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Beber demais e desde cedo

Os pesquisadores afirmam que crianças cujas mães bebem são 80% mais propensas a experimentar álcool precocemente

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

13 Março 2016 | 03h00

Na seara do comportamento, um dos temas que ganharam destaque na grande mídia nas últimas semanas, mesmo para quem não acompanha o Big Brother Brasil, da Rede Globo, foram os sucessivos exageros com a bebida, que culminaram na expulsão da “sister” Ana Paula da casa, após ter desferido dois tapas em outro participante, o que fere as regras do programa, durante uma festa em que o álcool corria solto.

Mesmo para quem não aprecia realities shows é difícil negar que quando um assunto desses aparece ele tem o poder de alertar o grande público para os prejuízos importantes que a bebida pode trazer. 

Na última semana, Ana Paula, já fora da casa, contou que mora sozinha há mais de dez anos e nunca enfrentou os episódios que foram revelados pela TV. De fato, em uma situação de confinamento e exposição, muita gente pode perder a mão com o álcool e, sem se dar conta, começar a exagerar na bebida, na tentativa de controlar a ansiedade e a pressão. 

É possível traçar um paralelo com um padrão de comportamento que muita gente passa a ter, na vida real, quando enfrenta, por exemplo, problemas como perda de emprego, falta de dinheiro, crise no relacionamento ou doença grave de familiares. Nesses momentos, impulsividade, agressividade e dificuldade de autocontrole podem aflorar de maneira nunca vista. O grande desafio é, uma vez passada a situação geradora de estresse, conseguir voltar ao ritmo habitual de consumo de bebida. Há quem não consiga fazer isso sozinho.

Pedir para ir embora porque não há bebida à vontade nas festas, não se lembrar do que fez e agredir fisicamente outras pessoas lembram atitudes de quem passou do ponto com o álcool. Quando isso acontece com frequência pode ser um sinalizador de abuso de álcool, o que muitas vezes necessita de intervenções médicas e terapêuticas específicas. 

Antes dos 11? Um novo estudo britânico, feito pela University College London (UCL) e pela London School of Economics (LSE), mostra que uma em cada sete crianças com menos de 11 anos já experimentou álcool no Reino Unido. Dessas, 14% beberam mais do que alguns poucos goles.

Os pesquisadores, que avaliaram mais de 10 mil crianças, afirmam que aquelas cujas mães bebem são 80% mais propensas a experimentar álcool precocemente. Os garotos estão sob maior risco, e ter um amigo que bebe também aumenta a chance de consumir álcool em cinco vezes.

Outros fatores identificados pelos especialistas que podem levar uma criança a beber foram: puberdade precoce, atitudes antissociais, dificuldades emocionais, falta de supervisão dos pais, um irmão caçula, além de problemas familiares. Para muitas crianças, beber é visto como uma atitude positiva, uma vez que elas ficam mais à vontade com os colegas e dizem se sentir melhor. 

Trabalhos anteriores já mostravam que, quanto mais cedo se começa a beber, maiores as chances de padrões nocivos de consumo de bebida na adolescência e na vida adulta, como o abuso de álcool. Também quanto mais frequentes os episódios de “binge drinking” ou “porre” (beber muito em um curto intervalo de tempo), maiores os riscos de dependência de álcool no futuro. 

Ou seja, muitas vezes, quem bebe demais e tem prejuízos na sua vida adulta começou cedo, sem ter recebido limites ou atenção adequada em casa. Por isso a importância de discutir e tratar do tema na família e na escola. E mais: quando a gente deixa de viver uma situação de estresse, que gerou exageros com a bebida, mas passa a ter dificuldade de controlar o consumo, é importante parar, pensar, avaliar e, se necessário, buscar ajuda. Quem está por perto pode ajudar a dar esse alerta.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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