Brett Carlsen / The New York Times
Brett Carlsen / The New York Times

Beber moderadamente protege seu coração? Estudo genético traz uma nova resposta

Pesquisa aponta que não há nível de consumo de álcool que não confira risco de doença cardíaca

Gina Kolata, The New York Times

31 de março de 2022 | 10h00

Na semana passada, dois pacientes perguntaram a Stanley L. Hazen, cardiologista da Cleveland Clinic, qual quantidade de consumo diário de álcool seria boa para sua saúde cardíaca. Ele deu a ambos conselhos médicos bem aceitos: uma média de uma dose por dia ajuda o coração. “Nem pensei duas vezes”, disse ele.

Mas então ele leu um artigo publicado no JAMA Network Open cujas descobertas derrubaram seu pensamento sobre o que dizer aos pacientes. O artigo, disse ele, “mudou minha vida completamente”.

Sua conclusão: não há nível de consumo de álcool que não confira risco de doença cardíaca. O risco é pequeno quando as pessoas consomem em média sete doses por semana em comparação com nenhuma. Mas aumenta rapidamente à medida que o nível de consumo de álcool aumenta.

“A quantidade importa muito”, disse o Krishna G. Aragam, cardiologista preventivo do Massachusetts General Hospital e um dos autores do estudo. “O importante é saber que, à medida que você vai além das faixas mais moderadas, o risco aumenta bastante”.

O estudo, que pode ajudar a resolver disputas médicas sobre os efeitos do álcool no coração, envolveu análises sofisticadas dos genes e dados médicos de quase 400 mil pessoas registradas no UK Biobank, repositório britânico que os pesquisadores usam para estudar os genes e suas implicações para a saúde. A idade média dos indivíduos selecionados para o estudo sobre o álcool foi de 57 anos, e eles relataram consumir uma média de 9,2 doses por semana.

Alguns pesquisadores relataram que beber modestamente protege o coração porque os bebedores moderados, tomados em conjunto, têm menos doenças cardíacas do que as pessoas que bebem muito ou as que não bebem. Aragam e seus colegas também identificaram esse efeito. Mas a razão, relatam eles, não é que o álcool protege o coração. É que os bebedores leves a moderados – aqueles que consomem até 14 doses por semana – tendem a ter outras características que diminuem seu risco, como fumar menos, se exercitar mais e pesar menos do que aqueles que bebem mais e os que não bebem.

Não se sabe por que os bebedores moderados tendem a ser mais saudáveis do que as pessoas que não bebem, disse Aragam. Mas o estudo do Biobank não perguntou por que as pessoas bebiam ou não bebiam, só tentou fazer uma distinção entre os efeitos do álcool para o coração e os efeitos de outros hábitos, comportamentos e características. Para fazer isso, os pesquisadores usaram um método chamado randomização mendeliana.

Pesquisadores descobriram variantes genéticas que predispõem a pessoa a beber mais ou menos. Como as variantes são distribuídas aleatoriamente em determinada população, elas podem funcionar dentro de um estudo como algo equivalente a designar aleatoriamente algumas pessoas para se absterem ou beberem em níveis variados. Os pesquisadores podem perguntar se as pessoas com variantes ligadas ao maior consumo de álcool têm mais doenças cardíacas e pressão alta do que as pessoas com variantes ligadas ao menor consumo.

A análise estatística dos pesquisadores mostrou uma curva exponencial de risco com as variantes genéticas que sugerem maiores níveis de consumo. Os riscos de doenças cardíacas e pressão alta começaram a subir lentamente à medida que o número de doses aumentava, mas ganharam força rapidamente, explodindo quando as pessoas entravam na faixa de consumo abusivo de 21 ou mais doses por semana.

Os riscos mais sérios dependem de se a pessoa tem outras condições, como diabete ou obesidade. Mas, disse Aragam, extrapolando os resultados do estudo, uma pessoa típica de meia-idade que não bebia tinha uma chance estimada de 9% de ter doença cardíaca coronária. Uma pessoa que tomava uma dose por dia tinha uma chance estimada de 10,5%, o que é baixo. A partir daí, porém, o risco aumenta rapidamente.

Muitos estudos anteriores sobre consumo de álcool e saúde do coração eram observacionais, o que significa que os indivíduos eram acompanhados ao longo do tempo para ver se a quantidade de bebida estava ligada à saúde do coração.

Esses estudos só conseguem encontrar correlação, mas não causa, dizem os pesquisadores. Mas o uso da randomização mendeliana no estudo do Biobank é mais sugestivo de causalidade e, portanto, seus resultados podem ter mais peso.

“Temos de começar a pensar nesses intervalos moderados e informar os pacientes da maneira correta”, disse Aragam. “Se você escolhe beber, precisa saber que, além de um certo nível, o risco aumenta bastante. E, se você optar por beber menos, terá a maior parte do benefício se ficar na faixa de sete bebidas por semana”.

Amit V. Khera, um dos autores do estudo e cardiologista da Verve Therapeutics, disse que o padrão-ouro para avaliar os efeitos cardíacos da bebida seria, é claro, um grande ensaio clínico randomizado. Um estudo como este chegou a ser planejado em 2017 pelos Institutos Nacionais de Saúde. Mas foi encerrado porque os pesquisadores tiveram contato inadequado com a indústria do álcool enquanto estavam planejando o estudo.

As técnicas de randomização mendeliana, disse Khera, “são particularmente úteis quando um padrão-ouro não foi ou não pode ser feito”.

Apesar das dificuldades em fazer um teste randomizado sobre consumo de bebida, um estudo recente na Austrália ofereceu algumas pistas. O estudo australiano envolveu 140 pessoas com fibrilação atrial, uma forma de doença cardíaca. No início do estudo, os participantes relataram beber uma média de 17 doses por semana.

Um grupo de 70 pessoas selecionadas aleatoriamente foi convidado a se abster e conseguiu reduzir seu consumo para uma média de duas doses por semana. Durante o período de seis meses do estudo, as pessoas no grupo controle tiveram fibrilação atrial 1,2% do tempo em comparação com 0,5% para as pessoas randomizadas para beber menos.

Hazen, o cardiologista de Cleveland, disse que o novo estudo do Biobank fez com que ele se perguntasse sobre os efeitos do aumento do consumo de álcool durante a pandemia. Pesquisadores observaram que as pessoas estão bebendo mais desde o início da pandemia, e um relatório recente descobriu que o número de mortes relacionadas ao álcool aumentou 25% em 2020.

A pressão arterial também aumentou na pandemia. Examinando dados nacionais, Hazen e seus colegas descobriram que aumentou em média quase 3 milímetros de mercúrio. “Não tínhamos ideia de como isso estava acontecendo”, disse Hazen.

As mudanças no peso corporal dos participantes não foram responsáveis pelo aumento da pressão arterial durante a pandemia. O aumento, que ocorreu em todos os 50 Estados e em Washington, D.C., era um enigma.

Agora ele tem um novo raciocínio. “Oh, meu Deus. Talvez o aumento do consumo de álcool seja responsável pelo aumento da pressão arterial”, disse Hazen./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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