Charles Platiau
Charles Platiau

Bill Gates, o vírus e a busca pela vacinação do mundo

O bilionário está trabalhando com OMS, farmacêuticas e organizações sem fins lucrativos para derrotar o novo coronavírus em todos os lugares, até mesmo nas nações mais pobres do mundo. Vão conseguir?

Megan Twohey e Nicholas Kulish, The New York Times

24 de novembro de 2020 | 11h00

O chefe de uma das maiores fabricantes de vacinas do mundo tinha um problema. Adar Poonawalla, presidente-executivo do Serum Institute of India, precisava de US$ 850 milhões para começar a produzir doses de vacinas promissoras contra o novo coronavírus para os pobres do mundo.

Poonawalla calculava que poderia arriscar US$ 300 milhões do dinheiro de sua empresa, mas ainda faltariam mais de US$ 500 milhões. Então ele procurou um executivo de software aposentado em Seattle.

Bill Gates, fundador da Microsoft que se tornou filantropo, conhecia Poonawalla havia anos. Gates gastara bilhões para ajudar a levar vacinas para o mundo em desenvolvimento, trabalhando em estreita colaboração com executivos farmacêuticos para transformar o mercado. Ao fazer isto, ele se tornou o mais poderoso – e controverso – ator privado na saúde global.

Ao fim da conversa deste verão, Gates tinha feito uma promessa: a Fundação Bill e Melinda Gates forneceria uma garantia de US$ 150 milhões para que a fábrica indiana pudesse prosseguir com a produção. Em setembro, a fundação dobrou seu compromisso.

Tudo isso faz parte de um esforço de US$ 11 bilhões para estabelecer as bases para adquirir vacinas contra o novo coronavírus para mais de 150 países – embora o custo possa ser maior. Financiada em grande medida com dinheiro público, a iniciativa é liderada por duas organizações sem fins lucrativos globais que Gates ajudou a fundar e financiar, junto com a Organização Mundial da Saúde, que conta com a Fundação Gates como um de seus maiores doadores.

Trabalhando nos bastidores não está um cientista nem um médico, mas o segundo homem mais rico do mundo, que vê a si mesmo e a sua fundação de US $ 50 bilhões como singularmente preparados para desempenhar um papel central. Gates e sua equipe estão se valendo das conexões e da infraestrutura que a fundação construiu ao longo de duas décadas para ajudar a orientar os esforços.

“Nós sabemos trabalhar com os governos. Nós sabemos trabalhar com a indústria farmacêutica. Nós pensamos muito sobre esse cenário”, disse Gates em uma entrevista recente. “Precisamos – pelo menos em termos de experiência e relacionamento – desempenhar um papel muito, muito importante aqui”.

Enquanto as primeiras vacinas candidatas correm em direção à aprovação regulatória, a questão de como imunizar grande parte da população mundial assume uma urgência adicional. Mas, nove meses depois, o sucesso da iniciativa da vacina, conhecida como Covax, não está nem um pouco garantido.

Até agora, a iniciativa arrecadou apenas US$ 3,6 bilhões em financiamento para pesquisa, fabricação e subsídios para países pobres. Três empresas prometeram entregar vacinas, mas ainda não se sabe se estas serão eficazes. E pode ser difícil garantir as bilhões de doses necessárias de maneira acessível e em tempo hábil, porque os Estados Unidos e outros países ricos fizeram acordos separados para seus cidadãos.

Nos últimos meses, Gates organizou mesas-redondas online com executivos de empresas farmacêuticas. Ele também buscou compromissos financeiros de líderes mundiais e tem consultado frequentemente o Dr. Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do país e colaborador de longa data em iniciativas de vacinas. E, para ajudar no esforço da vacina, sua fundação forneceu milhões de dólares para consultores da McKinsey & Co.

Se a iniciativa, auxiliada pela fortuna e pelo foco de Gates, conseguir ajudar a proteger os pobres do mundo de um vírus que já matou mais de 1,3 milhão de pessoas, ela confirmará a eficiência das estratégias que ele promoveu em seu trabalho filantrópico, incluindo incentivos para empresas farmacêuticas.

Se o esforço for insuficiente, no entanto, poderá intensificar os apelos por uma abordagem mais radical.

Em meio à pandemia, algumas autoridades de saúde pública argumentam que os fabricantes de vacinas, muitos dos quais se beneficiaram de um financiamento público sem precedentes, devem ser compelidos a compartilhar sua tecnologia, dados e know-how para maximizar a produção. Índia e África do Sul, por exemplo, estão pressionando para suspender a aplicação global dos direitos de propriedade intelectual em relação ao vírus.

Dr. Zweli Lawrence Mkhize, ministro da saúde da África do Sul, disse que as práticas usuais não se aplicam nesta crise. “Tem de haver um grau de consulta mais ampla que analise o que é melhor para a humanidade”, disse ele.

No atual plano para um acordo global de vacinas, os países pobres receberiam doses suficientes para inocular apenas 20% de suas populações até o fim do ano que vem. Alguns modelos mostram que não haverá vacinas suficientes para inocular o mundo inteiro até 2024.

“A consequência das estratégias de longa data de Gates é que elas admitem o controle corporativo sobre o fornecimento”, disse Brook Baker, professor de direito da Universidade Northeastern e analista de políticas da Health GAP, que defende o acesso equitativo aos medicamentos. “Em uma pandemia, isso é um grande problema”.

Enquanto isso, autoridades de alguns países que participam da iniciativa da vacina reclamam que elas quase não foram consultadas até recentemente. “Eles estão nos pressionando, nos encurralando, para nos fazer pagar”, disse Juan Carlos Zevallos, ministro da Saúde do Equador, sobre os negociadores. “Não temos escolha sobre qual vacina gostaríamos de ter. Será qualquer coisa que eles nos impuserem”.

'Bill Calafrio'

Quando um novo coronavírus saído de um mercado de animais vivos começou a se espalhar rapidamente em Wuhan, China, Gates ficou acompanhando a situação de seu escritório nos arredores de Seattle.

Em 14 de fevereiro, temendo uma ameaça global, ele e os líderes de sua fundação se reuniram para planejar uma resposta.

Duas semanas depois, o Dr. Seth Berkley – executivo-chefe da Gavi, a Vaccine Alliance, uma organização sem fins lucrativos que a fundação de Gates ajudara a fundar – voou para Seattle. Ele e Gates pensaram em como levar vacinas contra a covid-19 para o mundo em desenvolvimento. Em 13 de março, dois dias após a OMS declarar pandemia global, Gates conversou online com doze executivos farmacêuticos de alto escalão, entre eles os presidentes da Pfizer e da Johnson & Johnson, ambos com vacinas candidatas.

Gates começou a se interessar por imunizações no fim da década de 1990. As vacinas envolviam a criação de novas tecnologias, sua especialidade. Seu impacto era mensurável; doses baratas poderiam proteger centenas de milhões contra doenças devastadoras. E também eram oportunidades de negócios.

Muitas empresas farmacêuticas ocidentais haviam parado de produzir vacinas na época, considerando-as pouco lucrativas. Mas, por meio de suas doações, Gates ajudou a criar um novo modelo de negócios envolvendo subsídios, compromissos antecipados de mercado e garantias de volume. Os incentivos atraíram mais fabricantes, resultando em muito mais vacinas que salvam vidas.

Com uma promessa inicial de US$ 100 milhões, Gates ajudou a criar a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias, com o objetivo de investir em medicamentos e vacinas experimentais. A fundação, que tem cerca de 1.600 funcionários, também financiou pesquisadores acadêmicos, instalou seus executivos em conselhos de várias organizações sem fins lucrativos e investiu diretamente em empresas farmacêuticas.

Uma delas foi a empresa alemã BioNTech, que obteve um investimento de capital de US$ 55 milhões em setembro de 2019. A empresa, em parceria com a Pfizer, anunciou na semana passada que sua vacina contra a covid-19 parecia ter eficácia de 95% e entrou com um pedido junto à FDA, agência sanitária dos Estados Unidos, para uma autorização de emergência.

Algumas autoridades de saúde pública discordam das prioridades de Gates, argumentando que ele deveria ter direcionado mais dinheiro para os sistemas de saúde. Outros se preocupam com o fato de um único indivíduo exercer tanta influência. Mas poucas pessoas criticaram publicamente sua fundação, com medo de perder seu apoio. Essa autocensura se tornou tão difundida que rendeu um apelido: “Bill Calafrio”.

Às vezes, ficaram evidentes alguns atritos com a OMS, a agência das Nações Unidas encarregada da saúde pública internacional. Gates se frustrava com o que considerava uma burocracia rígida da organização e com as restrições na relação com o setor privado.

Alguns membros da OMS ficaram preocupados com seu crescente alcance.

“A presença da Fundação Gates foi, na melhor das hipóteses, um complemento da OMS e, na pior, uma jogada hostil e uma usurpação”, disse Amir Attaran, professor de direito e medicina da Universidade de Ottawa.

Hoje, a fundação e a OMS enfatizam seu respeito mútuo.

Capitalismo em ação

Em março, Gates instou as farmacêuticas a agir rapidamente, cooperar umas com as outras, abrir suas bibliotecas de compostos de drogas e até mesmo compartilhar responsabilidades de produção.

A Fundação Gates emprega ex-executivos de farmacêuticas em seus escalões superiores. Trabalhando com a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias, eles ajudaram a direcionar dinheiro para as vacinas candidatas contra a covid-19 e para biotecnologias que poderiam ser rapidamente fabricadas e adequadas para o mundo em desenvolvimento.

Alguns defensores da saúde pública e provedores locais, como os Médicos sem Fronteiras, achavam que Gates estava fazendo muito pouco para buscar o acesso equitativo às vacinas e estava muito alinhado com a indústria farmacêutica.

“O motivo pelo qual gostam dele, pelo menos em parte, é que ele protege seu modo de vida”, disse James Love, diretor da Knowledge Ecology International, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para expandir o acesso à tecnologia médica, sobre Gates e os executivos da indústria farmacêutica.

Ele e outros acreditam que os fabricantes de vacinas não maximizarão a produção para o mundo em desenvolvimento, especialmente quando os países ricos clamam por doses, porque isso não seria bom para seus resultados financeiros. Ao pedirem à Organização Mundial do Comércio que não fizesse cumprir os direitos de propriedade intelectual relacionados ao novo coronavírus, a Índia e a África do Sul buscavam uma forma de arrancar o controle de vacinas das mãos das grandes empresas e fomentar a fabricação local.

Mas Gates e muitos especialistas em saúde pública acham que a maioria das empresas estão tomando medidas louváveis para ajudar a garantir o acesso, como preços de custo e licenciamento de tecnologia para outros fabricantes. Eles argumentaram que as farmacêuticas não assumiriam o custoso processo de criação de novos produtos se suas lucrativas patentes fossem comprometidas e que seu controle sobre as vacinas garantiria qualidade e segurança.

“Essa coisa do capitalismo – na verdade, existem alguns domínios em que realmente funciona”, disse Gates. “A Coreia do Norte não tem muitas vacinas, até onde que sabemos”.

'Agindo como um lobista'

Era 4 de maio e os Gates estavam em uma chamada de vídeo com Boris Johnson. Eles parabenizaram o primeiro-ministro britânico pelo nascimento de seu filho e perguntaram sobre o caso de covid-19 que o mandara para o hospital.

Em seguida, fizeram sua apresentação: o mundo nunca estaria a salvo do vírus e a economia global nunca se recuperaria, a menos que os países pobres também recebessem vacinas e tratamentos.

Bill Gates tinha um longo histórico de conseguir que os países ricos fornecessem financiamento para iniciativas de saúde pública nos países mais pobres. Os políticos o viam como um gestor de dólares públicos com faro para bons investimentos.

Solicitou-se aos governantes dos países ricos que não apenas ajudassem a financiar a iniciativa – que estava apoiando o desenvolvimento de nove vacinas em potencial – mas também que comprassem doses para suas próprias populações.

As empresas cobrariam o mesmo preço de todos os países ou estabeleceriam preços diferenciados para nações de baixa, média e alta renda; qualquer um poderia desistir do acordo se o preço ultrapassasse US$ 21 por dose. Os países pobres poderiam obter doses baratas e subsidiadas para até 20% de suas populações até o fim do próximo ano, mas as nações mais ricas poderiam fechar acordos para mais.

Com tanta atenção às nações ricas, sobrou pouca consulta àquelas que a iniciativa mais pretendia ajudar. Foi só no outono que os países de baixa renda souberam que teriam de pagar US$ 1,60 ou US$ 2 por dose, um preço significativo que exigiria que alguns pedissem empréstimos bancários ou doações.

“Vai ser subsidiado, sim, mas os países ainda precisam fazer um orçamento para o valor do copagamento”, disse Chizoba Barbara Wonodi, diretora do Centro Internacional de Acesso a Vacinas da Johns Hopkins para a Nigéria. “Portanto, eles precisam estar à mesa quando essas discussões forem feitas”.

Alguns países de renda média também se sentiram pressionados, solicitados a pagar preços mais altos, sem muito poder de decisão sobre o que obteriam ou quando.

Zevallos, ministro da Saúde do Equador, disse que conversou com outros ministros da região sobre levantar questionamentos por meio de seus presidentes. “Eles dizem: ‘Você não escolhe, só paga’”, disse Zevallos. “Estou desapontado”.

Berkley, o diretor da Gavi, reconheceu a frustração. “Nós nos comunicamos com todos da melhor maneira que deveríamos? Absolutamente não”, disse ele. “Mas fizemos o nosso melhor para tentar”.

Ao mesmo tempo, Berkley disse, “reunimos o mundo inteiro para discutir o acesso equitativo às vacinas? Arrecadamos quantias substanciais de fundos? Sim, tudo isso é verdade”.

Com os casos do novo coronavírus se multiplicando em todo o mundo, Gates disse que haveria uma maneira simples de julgar a iniciativa global de vacina: “Quando vamos conter a pandemia? É por essa métrica que tudo isso precisa ser medido”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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