto da família por redes sociais. Outras coisas que estamos fazendo é usar jogos de tabuleiro e fazer exercícios de dança com os meninos para entretê-los."

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