Philadelphia Museum of Art/Joseph Hu via The New York Times
Philadelphia Museum of Art/Joseph Hu via The New York Times

Bifes preparados a partir de células humanas provocam interesse e repulsa

Projeto de artista oferece uma visão absurda da carne produzida em laboratório e desencadeia um debate e reações negativas em Londres

Zachary Small, The New York Times

09 de dezembro de 2020 | 12h00

A finalidade de exibir bifes de carne produzidos a partir de células humanas no Design Museum em Londres era criticar o uso cada vez maior de células vivas de animais para produção de carne e provocar um debate sobre a bioética e os problemas da crítica artística.

Orkan Telhan, artista e professor de Belas Artes da Stuart Weitzman School of Design, na Universidade da Pensilvânia, passou todo o ano passado imaginando como a mudança climática deve impactar o futuro do consumo alimentar. Ele trabalhou em colaboração com cientistas para criar um projeto que inclui panquecas impressas em 3D, carne produzida em laboratório e salmão geneticamente modificado. Mas o projeto que desenvolveram, provocativo, mas menos apetitoso, que deram o nome de Ouroboros Steak, carne cultivada a partir de células humanas e sangue vencido, é uma contestação das práticas de sustentabilidade da nascente agricultura celular que desenvolve produtos em laboratório a partir de culturas de células existentes.

Depois de ser inaugurada no Design Museum, em outubro, surgiu um intenso debate online sobre as motivações desse projeto. Telhan recebeu dezenas de e-mails com ameaças e, em postagens nas redes sociais, foi chamado de “perverso” e “diabólico”. Algumas mensagens exigiam a destruição da obra. Segundo o artista, “rapidamente o foco passou para as acusações de que estávamos promovendo o canibalismo. Uma má interpretação que foi politizada erroneamente porque humanos comendo um ao outro é um tema tabu”.

Baseada no símbolo egípcio antigo de uma serpente comendo a si mesmas, a instalação Ouroboros Steak examina, mas não promove, o canibalismo como uma visão satírica da demanda cada vez maior por produtos derivados de carne em todo o mundo, o que provavelmente contribuirá para aumentar as emissões de carbono e reduzir a biodiversidade, como advertem os cientistas.

Os designers esperavam que, ao chocar o público com essa sugestão, isto provocaria um exame mais responsável dos problemas ambientais e de um setor de carne que tem se promovido como produtor de alimentos sem mortes, apesar de muitas empresas utilizarem intensamente sérum bovino fetal durante o abate de vacas grávidas para cultura de células.

“Nosso projeto oferece uma solução absurda para um problema grave”, afirmou Andrew Pelling, biofísico que se juntou com Telhan e a designer industrial Grace Knight para criar os bifes. “Mas no nosso cenário você está pelo menos dando consentimento para tirarem suas próprias células. No mundo da carne produzida em laboratório, você extrai as células de animais sem o consentimento deles”.

Por mais controverso que seja o projeto, os grandes bifes de carne viajaram pelos museus dos Estados Unidos no ano passado sem nenhum problema – mesmo quando expostos em pratos de prata.

“Qualifico o projeto como um sucesso inesperado”, disse Michelle Millar Fisher, curadora da exposição Designs for Different Futures, no Philadelphia Museum of Art e depois viajou para o Walker Art Center em Minneapolis. “A provocação que está no âmago desta exposição é realmente justa. É importante nos perguntarmos onde obtemos nossas proteínas”.

Não há planos para removê-la do Design Museum antes do seu término, em março de 2021, embora Fisher e Telhan pretendam responder às críticas feitas à instalação em futuras conversas online. Priya Khanchandani, curadora chefe do Design Museum, também defende o projeto afirmando que ele é “equivalente a um projeto de distopia”.

“A exposição levanta uma questão controversa que, numa época de recursos severamente exauridos, precisa ser colocada”, acrescentou ela.

O investimento na agricultura celular aumentou a um ritmo notável nos últimos anos, ao passo que os debates em torno da bioética envolvendo a carne produzida em laboratório ficaram em segundo plano. Pesquisadores de mercado calculam que as operações com carne produzida em laboratório devem chegar a US$ 214 milhões em 2025 e mais do que dobrar para US$ 593 milhões em 2032. 

Este ano, o programa National Science Foundation Growing Convergence concedeu US$ 3,5 milhões da Universidade da Califórnia para pesquisa sobre carne artificialmente produzida. E em dois de dezembro, Singapura foi o primeiro governo a aprovar o consumo de células de frango produzidas em laboratório, autorizando a empresa com sede em São Francisco, Eat Just, a vender seus nuggets de frango geneticamente modificados.

“É necessária uma crítica produtiva quando inauguramos uma nova tecnologia”, disse Isha Datar, diretora executiva do New Harvest, instituto de pesquisa focado nos avanços da agricultura celular. “Esta tecnologia promete criar meios mais sustentáveis de produção de carne, mas como vamos nos responsabilizar em assegurar que isso realmente vai ocorrer?”.

Nas últimas décadas, vários artistas têm questionado a ética da biotecnologia, adotando métodos e maquinário do setor. O artista brasileiro Eduardo Kac trabalhou com um grupo de geneticistas em 2002, para misturar o DNA de um coelho albino com o de uma medusa luminescente com o fim de chamar atenção para o que o cruzamento transgênico de características de espécies pode significar para o genoma humano. Em 2019, o artista Jordan Eagles projetou imagens ampliadas de sangue nas paredes da galeria do Museu Andy Warhol em Pittsburgh a título de comentário sobre o estigma associado às doações de sangue LGBTQ e de pessoas com Aids.

Apesar do fluxo de mensagens de ódio recebidas por e-mail, Telhan e seus colaboradores afirmam ter recebido também inúmeros pedidos de pessoas interessadas na compra de um kit para produzirem carne a partir das suas próprias células (não está à venda). Pelling disse ter recebido também mensagens de capitalistas de risco dispostos a investir no projeto ou em algum programa de incubadoras. Mas no momento não existem planos para trazer carne produzida com células humanas para o mercado.

“Este projeto é provocativo, talvez por demais provocativo. É apenas um sintoma do entusiasmo em torno da carne de laboratório”. /Tradução de Terezinha Martino

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