Baixa vacinação acende alerta para volta da pólio
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Baixa vacinação acende alerta para volta da pólio

OMS considera que o Brasil tem ‘alto risco’ de reintrodução da doença, eliminada do território nacional há 30 anos

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2022 | 07h30

Há um risco considerável de o Brasil perder todo o esforço feito por décadas em relação à paralisia infantil, doença provocada pelo vírus da poliomielite. Depois de causar medo na população brasileira entre as décadas de 1950 e 1980, o último caso registrado de um doente no País foi em 1989. Hoje, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), avalia as condições brasileiras como de “alto risco” para a volta da pólio.

O principal motivo é que desde a criação da primeira campanha nacional de imunização contra a doença, há 42 anos, a cobertura vacinal no Brasil nunca foi tão baixa. Dados mais recentes do Ministério da Saúde, referentes a 2021, indicam que a taxa de vacinação de três doses para o público-alvo, formado por crianças de até 1 ano, caiu de 96,55% em 2012 para 67,71% em 2021. Desde 2015, o Brasil não atinge a marca de 95%, considerada segura para manter a população protegida. “Quando as pessoas voltarem a viajar, existe o risco de o vírus entrar no País. Todo o esforço feito nos últimos 40 anos pode ser perdido”, afirma o epidemiologista José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. “O cenário é preocupante”, confirma o médico.

Em 2021, o continente americano comemorou o aniversário de 30 anos da última transmissão de poliovírus selvagem na região. A doença, porém, continua em circulação no mundo.

A pólio é considerada endêmica em dois países, Afeganistão e Paquistão, e, neste ano, surtos foram identificados em Israel e no Malawi, na África. Se o vírus entrar no Brasil, vai encontrar terreno fértil para se disseminar. Atualmente, 500 mil crianças brasileiras estão desprotegidas contra a pólio, segundo o pesquisador Akira Homma, assessor científico sênior de Bio-Manguinhos.

Falta de comunicação

Alguns fatores explicam a baixa taxa de cobertura no País. Um dos principais é o enfraquecimento das campanhas de vacinação, explica Moraes, responsável pela execução do plano de imunização contra a pólio no Estado de São Paulo nos anos 1980.

“O volume de comunicação era enorme. Em cada intervalo de um programa na televisão, tinha uma propaganda para falar da campanha. A população entendia a importância de imunizar as crianças e comparecia maciçamente às unidades de saúde”, recorda-se. “Em outubro de 2021, o Ministério da Saúde fez uma tentativa de recuperar a cobertura vacinal, mas ninguém ficou sabendo. A ação foi jocosamente chamada de campanha secreta.”

Outro motivo para a queda é o fato de que as pessoas mais novas deixaram de sentir medo de algumas doenças infecciosas. “Os casais de jovens que estão tendo filhos não sabem mais o que é pólio. Eles não viram crianças com sequelas e, por isso, perderam um pouco a percepção do perigo”, aponta o pediatra Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Até mesmo profissionais da saúde, que não tratam mais esses casos, cobram de maneira menos enfática a atualização do calendário vacinal dos pacientes. Se a gente não falar disso, corre o risco de criar uma geração que não dá mais valor à vacina.”

Nesse combo entram também as fake news associadas aos imunizantes. “A pandemia da covid-19 mostrou o quanto as vacinas são importantes. Depois da água potável, ela é a maior arma contra as doenças infecciosas. Por isso, os grupos antivacina fazem um desserviço à saúde pública”, aponta Sheila Homsani, diretora médica da Sanofi Vacinas.

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