Bebê é operado ainda ligado à mãe por cordão umbilical em Curitiba

Menina tinha má formação na traqueia que impediria oxigênio aos pulmões caso cordão fosse cortado

Evandro Fadel, de O Estado de S.Paulo

01 Julho 2010 | 17h23

CURITIBA - Uma cirurgia pouco comum, em que a intervenção acontece enquanto o bebê ainda está unido à mãe pelo cordão umbilical, foi realizada no último sábado, no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, e salvou a vida de Helena Pontara.

 

A menina tinha uma má formação na traqueia que impediria a chegada do oxigênio nos pulmões caso o cordão fosse cortado. Ela poderia morrer de asfixia ou sofrer danos graves cerebrais se a cirurgia fosse realizada sem que houvesse circulação gasosa entre ela e a mãe.

 

O problema foi descoberto quando Helena tinha 16 semanas de gestação. "O diagnóstico precoce pela ecografia e a nossa estrutura foram importantes", afirmou o chefe da disciplina de Cirurgia Pediátrica, Miguel Ângelo Agulham.

 

Depois que a mãe, Paula Regina Pontara, de 33 anos, moradora em Telêmaco Borba, na região central do Paraná, procurou o HC, foram seis semanas de preparação para a cirurgia. A intenção era usar o método conhecido como exit (terapia intraparto fora do útero), que consiste em realizar traqueostomia (abertura na traqueia) enquanto a criança está com o corpo parcialmente fora da mãe.

 

A cesariana, prevista para ser realizada na 38ª semana, precisou ser antecipada em quatro semanas, porque a mãe entrou em trabalho de parto, o que já era um complicador a mais. Além disso, a criança estava em posição pélvica (sentada). Apesar das tentativas, não foi possível fazê-la mudar de posição para que a cabeça saísse primeiro. Por isso, optou-se por uma variação, aplicando a técnica oops (operação sob suporte placentário).

 

A mãe recebeu anestesia geral e medicamento para que o útero parasse de contrair e não expulsasse a placenta. "Desse modo, a circulação foi mantida", acentuou o tocoginecologista Renato Sbalgueiro. Enquanto isso, o bebê, sobre as pernas da mãe, era submetido à traqueostomia.

 

Somente quando essa cirurgia foi encerrada, o cordão foi rompido e o bebê passou a respirar espontaneamente. Agora, ele permanece na UTI pediátrica, em situação estável, ainda ligado a aparelhos, que têm sido reduzidos gradativamente. Não há previsão de alta.

 

De acordo com o cirurgião pediátrico Marcelo Stegari, caso a criança nascesse sem os cuidados recebidos morreria por asfixia. Ele acentuou que é possível até se fazer uma traqueostomia após o corte do cordão umbilical, mas como a criança ficaria alguns minutos sem respirar, poderia ter sequelas graves.

 

Depois de um ano de vida, Helena precisará passar por nova cirurgia corretiva das vias aéreas para tirar a traqueostomia. "Não foi fácil, mas uma grande lição de vida", destacou a mãe, que estava ao lado do pai da criança, Thiago Roberto Lopes. Segundo ela, a família foi aconselhada a fazer a cirurgia no exterior, mas, apesar de ter condições financeiras, preferiu confiar na equipe do HC.

 

"Nunca tive uma dúvida, tinha certeza de que daria certo", afirmou. O procedimento todo demorou cerca de duas horas e contou com a participação de 25 profissionais do hospital. Segundo a assessoria do HC, no mundo foram realizadas entre 400 e 500 cirurgias desse tipo. "Na nossa literatura brasileira não encontrei", disse Agulham.

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