Marcela Uliano
Marcela Uliano

Biólogos fazem 'vaquinha' para decifrar genoma do mexilhão dourado

Projeto inédito no Brasil de crowdfunding científico visa obter até terça-feira R$ 40 mil

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

07 de junho de 2013 | 17h53

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) está fazendo uma espécie de vaquinha na internet para arrecadar verba suficiente para conseguir sequenciar o genoma do mexilhão dourado (Limnoperna fortunei).

A iniciativa leva o nome gringo de crowdfunding (financiamento coletivo) e no Brasil já foi usado, por exemplo, para trazer bandas de música para cá. Nos Estados Unidos, porém, é uma prática bastante usada para bancar pesquisas científicas e já chegou a levantar US$ 200 mil para um projeto.

Aqui o pedido nesse formato é inédito e também mais modesto – R$ 40 mil. O objetivo é tentar decifrar o DNA da espécie invasora para entender melhor a praga que se espalhou pelo País e descobrir formas de combatê-la.

Alojado no site de crowdfunding catarse (http://catarse.me/pt/genoma), o projeto tem até a próxima terça-feira (11) para arrecadar os R$ 40 mil. Até o momento, os pesquisadores conseguiram pouco mais de R$ 24 mil. Mas se não atingirem a meta, as doações serão devolvidas e eles ficam sem receber nada, conforme as regras do site.

Em um vídeo simpático, a doutoranda Marcela Uliano, do Laboratório de Biologia Molecular Ambiental da UFRJ, em formato de cartoon, explica as  ameaças do mexilhão dourado. Vindo da China em água de lastro de navio, ele entrou pela Argentina em 1991 e em 2001 já estava em Itaipu (PR), na Lagoa dos Patos (RS), nos Rios Paraná, Paraguai e Tietê. “Hoje já está no Pantanal, bem perto dos rios da Amazônia. Essa pesquisa faz parte de um projeto maior para não deixar ele chegar lá”, afirma a estudante.

O molusco bivalve de cerca de 1 centímetro, ao contrário dos seus parentes, não é comestível. E no Brasil não tem predador natural. Assim eles se multiplicam sem parar e, diz Marcela, em um ano podem passar de 5 mexilhões por metro quadrado para 150 mil/m². 

O problema mais conhecido da espécie é que ela entope tubulações de estações de tratamento de água e turbinas hidrelétricas. Várias cidades no sul do País e de São Paulo já registraram prejuízos com o entupimento de canos. 

“E o pior, eles comem ainda mais do que se reproduzem. Filtrando a água, eles fazem as algas desaparecerem. Os peixes se alimentam dos mexilhões, mas eles são difíceis de digerir, e até os peixes podem morrer de indigestão. Chamam o mexilhão de engenheiro de sistemas porque onde ele entra, muda tudo, só que para pior”, sensibiliza Marcela. 

O biólogo Mauro Rebelo, coordenador do laboratório e idealizador do crowdfunding, explica que a ideia de recorrer à vaquinha não ocorreu exatamente por falta de financiamento público, apesar de admitir que ele às vezes é insuficiente. Mas disse que há um objetivo também em fazer a inclusão científica da população. “É uma forma divertida de engajar a população para resolver um problema científico”, diz.

Para fazer uma doação, basta entrar no site: http://catarse.me/pt/genoma. Quem doar acima de R$ 20, pode ainda ser presenteado dando o nome de uma proteína, uma enzima ou até mesmo um conjunto de proteínas.

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