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Biólogo, educador físico, médico: quem deveria ser prioritário na vacinação contra a covid?

Alguns profissionais de saúde receberam o imunizante sem ter nenhum envolvimento com o enfrentamento da pandemia; segundo especialistas, falta clareza no plano do governo federal

João Prata, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2021 | 14h00

SÃO PAULO - A divulgação do Plano Nacional de Imunização (PNI) pelo governo federal no ano passado esquentou o debate sobre quem de fato deveria ser vacinado primeiro contra o novo coronavírus. Biólogo, veterinário e educador físico são profissionais da saúde e estão no mesmo grupo prioritário de médicos e enfermeiros, já que também podem atuar na linha de frente contra a covid. Mas, quando a campanha começou, pessoas sem nenhum envolvimento com o enfrentamento da pandemia aproveitaram para receber o imunizante apenas porque, por definição, se enquadrariam na lista.

Diante dos casos de psicólogos, biólogos e nutricionistas alheios à luta contra o coronavírus e vacinados neste primeiro momento, o Ministério da Saúde enviou nota aos secretários de saúde pedindo ajustes: "O Plano Nacional de Imunização é altamente exequível. O problema é que não temos quantidade de vacina para executá-lo. As pessoas deveriam entender que a vacina é mais um elemento de prevenção. E não o elemento. Todo mundo acha que seu grupo é o mais importante, mas deveria seguir uma priorização técnica. A pessoa tinha que pensar se, de fato, está enfrentando alguma situação de risco".

Há quem tenha, por conta própria, agido de forma ética sem determinação formal. A infectologista Sylvia Lemos, 64 anos, por exemplo, poderia ter tomado a vacina contra o coronavírus, mas optou por esperar, pois não está mais na linha de frente do combate à doença. Ela esteve em situação de risco, mas, durante a pandemia, mudou totalmente sua rotina. Trabalhava em cinco hospitais no Recife e fazia cerca de 60 viagens por ano para congressos e consultorias. Em abril, foi afastada do trabalho presencial por suspeita de covid. Teve todos os sintomas, mas o teste deu negativo. Por ter uma mãe de 84 anos e um marido com comorbidade, decidiu mudar sua vida.

O primeiro passo de Sylvia foi entender melhor como funciona o computador e frequentar aulas sobre os programas de conversas online. Depois, adaptou o consultório particular para receber um número menor de pacientes e atender em um maior espaço de tempo, respeitando os protocolos. Por fim, precisou encontrar novas formas de aproveitar o tempo livre, já que não vai mais à praia e também suspendeu idas ao cinema e à pizzaria com os amigos. "Agora ficamos eu e meu marido na Netflix", brinca. 

Para aguentar a rotina em casa, montou um pequeno jardim na varanda de seu apartamento e adotou um gato, uma atitude inusitada para quem nunca foi muito próxima dos bichos. "Achava que tinha que dar leveza à minha casa. Vi uma gatinha abandonada, acho que me sentia abandonada também. Foi uma pequena redescoberta de quem eu seria", conta. 

As aulas na universidade ainda continuam online. Sylvia é professora titular na Universidade Federal de Pernambuco. "Tenho mais de 80 alunos. Tenho que ser exemplo. Não adianta escrever livro sobre biossegurança, fazer um monte de lives e não ser exemplo para mim. Como adaptei minha vida no virtual e não tem vacina para todos ainda, vou esperando minha vez. Tem muitas pessoas mais vulneráveis do que eu e que precisam ser vacinadas antes", afirma.

Repensando a ordem de imunização

Como nem todo mundo pensa como Sylvia, a busca por um Plano Nacional de Imunização mais claro chegou ao Superior Tribunal Federal (STF). O ministro Ricardo Lewandowski determinou que o governo federal informe quem terá prioridade na campanha de vacinação contra o coronavírus.

Para o médico Wladimir Queiroz, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), mesmo após as alterações feitas para o segundo plano de imunização, as prioridades continuam confusas: "Poderia funcionar se tivesse número suficiente de doses. Neste momento, existe carência para terminar a vacinação nos grupos prioritários. Tem hospitais que vacinaram todos os funcionários. Outros que vacinaram só linha de frente mesmo. Está tudo muito perdido".

Queiroz afirma que o Brasil precisa, neste momento, de um plano mais real, desenhado conforme o cenário de dificuldade em comprar as doses. “Os professores tinham que entrar nos grupos prioritários. A gente está colocando professores em risco. Sabemos que crianças podem ter quadro leve e assintomático com potencial transmissor.”

O infectologista Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, acredita que o problema não está bem no plano de imunização, mas na maneira geral como os governantes estão enfrentando a doença. Ele dá o exemplo do Uruguai, que ainda não começou a vacinar sua população, mas tomou outras medidas para evitar a proliferação do vírus.

“Não há dúvida que também funciona. A testagem em larga escala e o rastreio de comunicantes, não está tarde para adotar. Poderia ser colocado em discussão aqui no Brasil também. Fazer o bloqueio de pessoas portadoras, fazer o isolamento dessas pessoas com acompanhamento. A vacina poderia ficar para tempo subsequente. O importante é ter hierarquia nesse processo. Pensar que outra estratégia poderia ser feita para mitigar o problema. É uma lição de casa óbvia, que a China também fez, e a gente não. Tivemos tempo para pensar sobre isso e não fizemos”, afirma.

O Estadão questionou conselhos nacionais de algumas categorias sobre casos em que profissionais foram vacinados sem comprovação de atuação na linha de frente de combate à covid. O Conselho Federal de Educação Física (Confef) disse que o profissional dessa área "possui formação para intervir em contextos hospitalares, em níveis de atenção primária, secundária e/ou terciária em saúde, dentro da estrutura hierarquizada preconizada pelo Ministério da Saúde e considerando o SUS."

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