Reprodução/TV Globo
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BBB 22: Não se deve normalizar as restrições alimentares, diz nutricionista sobre participantes

Mestre em saúde coletiva e pesquisadora do corpo gordo, Mirani Barros criticou ‘as simplificações’ na forma de tratar temas complexos através do programa

Entrevista com

Mirani Barros, nutricionista, mestre em saúde coletiva e pesquisadora

Júnior Moreira Bordalo, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2022 | 15h00

A atual edição do Big Brother Brasil está levantando um debate sobre os hábitos alimentares de alguns participantes, que vêm chamando a atenção. O programa, conhecido por fomentar discussões sociais diversas nas duas últimas décadas, agora está no foco por questões como dietas restritivas, compulsão e gordofobia

“O principal problema na minha opinião são as simplificações. Esse é um debate bastante complexo, que envolve o modo como socialmente percebemos e acessamos a comida, o modo como valoramos os diferentes corpos, e os processos históricos e culturais que fundam esses nossos entendimentos”, disse Mirani Barros, nutricionista, mestre em saúde coletiva e pesquisadora do corpo gordo e integrante do debate público da gordofobia e saúde pública, em entrevista ao Estadão.

De um lado está a modelo Bárbara Heck, que se alimentou na última semana apenas de café, ovos e frutas (sumo de limão), passou horas sem comer e quando o faz, reclama de dores no estômago. Do outro, encontra-se o ator Arthur Aguiar, que tem usado o programa para fugir do “plano alimentar” passado pela sua esposa, a life coach Maíra Cardi, e se "descontrolado" com as comidas "não saudáveis" da casa.

“Nota-se um estilo mais punitivo para Bárbara e um tom mais jocoso quando se referem ao Arthur. Embora o desejo pelo padrão estético e os transtornos alimentares e nutricionais atinjam homens e mulheres, não é verdade que esse fenômeno aconteça de maneira igual entre os gêneros”, frisou. 

Na contramão dessa situação, o programa ainda conta o ator e cantor Tiago Abravanel falando sobre a aceitação do próprio corpo e narrando experiências de gordofobia que já se deparou. “É uma oportunidade para um debate sobre um reposicionamento dos corpos, redistribuição dos valores para cada corpo com suas especificidades, estruturando um pensamento sobre a diversidade corporal como política, livre da ideia do padrão, e mais próximos de uma racionalidade real e gentil com nossas existências”, destacou.

Você acredita que o BBB pode ajudar na discussão sobre hábitos alimentares?

Não penso que o programa tenha intencionalmente o objetivo de discutir ou colocar em pauta este ou aquele assunto. Contudo, é preciso compreender que a reunião desses diversos elencos ao longo de duas décadas, também reuniu e confrontou realidades, experiências de vida, perspectivas e julgamentos variados para uma ampla gama de temas, que suscitaram, reforçaram e até confundiram uma série de debates públicos, como com a questão dos LGBTs, dos feminismos, do racismo e de classe.

No aspecto alimentar não é diferente, lembrando que não é a primeira vez que o BBB é vitrine para esse assunto. Na sua primeira edição, a participante Leka teve crises bulímicas, que é um transtorno alimentar, durante sua estadia na casa, sendo um assunto tratado com os colegas de confinamento, que se desdobrou como debate também além do programa.

Então, sendo o BBB esta reunião eclética de sujeitos, expostos 24 horas, e que superlativa qualquer gesto pela audiência que tem, alguns debates - que já pulsam na sociedade brasileira - podem ganhar os holofotes, sim. Penso que é o que ocorre com as questões sobre o corpo, o comer, e a comida (parafraseando o título da doutora Lígia Amparo da Silva Santos).

Esse debate está posto e amadurecido na sociedade, não digo resolvido, mas bastante amadurecido, então é algo sobre o que se tem opinião e naturalmente pode gerar importantes discussões. O BBB é mais um lugar por onde esse debate pode acontecer, nem melhor, nem pior que qualquer outra esquina da internet, ou de grupos, ressaltando que não é ele (o programa) quem lança, chancela ou valida, mas que compõe, pelo fenômeno que é em audiência, assumindo-se como um lugar relevante.

Quais problemas que a reprodução das imagens dos participantes atuais e seus hábitos alimentares, associada ao debate acalorado nas redes sociais, traz para a vida das pessoas?

O principal problema na minha opinião são as simplificações.  Esse é um debate bastante complexo, que envolve o modo como socialmente percebemos e acessamos a comida, o modo como valoramos os diferentes corpos, e os processos históricos e culturais que fundam esses nossos entendimentos. Desse modo, os memes, as imagens e as edições de vídeos não apenas estruturam nas redes sociais uma discussão superficial, como reforçam estereótipos que, além de fomentarem uma série de “hates”, não agregam na mudança de paradigma sobre nossas conturbadas relações contemporâneas com o corpo e a comida.

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Os memes, as imagens e as edições de vídeos não apenas estruturam nas redes sociais uma discussão superficial, como reforçam estereótipos
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Mirani Barros, Nutricionista e pesquisadora

No programa, a modelo Bárbara Heck virou assunto ao fazer grandes intervalos entre as refeições, alimentando-se apenas de café, ovo, frutas e sumo de limão. A participante já relatou dores de estômago. Quais gatilhos que cenas de extrema restrição alimentar podem causar?

É difícil responder o que esse episódio em específico poderia causar individualmente nas pessoas. Por outro lado, podemos pensar o quanto a restrição alimentar, os jejuns, e toda uma série de práticas sobre “o não comer” estão cada vez mais normalizadas. A modelo que teve seus hábitos e técnicas de evitação alimentar expostos no BBB é uma pessoa entre milhares, de uma maioria de mulheres, como apontam diversas pesquisas nacionais e internacionais. Então, penso que o pior desdobramento ou “gatilho”, seja o de normalizar cada vez mais essas relações de adoecimento como o corpo e a comida, além de banalizar o sofrimento envolvido nos diversos transtornos alimentares.

Por causa dos seus hábitos, a modelo foi julgada pelos próprios colegas de confinamento. Quais seriam os cuidados necessários para uma abordagem nesta situação?

É um tema e uma condição bastante delicada, que passa muitas vezes pela distorção da própria imagem, e por uma negação contundente das formas e tamanho do próprio corpo ao longo de toda a vida. O prejuízo pode ser imenso, uma vez que o corpo é o meio e produto das nossas experiências, nosso limite com o mundo e com os outros. Não é possível ter plenas experiências sem um corpo, ou negando o corpo que se tem.

Assim, mais uma vez reforço que a abordagem por todos, mas aqui me dirijo àqueles que não são terapeutas, deve ser a mais gentil e compreensiva possível, livre dos julgamentos mais simplórios, e sempre oferecendo apoio, porque não se trata de um simples querer, e ainda que fosse um simples querer ser magra, ou “livre do corpo”, o querer também é algo que se constrói culturalmente. Já os terapeutas habilitados, esses têm as ferramentas para apoiar e caminhar em outras direções quando o assunto envolve aversão ao comer, excesso de exercício e negação do corpo que se tem.

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A abordagem por todos deve ser a mais gentil e compreensiva possível, livre dos julgamentos mais simplórios, e sempre oferecendo apoio
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Mirani Barros, Nutricionista e pesquisadora

Como as pessoas que consomem esse conteúdo podem se proteger? O público deve tentar enxergar o programa apenas como entretenimento?

O programa é entretenimento, e, na verdade, é só isso. Ele não é um debate de acadêmicos, ou uma conferência de especialistas. Penso que entender isso é o principal para se proteger da má informação ou da normalização do que não se deve normalizar, como as restrições alimentares. Agora, não é porque é entretenimento que não pode levantar ou contribuir com debates relevantes, ou salpicar alívio cômico em temas nem sempre palatáveis, temas espinhosos. Vejo como pode se dar num filme, ou numa obra literária, é entretenimento, pode trazer algumas reflexões, mas entender isso é fundamental para sacar que as informações mais seguras estão além do programa e dos memes que ele gera.

Por outro lado, o ator e cantor Arthur Aguiar - casado com a "coach de emagrecimento" Maíra Cardi - tem viralizado ao demonstrar felicidade por comer alimentos ricos em açúcar, carboidratos e gorduras. O que essa situação pode significar?

Essa pergunta traz alguns pontos importantes, primeiro sobre o que venha ser coach de emagrecimento. Eu não sei realmente qual o domínio dessa ocupação profissional e, portanto, não faço aqui nenhum juízo de valor, mas é importante que seja esclarecido que terapia alimentar e nutricional, e dietoterapia são atividades privativas de nutricionistas, e segundo o Conselho de Nutricionistas a Sra. Maíra Cardi não tem essas prerrogativas. Assim, uma coach de emagrecimento pode fazer coisas que eu não sei dizer, mas não pode prescrever dieta, nem aconselhar e orientar a alimentação de indivíduos e grupos sadios e adoecidos.

Segundo, é nesse cenário de dúvidas sobre a conduta não habilitada de Maíra Cardi que Arthur Aguiar se insere antes de entrar no programa, sendo submetido a um esquema de restrições alimentares. Terceiro, o comportamento do ator com as comidas de alta densidade energética, muito calóricas, com muito açúcar e gorduras, mostrado nas edições do programa e frequentemente reproduzidos nas redes sociais, é o extremo de uma mesma linha.

Quero dizer, se por um lado os transtornos envolvem a evitação da alimentar e as restrições como técnica nesses fluxos, do outro lado estão as compulsões alimentares, uma nutrição igualmente conturbada, e uma relação com alimentação igualmente ruim e afetada por fatores externos, históricos e culturais. Não digo com isso que o ator Arthur Aguiar seja um compulsivo alimentar, nem há parâmetros para isso, mas nesse espaço entre esse não comer e comer compulsivamente, existem uma infinidade de maneiras que podem servir de alertas sobre o modo como a pessoa se relaciona com a comida, se de forma mais equilibrada e satisfeita, prazerosa, racionalizada ou com culpa e de forma compensatória e mais emocional.

Qual a diferença das manifestações (cobranças) e dos efeitos do transtorno alimentar em homens e mulheres?

Acredito que a diferença entre se cobrar certo padrão estético e sofrer um transtorno alimentar e nutricional é a gradação desse fenômeno. Quero dizer que ambos são produtos da crença e perseguição do padrão corporal. Diferentes graus de satisfação com o corpo em relação ao padrão é que poderão tornar essa busca mais ou menos patológica.

O transtorno alimentar e nutricional é um adoecimento físico, mas também mental. A exacerbação pela busca do padrão pode levar aos transtornos alimentares e nutricionais. Quanto as diferentes repercussões sobre os hábitos de Bárbara Heck e Arthur Aguiar, nota-se um estilo mais punitivo para Bárbara e um tom mais jocoso quando se referem ao Arthur.

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O transtorno alimentar e nutricional é um adoecimento físico, mas também mental. A exacerbação pela busca do padrão pode levar a transtornos
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Mirani Barros, Nutricionista e pesquisadora

Sobre isso, podemos ressaltar uma importante questão de gênero quanto se trata da regulação social do corpo e do comer. Embora o desejo pelo padrão estético e os transtornos alimentares e nutricionais atinjam homens e mulheres, não é verdade que esse fenômeno aconteça de maneira igual entre os gêneros.

O modo como essas cobranças pesam mais sobre as mulheres está amplamente reportado na literatura científica, haja vista o modo como o corpo da mulher ao longo da história, nas sociedades ocidentais, foi objeto da intervenção e do desejo idealizado de um outro masculino, mas talvez, sobretudo, pelo modo como, na era moderna, o corpo da mulher tornou-se mais que um objeto da intervenção médica, uma invenção da médica a partir de toda sua redesignação anatômica e fisiológica.

Esse fato histórico, que parece assim tão distante de nós, é na verdade o que se corresponde a essa naturalização das regulações e das intervenções cirúrgicas, cosméticas, da moda, ginásticas, farmacêuticas e, sim, dietéticas.

Afinal, quais são os sinais de que alguém tem um transtorno alimentar?

Os transtornos alimentares são uma forma de adoecimento com implicações físicas, sociais e psicológicos, e normalmente marcados por mudanças na forma de se alimentar e de controlar o peso ou a forma corporal, mas também acabam impactando e alterando o estilo das interações e a vida social.

É comum que um transtorno alimentar se manifeste pela diminuição da ingestão da quantidade de comida durante as refeições, por episódios de compulsão, pela adoção de práticas extremas para controlar o peso, pela perda de peso repentina, diminuição da vida social, perda do apetite sexual, além de outras.

E há formas clínicas distintas que podem se manifestar isoladamente ou em associação. São elas: a bulimia, em que o paciente consome grandes quantidades de alimento e, logo em seguida, compensa o excesso com uso de laxantes ou diuréticos, períodos de jejum forçado ou vômito provocado. A anorexia, cujas taxas de mortalidade que chegam a 20%, na qual o paciente diminui drasticamente as quantidades ingeridas, podendo chegar ao ponto de parar de se alimentar, complicando o metabolismo e a capacidade de manutenção e funcionamento dos órgãos e sistemas do organismo.  A compulsão alimentar que envolve episódios de exagero que aumentam o risco de obesidade, hipertensão e doenças cardiovasculares. E mais recentemente começa-se a discutir a vigorexia, definido como um transtorno dismórfico, em que pessoas fortes e musculosas se enxergam fracas, implicando em certa medida, além dos exercícios em excesso, uma série de modulações dietéticas, anabolizantes e esquemas de suplementação nutricional.

Existe uma relação entre uma dieta restritiva e compulsão? Qual?

Não se pode afirmar que o hábito por dietas restritivas vai evoluir invariavelmente para anorexia, a bulimia, a compulsão ou qualquer outro tipo de transtorno alimentar, em suas formas isoladas ou combinadas. Isto porque o desenvolvimento do transtorno combina múltiplos aspectos psicológicos, fisiológicos, sociais e culturais.

Mas sem dúvida eu posso afirmar que uma pessoa adepta de dietas restritivas e medidas extremas para controlar o peso já está comprometendo a saúde física e colocando a saúde mental em risco. Estudos epidemiológicos apontam correlação entre as dietas restritivas e episódios de compulsão alimentar, sejam precedendo os dias de jejum ou após estes, mas não se pode com esses estudos afirmar causa, apenas uma correlação.

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Posso afirmar que uma pessoa adepta de dietas restritivas e medidas extremas para controlar o peso já está comprometendo a saúde física e colocando a saúde mental em risco
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Mirani Barros, Nutricionista e pesquisadora

Podemos pensar que dietas restritivas são um motivo para acender um sinal amarelo em relação aos transtornos. Quero dizer com isso que não é verdadeiro que todo adepto de dieta restritiva venha ter um transtorno alimentar, mas toda pessoa com transtorno alimentar reportará alguma questão com peso, com a comida, e alguma prática extrema em algum momento da vida.

Ao mesmo tempo, na atual edição do BBB, Tiago Abravanel levanta o tema de autoaceitação corporal, relatando experiências passadas de gordofobia. Qual a melhor forma de fortalecer o debate da pauta antigordofobia na sociedade?

Penso que exatamente fazendo esse contraponto entre corpos gordos e emagrecidos, questionando esse ideal de beleza e saúde, fazendo perceber que as mais variadas doenças e as mesmas doenças, inclusive, estão disponíveis para todos os tipos de corpos, assim como a saúde. Nesse sentido, a edição atual do BBB tem tensionado essas verdades quase inquestionáveis sobre a magreza e a gordura.

Todo esse cenário oferece uma oportunidade para um debate sobre um reposicionamento dos corpos, uma redistribuição dos valores para cada corpo com suas especificidades, estruturando um pensamento e um debate sobre a diversidade corporal como política, um portal para uma nova verdade sobre os corpos, livre da ideia do padrão, e mais próximos de uma racionalidade perceptiva, mais real e gentil com nossos corpos e nossas existências.

De que forma a "demonização da comida" contribui para o estigma sobre o corpo gordo?

Existe uma associação direta entre a comida e o corpo gordo que não é necessariamente real. Não são raras as pessoas magras que se alimentam de guloseimas e tem uma alimentação de muita baixa qualidade nutricional, do outro lado, não é verdadeiro que toda pessoa gorda se alimenta mal, extremamente mal. Assim, podemos perceber que essa premissa tem sido manipulada quando se quer corrigir o corpo gordo, de modo que demonizar a comida ou regular a ingestão é artifício para punir o corpo gordo e os corpos que engordam.

Como posso ajudar alguém a estabelecer uma relação amistosa com a alimentação e com o próprio corpo?

Eu sigo a linha “Haes, Health at Every Size”, uma estratégia pensada por pesquisadoras, profissionais de saúde e ativistas da gordura nos EUA, que se fundamenta em 5 princípios. São eles: respeitar os diferentes tipos e tamanhos de corpos existentes; compreender a saúde bem-estar de uma perspectiva multidimensional que inclui aspectos físicos sociais e espirituais ocupacionais emocionais intelectuais; promover todos os aspectos de saúde bem-estar para pessoas de todos os tamanhos; promover o comer de maneira que balanceie as necessidades nutricionais individuais sociedade apetite e prazer; promover atividades físicas individuais apropriadas e prazerosas que melhorem a qualidade de vida ao invés de exercícios com objetivo de perder peso. Não encaro como uma lista de regras, mas como uma mudança, ou um movimento na direção de uma mudança de paradigma sobre o corpo.

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