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Daniel Martins de Barros
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Baseado em evidências

Para psiquiatra, adotar certezas absolutas como base para políticas nos aproxima do fundamentalismo

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2018 | 03h00

Ano novo, presidente novo. Em dois dias, Jair Bolsonaro assumirá a cadeira presidencial cercado de expectativas. Parte dos brasileiros espera o apocalipse enquanto outros acreditam numa espécie de redenção. 

Não acredito nos extremos, mas tenho algumas preocupações sérias. Bolsonaro – como de resto a quase totalidade de nossos políticos – não se importa muito com evidências. O discurso simplista e frases feitas com potencial para virar meme até aqui foram mais importantes para ele do que uma verificação dos fatos – sempre difíceis de analisar e não raras vezes bastante incômodos. 

Acompanhando notícias sobre algumas pautas, resolvi fazer minha parte e elencar algumas sugestões para tentar trazer um pouco mais de evidência para debates sensíveis que se avizinham. 

Criacionismo e evolucionismo. Esse tema rodou o noticiário quando o general Aléssio Ribeiro Souto foi cotado para o Ministério da Educação – ele defendia ensinar criacionismo nas escolas públicas. Embora ele não tenha sido indicado, o assunto tem grande chance de voltar à tona. Minha sugestão é tão simples que chega a ser óbvia: deixemos discursos religiosos para as aulas de religião. Uma teoria só é chamada de científica se puder ser submetida a testes que a comprovem ou derrubem. O criacionismo não pode. Então, que fique de fora das aulas de ciência. 

Não significa que ele é feio, imoral, tolo. Ele tem seu lugar no pensamento humano, e não tem problema apresentar essa visão de mundo para as crianças (eu mesmo acredito em coisas nada científicas, como a existência de Deus). Mas é fundamental marcar a distinção. Seria como se eu atendesse um paciente e no final dissesse: “O senhor está ouvindo vozes. Eu digo que é esquizofrenia, mas há quem diga que são espíritos. O senhor prefere medicação ou exorcismo?” 

Parece óbvio que tenhamos de separar as coisas. Se uma abordagem quer ser considerada científica, ela não pode oferecer soluções sem base cientifica. Eu disse que era óbvio.

Educação sexual. Quem está realmente interessado na saúde emocional e sexual dos estudantes não deveria fechar os olhos às evidências. O Fundo de Populações das Nações Unidas tem um grande estudo sobre as diversas formas de abordar sexualidade nas escolas, e os dados não deixam margem à dúvida. Ao contrário do que temem alguns, programas de educação sexual bem estruturados não ficam “dando ideias” para nossas crianças.

Ironicamente acontece o contrário. Adolescentes envolvidas em programas que apregoam apenas a abstinência sexual têm mais risco de engravidar. E, para desespero de deputados conservadores, incluir a discussão sobre gênero é mais eficaz para reduzir DST e gravidez na adolescência do que abordagens que ignoram tais questões.

Armamento. Um dos temas que têm defensores mais arraigados. Além de a ideologia política dificultar o diálogo, as evidências sempre podem ser questionadas. Não é fácil fazer pesquisas comparando isoladamente o impacto do armamento da população nas taxas de violência de países, Estados ou mesmo cidades. Um dado, contudo, aparece recorrentemente em pesquisas ao redor do mundo, em diferentes países e diferentes culturas. Armar a população não reduz a violência urbana e não protege contra assaltos ou latrocínios. Os números variam, mas não há dúvida que perto de 200 pessoas morrem por suicídio, homicídio ou acidente para cada assalto evitado. Um estudo brasileiro calculou que a chance de ser morto durante um assalto é 180 vezes maior quando a vítima está armada e reage.

Trata-se de uma lista breve e sem respostas definitivas. Breve porque escola sem partido, políticas sobre drogas, Enem e praticamente qualquer coisa caberia aqui. E provisória porque todos os temas acima são passíveis de questionamento se houver evidências em contrário. Mas isso é muito mais mérito do que defeito, pois quando adotamos certezas absolutas e inquestionáveis como base para políticas nos aproximamos perigosamente do fundamentalismo, ingrediente que agrada muito qualquer ditadura. 

DANIEL MARTINS DE BARROS É PSIQUIATRA

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