Finbarr O'Reilly / The New York Times
Finbarr O'Reilly / The New York Times

Baixa taxa de mortalidade na África é um dos mistérios da covid-19 no mundo

Cientistas investigam se doentes e mortos não foram contabilizados ou se realmente o vírus causou menos danos no continente e qual é a razão

Stephanie Nolen, The New York Times

29 de março de 2022 | 15h00

KAMAKWIE, Serra Leoa – Aqui ninguém tem medo da covid.

O centro de resposta à covid-19 do distrito registrou apenas 11 casos desde o início da pandemia e nenhuma morte. No hospital regional, as enfermarias estão lotadas, mas com pacientes de malária. A porta da ala de isolamento da covid está trancada e coberta de ervas daninhas. As pessoas se aglomeram para casamentos, partidas de futebol, shows. Nenhum sinal de máscara.

Serra Leoa, país de 8 milhões de habitantes na costa da África Ocidental, parece uma terra inexplicavelmente poupada por uma praga. O que aconteceu – ou não aconteceu – aqui e em grande parte da África Subsaariana é um grande mistério da pandemia.

A baixa taxa de infecções, hospitalizações e mortes por coronavírus na África Ocidental e Central é o foco de um debate que vem dividindo cientistas no continente e no mundo todo. Os doentes e mortos simplesmente não foram contabilizados? Se a covid de fato causou menos danos aqui, qual é a razão? Se tem sido igualmente danosa, o que é que não estamos conseguindo enxergar?

As respostas “são relevantes não apenas para nós, mas têm implicações para o bem público maior”, disse Austin Demby, ministro da Saúde de Serra Leoa, em entrevista em Freetown, a capital.

A afirmação de que a covid não é uma ameaça tão grande na África provocou debate sobre se o esforço da União Africana para vacinar 70% dos africanos contra o vírus este ano é o melhor uso dos recursos de saúde, considerando que a devastação de outros patógenos, como a malária, parece muito maior.

Nos primeiros meses da pandemia, havia o temor de que a covid pudesse eviscerar a África, devastando países com sistemas de saúde tão fracos quanto o de Serra Leoa, onde há apenas três médicos para cada 100 mil pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde. A alta prevalência de malária, HIV, tuberculose e desnutrição foi vista como um gatilho para o desastre.

Mas não aconteceu nada disso. A primeira iteração do vírus que correu o mundo teve um impacto comparativamente pequeno aqui. A variante Beta devastou a África do Sul, assim como a Delta e a Ômicron, mas grande parte do resto do continente não registrou números de mortes semelhantes.

No terceiro ano da pandemia, novas pesquisas mostram que não há mais dúvidas de que a covid se espalhou por toda a África.

Estudos que testaram amostras de sangue em busca de anticorpos para o SARS-CoV-2, nome oficial do vírus que causa a covid, mostram que cerca de dois terços da população na maioria dos países subsaarianos realmente possuem esses anticorpos. Como apenas 14% da população recebeu qualquer tipo de vacina contra a covid, os anticorpos são predominantemente da infecção.

Uma nova análise liderada pela OMS, ainda não revisada por pares, sintetizou pesquisas de todo o continente e descobriu que 65% dos africanos haviam sido infectados até o terceiro trimestre de 2021, maior do que a taxa em muitas partes do mundo. Apenas 4% dos africanos haviam sido vacinados quando esses dados foram coletados.

Então o vírus está presente na África. Mas será que está matando menos pessoas?

Algumas especulações se concentraram na relativa juventude dos africanos. A idade média no continente é de 19 anos, em comparação com 43 na Europa e 38 nos Estados Unidos. Quase dois terços da população na África Subsaariana têm menos de 25 anos e apenas 3% têm 65 anos ou mais. Isso significa que, em termos comparativos, muito menos pessoas viveram o suficiente para desenvolver problemas de saúde (doenças cardiovasculares, diabetes, doenças respiratórias crônicas e câncer) que podem aumentar drasticamente o risco de quadros graves e morte por covid. Os jovens infectados pelo coronavírus costumam ser assintomáticos, o que pode explicar o baixo número de casos registrados.

Levantaram-se muitas outras hipóteses. As altas temperaturas, o fato de que grande parte da vida acontece ao ar livre, a baixa densidade populacional em muitas áreas e até a limitada infraestrutura de transporte público podem estar dificultando a propagação do vírus. E a exposição a outros patógenos, incluindo coronavírus e infecções mortais, como febre de Lassa e Ebola, talvez tenha de alguma forma oferecido proteção.

Desde que a covid atingiu o sul e o sudeste da Ásia no ano passado, ficou mais difícil aceitar essas teorias. Afinal, a população da Índia também é jovem (com uma idade média de 28 anos), e as temperaturas no país também são relativamente altas. Mas os pesquisadores descobriram que a variante Delta causou milhões de mortes na Índia, muito mais do que as 400 mil registradas oficialmente. E as taxas de infecção por malária e outros coronavírus são altas em lugares que também registraram altas taxas de mortalidade por covid, inclusive a Índia.

Então, as mortes por covid na África simplesmente não são contabilizadas?

A maioria dos rastreadores globais de covid não registra casos em Serra Leoa porque os testes para o vírus são efetivamente inexistentes aqui no país. Sem testes, não há casos a relatar. Um projeto de pesquisa da Universidade de Njala, em Serra Leoa, descobriu que 78% das pessoas têm anticorpos para esse coronavírus. No entanto, Serra Leoa registrou apenas 125 mortes por covid desde o início da pandemia.

A maioria das pessoas morre em casa, não em hospitais, seja porque não conseguem chegar a um centro médico ou porque suas famílias as levam para morrer em casa. Muitas mortes nunca são registradas pelas autoridades civis.

Esse padrão é comum em toda a África Subsaariana. Uma pesquisa recente da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África revelou que os sistemas oficiais registram apenas uma em cada três mortes.

O único país subsaariano onde quase todas as mortes são contadas é a África do Sul. E pelos dados fica claro que a covid matou muitas pessoas naquele país, muito mais do que as mortes por vírus relatadas. Os dados de excesso de mortalidade mostram que, entre maio de 2020 e setembro de 2021, cerca de 250 mil pessoas morreram por causas naturais a mais do que o previsto para o período, com base no padrão dos anos anteriores. Os aumentos nas taxas de mortalidade correspondem aos dos casos de covid, sugerindo que a causa foi o vírus.

O Dr. Lawrence Mwananyanda, epidemiologista da Universidade de Boston e conselheiro especial do presidente da Zâmbia, disse não ter dúvidas de que o impacto na Zâmbia foi tão grave quanto na África do Sul, mas que as mortes zambianas simplesmente não foram registradas por seu sistema precário. A Zâmbia, país de mais de 18 milhões de habitantes, registrou 4 mil mortes por covid-19.

“Se está acontecendo na África do Sul, por que não aconteceria aqui?”, ele disse. Na verdade, acrescentou ele, a África do Sul tem um sistema de saúde muito mais robusto, o que deveria significar uma taxa de mortalidade mais baixa, em vez de mais alta.

Uma equipe de pesquisa que ele liderou descobriu que, durante a onda Delta na Zâmbia, 87% dos corpos nos necrotérios dos hospitais estavam infectados com covid. “O necrotério estava cheio. Não tem nada diferente – a diferença é que temos dados muito ruins”.

A Economist, que vem acompanhando o excesso de mortes ao longo da pandemia, mostra taxas de mortalidade semelhantes em toda a África. Sondre Solstad, que gerencia o modelo africano, disse que houve algo entre 1 milhão e 2,9 milhões de mortes em excesso no continente durante a pandemia.

“Seria lindo se os africanos fossem poupados, mas não é o que está acontecendo”, disse ele.

Mas muitos cientistas que acompanham a pandemia discordam. Não é possível que centenas de milhares ou mesmo milhões de mortes por covid possam ter passado despercebidas, dizem eles.

“Não vimos enterros em massa na África. Se tivesse acontecido, teríamos visto”, disse o Dr. Thierno Baldé, que dirige a resposta de emergência da covid da OMS na África.

“Uma morte na África nunca passa despercebida, por mais que sejamos ruins em fazer os registros”, disse o Dr. Abdhalah Ziraba, epidemiologista do Centro Africano de Pesquisa em Saúde e População, em Nairóbi, no Quênia. “Tem velório, tem anúncio: os velórios nunca acontecem em menos de uma semana, porque são grandes eventos. Para quem está sentado lá em Nova York com a hipótese de que as mortes não estão sendo registradas – bom, talvez não tenhamos os números mais precisos, mas a percepção é palpável. Na mídia, no seu círculo social, você sabe se as pessoas estão morrendo”.

Demby, o ministro da saúde de Serra Leoa, que é epidemiologista por formação, concordou. “Nossos hospitais não ficaram lotados. E não estão”, disse ele. “Não há evidências de que esteja ocorrendo excesso de mortes”.

Mas, então, o que poderia estar mantendo a taxa de mortalidade mais baixa?

Embora a vigilância sanitária seja fraca, Demby reconheceu, os serra-leoneses têm a experiência recente e terrível do Ebola, que matou 4 mil pessoas no país em 2014-16. Desde então, disse ele, os cidadãos estão em alerta para qualquer agente infeccioso que possa estar matando pessoas nas suas comunidades. E não continuariam frequentando eventos se estivesse acontecendo algo do tipo, disse ele.

O Dr. Salim Abdool Karim, que está na força-tarefa dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças para a covid e que fez parte da equipe de pesquisa que rastreia o excesso de mortes na África do Sul, acredita que o número de mortos em todo o continente provavelmente é parecido com o de seu país. Simplesmente não há razão para que gambianos ou etíopes sejam menos vulneráveis à covid do que os sul-africanos, disse ele.

Mas ele também disse que estava claro que não havia grandes números de pessoas chegando aos hospitais com problemas respiratórios. A população jovem é claramente um fator-chave, disse ele, e algumas pessoas mais velhas que morrem de derrames e outras causas induzidas por covid não estão sendo registradas como mortes por coronavírus. Muitas não chegam ao hospital e suas mortes não são registradas. Mas outras não estão adoecendo sob as taxas vistas em outros lugares, e isto é um mistério que precisa ser desvendado.

“É extremamente relevante para coisas tão básicas quanto desenvolvimento e distribuição de vacinas”, disse o Dr. Prabhat Jha, que dirige o Centro de Pesquisa em Saúde Global em Toronto e está liderando o trabalho para analisar as causas de morte em Serra Leoa.

Pesquisadores que trabalham com Jha estão usando novos métodos – como procurar qualquer aumento na receita de obituários em estações de rádio nas cidades de Serra Leoa nos últimos dois anos – para tentar ver se as mortes poderiam ter passado despercebidas, mas ele disse que estava claro que não havia uma maré de pessoas desesperadamente doentes.

Algumas organizações que trabalham no esforço de vacinação contra a covid dizem que as taxas mais baixas de doença e morte devem estar levando a uma reavaliação da política. John Johnson, conselheiro de vacinação dos Médicos Sem Fronteiras, disse que vacinar 70% dos africanos fazia sentido um ano atrás, quando parecia que as vacinas poderiam fornecer imunidade a longo prazo e possibilitar o fim da transmissão da covid-19. Mas agora que está claro que a proteção diminui, a imunidade coletiva não parece mais viável. E, portanto, uma estratégia de imunização que se concentre em proteger apenas os mais vulneráveis seria, sem dúvida, um uso melhor dos recursos em um lugar como Serra Leoa.

“Será que é o mais importante para se tentar fazer em países onde há problemas muito maiores com malária, poliomielite, sarampo, cólera, meningite, desnutrição? É nisso que queremos gastar nossos recursos nesses países?”, perguntou ele. “Porque, neste momento, não é para essas pessoas: é para tentar evitar novas variantes”.

E novas variantes da covid representam o maior risco em locais com populações mais velhas e altos níveis de comorbidades, como obesidade, disse ele.

Outros especialistas alertaram que o vírus continua sendo um inimigo imprevisível e que reduzir os esforços para vacinar os africanos subsaarianos ainda pode levar à tragédia. “Não podemos ficar complacentes e presumir que a África não vai seguir o caminho da Índia”, disse Jha.

Ainda pode surgir uma nova variante tão infecciosa quanto a Ômicron, mas mais letal que a Delta, alertou ele, deixando os africanos vulneráveis, a menos que as taxas de vacinação aumentem significativamente. “Precisamos realmente evitar a ideia arrogante de que toda a África está segura”, disse ele.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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